Notícias
Produção
Assentamento em Nova Santa Rita (RS) promove Festa da Colheita do Arroz Agroecológico
A contribuição do cultivo de alimentos orgânicos para a resiliência climática foi tema da 23ª Festa da Colheita do Arroz Agroecológico, realizada em 20 de março (sexta-feira), no assentamento Capela, no município de Nova Santa Rita, no Rio Grande do Sul. Com o tema Agroecologia é o Caminho, o evento reuniu agricultores, simpatizantes e autoridades. A programação também contou com o Festival Terra, Arte e Pão e com a Feira da Reforma Agrária Popular, formada por 35 expositores.
Na abertura do ato, a Secretária-Executiva do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), Fernanda Machiaveli, saudou a trajetória dos assentados. “Quando a gente colhe este arroz, cada grão tem a história de famílias que ocuparam a terra, resistiram e hoje são os maiores produtores de arroz agroecológico da América Latina. Ele sintetiza nosso projeto de desenvolvimento rural com justiça social, combate à concentração fundiária e respeito ao meio ambiente”, afirmou.
Além da reforma agrária, a ministra substituta lembrou de iniciativas do governo federal voltadas a proporcionar equipamentos adequados aos pequenos agricultores, como o Mais Alimentos e o Nova Indústria Brasil. A aliança entre essas medidas pode garantir comida saudável e ecológica para a população brasileira após o país ter saído do mapa da fome.
O superintendente regional do Incra/RS, Nelson Grasselli, enfatizou igualmente o trabalho dos assentados. “Aqui está o exemplo de porque a reforma agrária tem que ser feita e também de que é sinônimo de desenvolvimento para o nosso estado e o nosso país”, acrescentou.
Já o integrante do Grupo Gestor do Arroz Agroecológico, Marcos Dione, explicou a participação da agroecologia na resiliência climática descrevendo processos de produção que preservam o solo, a vegetação permanente e consorciam matas a plantios. No segmento orizícola (cultivo do arroz), o engenheiro agrônomo cita a cobertura da terra e o banco de carbono como metodologias capazes de evitar a erosão e a degradação do solo.
Dione salientou que esta matriz produtiva favorece a saúde pública ao ofertar alimentos de qualidade sem contaminar as águas e o solo com agrotóxicos, adubos solúveis e deriva das pulverizações aéreas. “Temos muito a ganhar com a agroecologia", arrematou.
Cadeia produtiva
A produção de arroz sem venenos pela reforma agrária abrange 2,8 mil hectares em dez assentamentos distribuídos nos municípios de Charqueadas, Eldorado do Sul, Nova Santa Rita, São Gabriel, São Jerônimo, Tapes e Viamão. Conforme o Grupo Gestor, a atividade envolve 290 famílias com expectativa de colher 14 mil toneladas do grão nesta safra.
O setor produtivo é coordenado por um conjunto de instituições: Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (Cootap), Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita (Coopan), Cooperativa de Produção Agropecuária dos Assentados de Tapes (Coopat) e Cooperativa dos Produtores Orgânicos da Reforma Agrária de Viamão (Cooperav). Somente a Coopan, sediada no assentamento Capela, tem capacidade para armazenar e processar 100 mil sacas por ano. O grão é empacotado em embalagens comuns ou a vácuo, para ampliar a validade e manter o valor nutricional.
Já a comercialização fica por conta da Cooperativa Central dos Assentamentos do Rio Grande do Sul Ltda. (Coceargs), além das cooperativas 7 de Julho e Terra Livre. A maior parte do cultivo dos assentamentos é escoada via Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), seguida pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Também é possível adquirir o alimento em feiras e mercados no país.
Segundo Marcos Dione, a produtividade está com tendência ascendente. Em dois anos, o desempenho das colheitas subiu de 100 para 180 sacas (de 50 quilos) por hectare. No município de Tapes, o número chega a 203 sacas por hectare. Uma das explicações está nos bioinsumos fornecidos pela agroindústria Ana Primavesi – localizada no assentamento Viamão, na cidade de mesmo nome – aliados ao itinerário de manejo adequado. A fábrica oferece alternativas à base de extratos botânicos, microbiologia e comunidades de micro-organismos.
A evolução produtiva também contou com apoio federal. Um dos aportes veio do Incra após as enchentes que castigaram o Rio Grande do Sul em 2024. O repasse de R$ 4,3 milhões deu origem a dois convênios com os municípios de Nova Santa Rita e Eldorado do Sul. O objetivo foi estimular a reestruturação da cadeia do arroz agroecológico após os extremos climáticos.
Em Nova Santa Rita, parte do recurso de R$ 1,6 milhão financiou a manutenção dos canais de irrigação favorecendo o plantio neste ano. Conforme o técnico da Secretaria Municipal da Agricultura, Cleomar Pietroski, os próximos investimentos serão na limpeza da infraestrutura de drenagem, na aquisição de motobombas e na readequação da rede elétrica para comportar os maquinários do setor.
Histórico
Pioneiro no assentamento Capela, Airton Rubenich faz parte do grupo de famílias responsáveis pela lavoura onde ocorreu o ato da abertura da festa.
Segundo ele, a orizicultura foi a primeira opção produtiva para os moradores do local devido à disponibilidade de terras baixas. O sistema convencional adotado inicialmente acabou cedendo espaço à proposta sem agrotóxicos. “Era uma discussão desde o acampamento, por causa da nossa saúde, das pessoas que comem o alimento e pelo meio ambiente”, relatou. Além disso, um dos agricultores acabou intoxicado por pesticidas.
Hoje a lavoura orgânica ocupa 400 hectares do assentamento. Conforme Rubenich, este sistema produtivo exige adaptação constante aos elementos da natureza. Os cuidados levam em conta desde a palha na pós-colheita, condições das mudas até o manuseio do solo nas diferentes estações do ano.
O grupo também adotou os bioinsumos. “É uma boinha (comidinha) para as plantas, ajuda a acelerar o crescimento ser for bem manejado e tiver matéria orgânica para as bactérias no solo. Tem bastante estudos com os resultados em áreas secas, agora estamos estudando como usar nas nossas lavouras, que ficam embaixo d’água no inverno”, contou.
Organização
Criado pelo Incra em 1994, o assentamento Capela possui 101 lotes em 2 mil hectares. O local é sede da Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita (Coopan), com 250 participantes entre assentados e agricultores familiares.
Além da lavoura e das instalações voltadas ao arroz, a entidade possui um frigorífico com capacidade para abater 24 mil suínos e 100 bovinos por ano, quase todos criados no assentamento. O terceiro empreendimento do local é a padaria para consumo próprio e venda de excedentes.
Acompanhe as notícias e os comunicados do Incra pelo WhatsApp
Assessoria de Comunicação Social do Incra no Rio Grande do Sul
imprensa.rs@incra.gov.br
(51) 3284-3311 ou 3309