Notícias
DIA INTERNACIONA DA MULHER
Hedy, Ada e Grace: o legado de mulheres que mudaram a forma como o mundo se comunica
Quando imaginou um jeito de evitar que torpedos guiados por ondas de rádio fossem interceptados pelos nazistas, a atriz e inventora austríaca Hedy Lamarr não anteviu que sua invenção seria a base para a descoberta de importantes tecnologias como o Wi-Fi, o acesso de aparelhos à internet em redes locais sem o uso de cabos.
Junto com Ada Lovelace e Grace Hooper, Lammar contribuiu para a evolução da forma como nos comunicamos atualmente. São mulheres que, mesmo não tendo o reconhecimento merecido no tempo em que viveram, seguem inspirando gerações de outras mulheres que, ainda sendo minoria na área, atuam com pesquisa e desenvolvimento de tecnologias que utilizamos no dia a dia.
Ao longo do tempo, além do resultado de suas pesquisas e estudos na área de Ciência e Tecnologia, o trabalho desenvolvido por Hedy Lamarr, Ada Lovelace e Grace Hopper continua inspirando mulheres ao redor do mundo, provando que o legado do que elas inovaram permanece.
Wi-Fi e Bluetooth
Nascida em 1914 em Viena (Áustria), Hedy Lamarr chegou aos Estados Unidos em 1937, após sair escondida de seu país de origem ao perceber que as investidas do regime nazista nos países vizinhos estavam se tornando cada vez mais perigosas. Como já tinha experiência como atriz de cinema e era considerada uma das mulheres mais bonitas de sua geração, não foi difícil para ela conquistar Hollywood. Em 28 anos de carreira, participou de mais de 30 filmes.
Curiosa e determinada, entre as gravações de um filme e outro, Hedy Lamarr imaginava como poderia ajudar os países aliados a vencer Hitler e a encerrar a 2ª Guerra Mundial. Em 1940, após conhecer o compositor George Antheil e protagonizar com ele um dueto no piano, ela imaginou que torpedos guiados por frequências alternadas (o que depois ficou conhecido como Frequência Hooping, ou Salto de Frequência) poderiam atingir seus alvos mais facilmente, sem intercepção. A inspiração foi justamente repetir os “sinais”, ou notas que Antheil tocava no piano e ela repetia.
Foram meses de trabalho desenvolvendo o sistema e, apesar da invenção ter sido ignorada pela Marinha dos Estados Unidos durante a 2ª Guerra e só utilizada em 1962, na Crise dos Mísseis), a nova tecnologia se tornou também a base para a criação não só do Wi-Fi, mas também do GPS (Global Positioning System na sigla em inglês ou Sistema de Posicionamento Global, em português). e do Bluetooth.
Ainda que tenha sido utilizada na Crise dos Mísseis, a descoberta de Hedy Lamarr só foi reconhecida pelo governo americano em 1997, quando recebeu menção honrosa pela sua contribuição para a área de eletrônica. Em 2014, exatos 14 anos após sua morte, seu nome entrou para o Salão Nacional da Fama dos Inventores, que reúne os maiores inventores americanos.
A primeira programadora
Ainda antes de Hedy Lamarr, uma outra inventora também não aceitou o papel que era designado às mulheres dois séculos atrás. Desde criança, a inglesa Augusta Ada Byron King (1815-1852), mais conhecida como Ada Lovelace sempre foi incentivada pela mãe a estudar matemática. O sobrenome foi incorporado posteriormente após o seu marido, William Lord King receber o título de Conde de Lovelace, transformando-a em condessa.
Ao conhecer o matemático e cientista Charles Babbage, ela se interessou em conhecer mais os estudos dele sobre um dispositivo mecânico para calcular valores de funções quadráticas, que foi a base para a criação de uma máquina de calcular que, inicialmente, utilizava adição e subtração.
Após uma pausa na carreira por conta do nascimento dos primeiros filhos, Ada Lovelace retornou aos estudos de matemática. Em 1842, ao se deparar com a publicação “Esboço sobre a Máquina Analítica”, do engenheiro e matemático italiano Luigi Menabrea, que se baseou nos estudos de Babbage, ela decidiu traduzir a publicação para o inglês.
Mais que uma simples tradução
O trabalho de tradução, finalizado em 1843, estendeu-se para além de interpretar para o inglês as palavras de Menabrea. Lovelace acrescentou várias anotações, baseadas em na sua análise dos estudos de Babbage, que se tornaram a base para a programação e a criação do computador como o conhecemos hoje. Suas anotações e estudos também inspiraram outros matemáticos da época, como seu primeiro mentor, a aprofundar os estudos sobre máquinas de calcular.
Além de criar o primeiro algoritmo para uma máquina de computação, Ada Lovelace percebeu que essa tecnologia poderia manipular símbolos, e não apenas números. Por esse motivo, ela é celebrada hoje como a primeira programadora do mundo e a mente que previu o potencial de alcance da computação. Em sua memória, toda segunda terça-feira de outubro é comemorado o Dia de Ada Lovelace. A data celebra as conquistas das mulheres nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática.
A mãe do Código
Os estudos de Ada Lovelace certamente inspiraram outra visionária da tecnologia: a estadunidense Grace Murray Hooper (1906-1992). Ela foi uma analista de sistemas, com doutorado em Matemática pela Universidade de Yale que, durante a 2ª Guerra Mundial, acabou entrando para a Marinha dos Estados Unidos, tornando-se contra-almirante.
Enviada pelo governo à Universidade de Harvard, trabalhou como programadora do primeiro computador de grande capacidade, o Mark I. Seus estudos focaram na descoberta de uma linguagem de programação mais próxima da linguagem humana, e que resultou na criação da Linguagem Comum Orientada para Negócios, conhecida na sigla em inglês como COBOL e que é utilizada até hoje por empresas em todo o mundo.
O primeiro bug de computador
Outro marco na biografia de Hooper foi a descoberta do que ficou conhecido como o primeiro bug de computador. Em 9 de setembro de 1947, a cientista e sua equipe estavam trabalhando no computador Harvard Mark II, quando o sistema começou a apresentar falhas misteriosas. Ao investigar, eles descobriram que uma mariposa havia ficado presa em um dos relés eletromecânicos, causando o mau funcionamento.
A equipe, então, retirou o inseto ("bug", em inglês) e o fixou no livro de registros, anotando com humor: “First actual case of bug being found” (“Primeiro caso real de bug encontrado”). Embora o termo “bug” já fosse usado desde o século 19 para designar falhas técnicas, esse episódio se tornou o marco histórico que popularizou o uso da palavra para erros em computadores e consolidou o termo “debugging” (em português “depurar”) como o processo de identificar e corrigir problemas em sistemas.
Exemplos que inspiram
O Brasil possui vários exemplos de mulheres que se destacam na área. Na Anatel, há vários deles, como a atual superintendente de Relações com Consumidores, Cristiana Camarate. Até o início de março, ela integrou o Conselho Diretor da Agência. Para ela, a contribuição das mulheres na área de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) não é apenas simbólica, mas real.
“O setor é conhecido por questões muito técnicas e normalmente dominadas por homens. Mas a verdade é que muitas mulheres contribuíram, contribuem e continuarão contribuindo para este setor. E essa contribuição é real e possibilita que nós avancemos na tecnologia e promovamos as inovações que a sociedade precisa”, destaca.
Servidora de carreira, com experiência de 20 anos na área de regulação em telecomunicações, ela comenta que muitas mulheres a inspiraram ao longo de sua trajetória. “Mulheres que me antecederam aqui na Agência, tanto em cargos de liderança como em outros cargos, me inspiram muito. Mulheres competentes, transparentes, leais e apaixonadas pelo setor como eu, também me inspiram muito.
E quando o assunto é ocupação de espaços, Camarate é categórica: há sim espaços para mulheres na área de TIC e elas não precisam abrir mão de ter uma família, se assim desejarem.
“Não é a escolha binária, entre um e outro. É uma construção e um equilíbrio que cada uma das mulheres pode fazer. Não se intimidem, meninas e jovens que estão buscando entrar no mundo das telecomunicações, da tecnologia, da informação e comunicação. É possível, tem espaço e haverá homens e mulheres que vão apoiar também o seu crescimento. Mas vocês têm que querer e têm que se arriscar a sentar à mesa”, aconselha.
Mais mulheres em Telecom
Outro exemplo de mulheres da atualidade que se destacam na área de Tecnologia é a cientista de Computação, mestra em Ciências e doutoranda em Ciência da Computação pela Universidade de São Paulo (USP) Camila Archutti, considerada referência mundial na luta por mais mulheres na tecnologia. Ela é CEO e co-fundadora da Mastertech, uma escola de habilidades digitais e inovação; e do Somas, organização sem fins lucrativos que reduz distâncias digitais por meio de pesquisa, formação de professores e jovens em vulnerabilidade.
Archutti explica que se aproximou da área de tecnologia muito cedo e, desde o começo, enxergava a computação como uma forma concreta de transformar ideias em realidade. Conforme foi avançando na formação, descobriu que a área ainda apresenta “um desequilíbrio grande de gênero — não só em quantidade, mas também em reconhecimento, espaço de fala e oportunidades”.
Por isso, ela reconhece que histórias como as de Lamarr, Lovelace e Hopper ajudam a posicionar o lugar das mulheres no setor. “Mulheres sempre estiveram na base da inovação, criando, pesquisando, liderando e resolvendo problemas complexos, mas muitas vezes foram apagadas, subestimadas ou registradas à margem. Para mim, isso tem um efeito muito direto: quando a gente tem referências, a gente entende que aquele caminho é possível. Quando não tem, muitas meninas sequer consideram a tecnologia como opção”, diz.
Para Camila Archutti, a falta de equidade de gênero na Ciência e Tecnologia pode ser corrigida com ações consistentes, que incentivem meninas e mulheres a ingressarem e permanecerem na área. “Eu vejo que quando o ambiente é bem desenhado, com acolhimento, didática acessível, projetos práticos, comunidade e apoio, mulheres aprendem e performam em altíssimo nível. O desafio não é ‘falta de talento’: é falta de oportunidade, de redes e de um ecossistema que não expulse as mulheres no caminho”, opina.
Segundo ela, esse “caminho” pode ser pavimentado com ações consistentes em escolas, empresas e instituições: formação e mentoria, políticas claras de prevenção e resposta a assédio, metas de diversidade com acompanhamento, transparência em remuneração e promoção, e uma cultura em que mulheres possam errar, aprender e crescer com a mesma liberdade que os homens sempre tiveram.
Sobre ser, atualmente, uma inspiração para outras mulheres, ela é categórica. “A parte mais bonita é perceber, de forma muito concreta, o efeito da representatividade: quando uma menina vê uma mulher real, com trajetória, erros, acertos e carreira, ela deixa de pensar “isso não é para mim” e começa a pensar “como eu começo?”. Essa virada é poderosa”, finalizou.