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29/9 - Artigo - Na contramão, por Lícia Peres
Li, com grande interesse, a opinião de um dos maiores especialistas em marketing, o americano Philip Kotler, que, palestrando em Porto Alegre, afirmou: “Os consumidores querem das empresas mais comprometimento com uma causa, veem nelas mais responsabilidade por carregar bandeiras”. Salientou ainda o fato de os consumidores estarem mais atentos ao caráter da companhia e à importância de seu envolvimento com as grandes causas mundiais. A identidade seria formada pela mensagem que a companhia acredita, pois, através dela, é transmitida à comunidade sua missão e valores.
Recentemente, foi veiculada campanha publicitária de uma indústria de lingerie protagonizada pela modelo internacional Gisele Bündchen que reforça a visão estereotipada de que a mulher brasileira tem no corpo seu único atributo a merecer valor, aquele que lhe permite algumas pequenas vitórias.
A peça publicitária leva a mensagem “Você é brasileira. Use seu charme”. E o charme, no caso, restringe-se a usar as roupas íntimas da marca para seduzir o marido após bater o carro emprestado por ele ou estourar o limite do cartão de crédito. Vestida, está implícito, não lograria êxito; conversando ou usando argumentos, pior ainda, nem é opção cogitada.
A imagem que fica é a da mulher péssima no volante, a irresponsável que gasta sem pensar, a manipuladora obrigada a usar seus atributos físicos, “o charme da brasileira”, única maneira de livrar-se das consequências dos seus deslizes.
Como era de se esperar, o movimento de mulheres vem se manifestando através de mensagens de repúdio que chegam através da Rede Feminista de Saúde – uma articulação nacional comprometida com a transformação da sociedade. Temos convicção de que o respeito e a garantia dos direitos da mulher são requisitos da democracia.
Além de reducionista, tal campanha é altamente discriminatória. Infantiliza a figura feminina, reforça estereótipos que o cotidiano das mulheres desmente. Está totalmente na contramão da História e da contemporaneidade.