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Angústia de famílias brasileiras é retratada em exposição sobre desaparecidos políticos
O Museu Nacional da Capital Federal foi palco na noite desta quinta-feira (29) de uma solenidade marcada por muita emoção, lagrimas e saudade. Isso porque, foi aberta no local uma exposição fotográfica que vai muito além do registro de imagens de pessoas e lugares, mas sim da história de uma nação, marcada pelas dores e dessabores de quase 20 anos de repressão democrática. Trata-se da exposição “Ausências Brasil”, do fotógrafo argentino Gustavo Germano, que retrata a lacuna deixada por vítimas da ditadura militar de 12 famílias brasileiras.
Na exposição Ausências Brasil, Germano tem como ponto de partida as fotos de vítimas do regime juntamente com seus parentes. As cenas são, então, refeitas no presente, deixando óbvia a perda da família. “Peço perdão pela ausência da capacidade que a democracia atual tem tido de nos dizer onde estão nossos mortos e desaparecidos, onde foram enterrados, o que realmente aconteceu durante a ditadura militar”, disse emocionada a ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR), que participou da solenidade de abertura da exposição.
Ao se dirigir ao curador da mostra, Rosário destacou a sensibilidade do fotógrafo e disse que para ela o que mais chama atenção nas fotos é a mudança no sorriso das pessoas. “O que me toca mais, não é apenas a ausência de uma pessoa na foto, mas a mudança no sorriso e na feição dos que ficaram. Anos depois, essas fotos revelam com clareza a dor e a angústia de todas as mães, irmãos, esposas, maridos, filhos e amigos dos que não retornaram para casa. Estes olhares, se dirigem aos atuais ministros, presidentes, parlamentares, membros do judiciário, tribunais e à sociedade como um todo”, disse Rosário.
Memória – Presente na solenidade, a representante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, Iara Xavier Pereira, ressaltou a importância da disseminação da exposição, para preservar a memória dos que entregaram suas vidas em prol da liberdade e da democracia. “Somente nós familiares podemos sentir a verdadeira ausência. É muito importante que esta exposição possa circular, não apenas nas capitais, mais em todos os lugares deste país, escolas, para que possamos dialogar com as novas gerações e manter a memória deste país”, afirmou Iara, que perdeu o irmão Iuri Xavier Pereira para a ditadura.
“Esta exposição surgiu para denunciar um espaço que está vazio em muitas famílias no Brasil, na América do Sul, e em diversos países mundo à fora. São centenas de pessoas que foram assassinadas pelas ditaduras militares”, disse o fotógrafo Gustavo Germano, que tem um irmão desaparecido pela ditadura miliar da Argentina. Reproduzir as imagens, de acordo com o fotógrafo, não foi tarefa fácil, pois demandou muito tempo de disposição dos familiares, que para ele são os verdadeiros artistas da mostra.
Além de diversos familiares de mortos e desaparecidos políticos, inclusive daqueles retratados na exposição, participaram o evento Miguel Ribeiro, Subsecretário de Cultura do GDF; Paulo Maudus, Secretaria-Geral da Presidência da República; Oroslinda Maria Goulart, Chefe de Gabinete da Ministra Eleonora Menicucci, da Secretaria de Política para as Mulheres; Felipe Donoso, Chefe da Delegação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha; Sueli Belatto, vice-presidente da Comissão de Anistia; Gilney Viana – Coordenador do Projeto Direito à Memória e à Verdade da SDH/PR; Gilles Gomes, coordenador da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos da SDH/PR; e o Diretor do Museu Nacional da República, Wagner Barja.
Exposição – A mostra, que ficará aberta à visitação no Museu da República, em Brasília, até do dia 30 de setembro, faz um convite à reflexão sobre a repressão dos regimes ditatoriais. O desaparecimento do irmão na ditadura militar argentina foi a motivação que levou o fotógrafo Gustavo Germano, anos depois, a fotografar os parentes dos desaparecidos. Uma amostra apenas com famílias argentinas foi o ponto de partida para retratar o drama de milhares de brasileiros. As fotos das famílias argentinas também estão expostas em Brasília.
As famílias brasileiras foram escolhidas após pesquisa no livro Direito à Memória e à Verdade, editado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência (SDH), que também financiou o projeto fotográfico, via edital. O projeto percorreu as regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste para reunir as fotografias das 12 famílias que estão representadas na exposição. A mostra também já foi exibida em São Paulo, em 2012.
Assessoria de comunicação social