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Entrevista Jair Meneguelli
O ex-deputado federal e ex-presidente da CUT está há oito anos à frente do Conselho Nacional do SESI. Casado, pai de três filhas e avô de dois netos, Jair Meneguelli nasceu em São Caetano do Sul (SP). Torcedor do Palmeiras, diz que não perde uma única partida do seu time. É o idealizador do projeto Vira Vida, que surgiu a partir de uma viagem à Fortaleza, quando ficou ofendido ao ver adolescentes serem distribuídas a turistas italianos. A partir desse episódio, Meneguelli se empenha a tirar crianças e adolescentes do ciclo de exploração e abuso sexual. Seu sonho é que o Vira Vida se torne uma política pública.
SPM – Como surgiu o projeto Vira Vida?
Meneguelli - Há mais de dois anos estava em Fortaleza, na praia do Futuro, acompanhado da minha esposa. Sentamos numa das barracas mais famosas da orla, a Coco Beach, que estava cheia de italianos. Depois de algum tempo no local, percebi a presença de uma moça vestida de branco e usando óculos escuros que ia conversando de mesa em mesa com italianos. No final da barraca, tinham aproximadamente 15 meninas, de todas as idades, que eram distribuídas conforme a conversa. Ao ver aquilo, me ofendi. Tenho três filhas e não podia deixar de fazer algo em relação àquela situação. Não sou candidato a Deus, mas não podia ver aquilo e ficar sem fazer nada. Então, quando retornei a Brasília, fiz uma reunião com minha equipe e começamos a criar o projeto Vira Vida.
SPM – Como é esse programa?
Meneguelli - O Vira Vida surgiu em 2008. É destinado a meninos e meninas de 16 a 21 anos em situação de exploração sexual. Trata-se de um projeto que promove o resgate social de jovens, por meio de uma formação socioeducativa e capacitação profissional, com posterior inserção no mercado de trabalho. Temos o compromisso de garantir oportunidades que realmente mudem a vida das vítimas de abuso e exploração sexual, para que elas resgatem sua autoestima. Costumo dizer que é hora de resgatar o tempo perdido.
SPM – Onde o projeto começou?
Meneguelli - O Vira Vida foi implantado como projeto-piloto em quatro capitais brasileiras: Belém, Fortaleza, Recife e Natal, onde as redes de exploração e de turismo sexual têm destacada atuação. Hoje, já expandimos para outras unidades federativas, como Bahia, Paraná, Paraíba, Piauí e o Distrito Federal. Nossa meta é atingir o país todo.
SPM - Quem está por trás dessa exploração sexual?
Meneguelli - Existe uma rede por trás disso. Começam com as agências de turismo, que envolvem os hotéis, os restaurantes, os taxistas, a polícia e as confecções de biquínis.
SPM – Qual é a participação das confecções de biquínis?
Meneguelli – As confecções fazem os biquínis de acordo com os vôos que chegam a Fortaleza. Na parte do sutiã, de um lado está a bandeira do Brasil e do outro a da Itália, a da Alemanha etc.
SPM - Como são os cursos?
Meneguelli - São voltados para a educação básica, aprendizagem industrial, comercial e orientações à formação de cooperativas e incubação de pequenos negócios. Também oferecemos apoio psicossocial, atendimento à família, auxílio médico e odontológico e uma bolsa de um salário mínimo. Ao final, garantimos aos meninos e meninas participantes a inserção no mercado de trabalho por meios das parcerias.
SPM - Quais são as parcerias?
Meneguelli - O projeto tem como principal estrutura a formação de uma rede de parceiros, integrando instituições governamentais e não-governamentais, instituições comunitárias e filantrópicas, autarquias, empresas públicas e privadas e representantes do setor produtivo, além da Rede Pública de Enfrentamento à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Também conta com apoio das instituições do Sistema S (Sesc, Sesi, Senai, Senac e Sebrae), para a realização dos cursos. Eu participo da construção da parceria. Vou pessoalmente falar com o governador, com o prefeito, com a rede do estado e com os empresários.
SPM - Qual é a meta do projeto?
Meneguelli - Formar três mil jovens por ano.
SPM - Dos jovens formados, qual é a porcentagem de empregabilidade?
Meneguelli - Empregamos 80% dos formandos.
SPM – Qual é o perfil dos alunos?
Meneguelli - A maioria dos selecionados têm baixa escolaridade, pertencem às classes populares e geralmente trazem em suas histórias de vida algum tipo de experiência relacionada ao abuso ou exploração sexual, à gravidez e ao uso de drogas. As meninas são a maioria. Elas são 80% dos alunos.
SPM - O que o senhor percebe nesses jovens?
Meneguelli - Percebo que essas meninas e esses meninos têm inteligência, garra e talento. Até porque, para viver a vida que eles tinham precisavam de tudo isso. O que faltava era uma oportunidade.
SPM - O abuso e a exploração sexual atingem todas as regiões do País?
Meneguelli - Sim. É importante lembrar que a exploração é uma coisa velada.
SPM - Ao falar desse projeto, o senhor se lembra de alguém? Por quê?
Meneguelli - Sim. Lembro-me da Cristina Pereira do Nascimento. Ela é de Natal. A história dela me comove muito. Cristina fez o curso de cabeleireira na periferia de Natal e eu a ajudei. Depois, montou um salão e contratou uma manicure. Essa manicure dizia que ela não ia dar nada na vida. Sabe quem era a manicure? A mãe dela.
SPM - O senhor tem algum sonho? Qual?
Meneguelli - Tenho, sim. Quero que o Vira Vida se torne uma política pública.