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PATRIMÔNIO LINGUÍSTICO
Projeto reúne mais de 40 municípios do RS pela salvaguarda da língua Talian
Foto: Ladir Brandalise
Nos últimos 8 meses, um projeto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) mobilizou prefeituras e sociedade civil de 41 municípios da Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul, em torno de uma mesma língua nascida do intercâmbio entre dois países. Batizado de “Nos 150 anos da imigração, um esforço para salvar a Língua Talian”, o projeto foi desenvolvido pelo escritório técnico do Iphan em Antônio Prado (RS), em parceria com a Associação Cultural Anima D’Itália - Grupo Folclórico Girotondo (Acadi) e com apoio da Universidade de Caxias do Sul (UCS), com o objetivo de criar planos de salvaguarda dessa língua falada por imigrantes italianos desde 1875, no Sul do Brasil. O financiamento ficou por conta da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul (Sedac-RS) por meio da Política Nacional Aldir Blanc.
Gestores dos 41 municípios envolvidos criaram grupos de trabalho para desenvolver planos locais de salvaguarda, realizando reuniões em Caxias do Sul (RS) e Bento Gonçalves (RS). Parte do trabalho consistiu no levantamento de mais de 500 iniciativas que demonstram a presença do Talian na região. Como:
- Leis municipais que instituem o idioma como língua co-oficial;
- Acervos museológicos e arquivísticos;
- Publicações em jornais e revistas;
- Programas de rádio;
- Grupos de canto coral, teatro e folclore;
- Monumentos;
- Roteiros turísticos;
- Eventos temáticos; e
- Ensino nas escolas.
As ações do projeto também incluíram a divulgação do curso curso Talian in Fameia da UCS e a distribuição de materiais didáticos para bibliotecas municipais: os dicionários Português-Talian e Talian-Português de Darcy Loss Luzzatto (publicações do Iphan), o livro Talian par Cei e Grandi - Gramática e Stória, da Associação dos Difusores do Talian (Assodita), e a Cartilha do Projeto Salvaguarda do Talian.
Como legado, o projeto criou o Conselho Consultivo responsável por orientar a implementação do plano de salvaguarda do Talian na Serra Gaúcha, formalizando o compromisso de preservação da língua a longo prazo. Também será produzido um livro com o apanhado dos relatórios dos 41 municípios participantes, além das propostas e assuntos mais importantes abordados durante o processo. O intuito é lançar este produto em fevereiro de 2026, durante a Festa da Uva de Caxias do Sul.
História do Talian
O Talian nasceu em 1875, quando imigrantes de várias regiões do norte da Itália chegaram ao Brasil. As diferentes formas de falar foram se misturando naturalmente, incorporando também palavras do português que foram italianizadas. Durante 70 anos, foi a única língua falada nas regiões de colonização italiana no Sul do Brasil.
Em 1941, proibiu-se o uso do Talian sob pena de prisão. Nas cidades a repressão foi eficaz, mas nas colônias a língua continuou existindo. O estigma, porém, fez os colonos sentirem vergonha do idioma que falavam.
Nas décadas de 1970 a 1990, um movimento de redescoberta e revalorização surgiu entre os jovens, e dicionários, gramáticas, livros, teatros e programas de rádio em Talian começaram a aparecer. Em 2010, a língua foi incluída pelo Iphan no Inventário Nacional da Diversidade Linguística e, em 2014, o Iphan concedeu-lhe o Certificado de Referência Cultural Brasileira.
Atualmente, 30 municípios do Rio Grande do Sul e quatro de Santa Catarina definem o Talian como língua co-oficial. Porém, uma pesquisa da Associação dos Municípios da Encosta Superior do Nordeste (Amesne) da Sedac revelou que o idioma é preservado entre os mais velhos, mas se perde entre os mais jovens.
A língua representa importante elemento da identidade cultural da região, gerando emprego e renda pelo turismo. Mais que preservar um idioma, o projeto fortalece vínculos e inspira a continuidade de uma herança cultural viva e relevante para futuras gerações.
Receitas e histórias: livro celebra 150 anos da imigração italiana
Também aproveitando os 150 anos da imigração italiana no Rio Grande do Sul, a UCS lançou, em novembro, o livro “Culinária da Imigração Italiana no Rio Grande do Sul: Receitas e História”, publicado pela Editora da Universidade (EDUCS) e disponível gratuitamente para download em formato digital. A obra, que teve apoio do Iphan, resgata a memória gastronômica dos imigrantes italianos que chegaram ao estado, apresentando 90 receitas entre sopas, minestras, massas, molhos, conservas e doces.
O livro é resultado de uma pesquisa realizada pela professora aposentada da UCS Cleodes Maria Piazza Julio Ribeiro, no Instituto Memória Histórica e Cultural (IMHC), entre 2009 e 2010. Além das receitas feitas pela equipe de chefs da Escola de Gastronomia da UCS, a publicação mergulha na história da trajetória da culinária ítalo-brasileira, desde a “cozinha da pobreza” enfrentada pelos colonos em terras virgens até o enriquecimento gradual proporcionado pelos fluxos comerciais e trocas culturais.
As receitas, herança de famílias de Antônio Prado (RS), carregam significados culturais e tradições sociais que se constituíram “ao redor da mesa”, eternizando hábitos alimentares da região.
Mais informações
Assessoria de Comunicação Iphan - comunicacao@iphan.gov.br
Amanda Gil – amanda.gil@iphan.gov.br