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Assentados gaúchos doam 307 toneladas de alimentos durante a pandemia

Publicado em 30/04/2021 11h27 Atualizado em 30/04/2021 11h55
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Desde o surgimento da covid-19, produtos cultivados pelos beneficiários da reforma agrária no Rio Grande do Sul não estão disponíveis somente para compra. Aproximadamente 307 toneladas de alimentos foram direcionadas a campanhas de solidariedade e outros 55 mil quilos serão distribuídos no sábado (1º), em alusão ao Dia Mundial do Trabalho.

No mesmo dia, o site da cooperativa de assentados Terra Livre (www.terralivre.coop.br) passará a reverter 5% da comercialização a ações solidárias. A plataforma ficará aberta para colaboração de clientes em alimentos ou dinheiro. 

A mobilização reforça iniciativas realizadas ao longo dos últimos meses, como ocorreu no assentamento Conquista da Luta, em Itacurubi, onde as doações eram uma prática local. Com a pandemia, as agricultoras decidiram ampliar o alcance da tradição unindo-se a outras colegas da região das Missões.

Em março deste ano, coletaram 300 quilos de mel, mandioca, abóbora, verduras, frutas e arroz orgânico. “A gente via a alegria de quem colaborou. Também teve pão, cuca e bolo de chocolate feito com muito carinho”, conta Juliana da Silva de Vargas, que participou da atividade junto com a filha Camila, de 10 anos.

A religiosa Jandira Scalcon recorda quando os donativos chegaram ao Lar Escola Nossa Senhora Conquistadora, em São Luiz Gonzaga, que abriga 40 crianças e adolescentes entre zero e 18 anos. “Veio bastante coisa. As assentadas ficaram conversando com a gente, ficamos muito agradecidas por terem lembrado de nós”. Segundo ela, a entidade depende desse tipo de doação e a comida dos assentamentos foi um alívio nas semanas subsequentes. “Se todos aprendessem a repartir, teríamos uma sociedade melhor”, avalia. 

A iniciativa é semelhante ao que ocorreu no sul do estado, onde Claudiomor Inhaia coordena as arrecadações em Herval desde julho de 2020. As primeiras mobilizações atenderam instituições de acolhimento. Aos poucos os agricultores encontraram diferentes maneiras de identificar pessoas com necessidades.

“Criamos uma rede para chegar a quem precisa”, conta o morador do assentamento Nova Herval. Professores e lideranças indicaram famílias em dificuldade e as rádios passaram a anunciar os pontos de distribuição. A última atividade ocorreu no dia 18 de abril e arrecadou 1,4 mil quilos de batata-doce, abóbora, feijão, arroz, milho, ovos e outros mantimentos. 

Região metropolitana
Nas imediações de Porto Alegre, Marildo Mulinari revela a satisfação por ter doado o resultado do trabalho em seu lote, no assentamento Integração Gaúcha, em Eldorado do Sul. “Quando a gente estava no acampamento, muitas vezes precisava de ajuda para ter o que comer. Agora chegou a vez de retribuir”, conta. 

Segundo um dos organizadores das mobilizações no estado, Geronimo Pereira da Silva, das cerca de 307 toneladas de gêneros agrícolas oferecidas pelos assentados gaúchos após o início da pandemia, sete mil quilos chegaram às mãos dos assistidos entre março e abril de 2021.  “É uma missão nossa produzir alimentos saudáveis, cuidar da terra e da natureza e contribuir com os trabalhadores da cidade”, relata Silva. A cada ação, novas arrecadações são planejadas para o período seguinte junto com formas distintas de amparo, como preparo de refeições e ajuda no cadastramento para o Auxílio Emergencial concedido pela União. 

No setor de alimentos, um dos principais destinos dos donativos no entorno de Porto Alegre é o Comitê Gaúcho de Emergência no Combate à Fome. Coordenado pelo Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável do Rio Grande do Sul (Consea/RS), Ação da Cidadania e Cáritas, o Comitê organiza a distribuição das cestas. 

Os contemplados são pessoas em situação de vulnerabilidade alimentar, incluindo populações indígenas, quilombolas, migrantes, ciganos e moradores de periferias. De acordo com o presidente do Consea/RS, Juliano Ferreira de Sá, 20 mil famílias receberam aproximadamente 950 toneladas até março de 2021. Quase um terço veio dos assentamentos. “É uma forma de amenizar a fome neste momento de dificuldade extrema, sem tirar a importância de políticas públicas como Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)”, explica. 

Doações com renda 
Ao lado das doações, programas como o PAA permitem aos assentados colaborarem para a segurança nutricional de terceiros ao mesmo tempo em que proporcionam renda às próprias famílias. A alternativa ganha importância sobretudo no período de dificuldade no escoamento ocasionada pela pandemia.

Atualmente, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) operacionaliza quatro contratos com assentados por meio da Cooperativa Agropecuária e Laticínios Pontão LTDA (Cooperlat); Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita (Coopan); Cooperativa Central dos Assentados da Fronteira Oeste (Coperforte) e Cooperativa Terra Livre. O valor conjunto das propostas alcança 415 toneladas, totalizando R$ 971 mil direcionados à compra de alimentos para 20 mil famílias de Passo Fundo, Canoas, Santa Maria e Guaíba.

“Com o fechamento de outras linhas de venda depois da covid-19, o PAA é uma ferramenta importante porque atende a família que tem necessidade e garante renda para quem produz”, alega Julcemir Marcon, da Coopan. A entidade acaba de concluir a entrega de 100 mil quilos de arroz orgânico, cujo fornecimento é coordenado por 41 famílias.

O grupo também participa das campanhas estaduais de solidariedade e realiza colaborações independentes todas as semanas para populações carentes. Moradora do assentamento Capela, em Nova Santa Rita, Valéria da Silva Noia reprisa a satisfação por produzir e distribuir alimentos. “Um dia nós precisamos. Agora nosso trabalho garante comida na mesa dos outros”.

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