O combate ao racismo e as formas de atuar contra a manutenção do preconceito racial nas experiências da educação infantil requer uma proposta pedagógica que esteja coerente com o artigo 8º das DCNEI que indica a necessidade de o currículo prever “O reconhecimento, a valorização, o respeito e a interação das crianças com as histórias e as culturas africanas, afro-brasileiras, bem como o combate ao racismo e à discriminação”.
Nesse sentido, o espaço precisa trazer referências imagéticas que valorizem a estética negra, seja pelas pessoas representadas, seja pelos artefatos culturais presentes no ambiente. Os famosos cantinhos devem ter, por exemplo, pentes e cremes adequados aos cabelos crespos, as imagens devem representar pessoas negras em diferentes profissões, especialmente nas mais valorizadas socialmente. É imprescindível que artefatos culturais como tecidos, instrumentos musicais, livros e bonecos expressem a diversidade étnico-racial da sociedade brasileira, com foco na valorização das culturas afro-brasileiras.
Outro aspecto importante é garantir que tanto as interações entre crianças e entre crianças e adultos não sejam permeadas de preconceitos raciais. No que diz respeito à relação adulto/criança, é indispensável manter a atenção nas formas sutis que o racismo se manifesta. Ficar atenta nos modos como se chama as crianças negras, evitando apelidos depreciativos, especialmente fazendo referência a algum elemento do fenótipo (cor de pele e cabelo principalmente) na escolha das crianças para realizar determinadas atividades. É importante evitar que crianças, em geral brancas, sejam as preferidas para realizarem atividades lúdicas e interessantes, enquanto crianças negras são chamadas a fazerem tarefas menos atrativas. Atender imediatamente uma criança branca e deixar crianças negras sem respostas. Destinar afeto a crianças brancas enquanto as negras nunca recebem carinho. Todas estas práticas foram identificadas em pesquisas inclusive com bebês e crianças pequenas, por isso, é muito importante que o adulto esteja constantemente revendo sua conduta para avançar nas experiências antirracista.
Para romper com estas atitudes, as experiências organizadas na educação infantil precisam considerar os Valores Civilizatórios Afro-Brasileiros: circularidade, religiosidade, corporeidade, musicalidade, cooperativismo/comunitarismo, territorialidade/território, ancestralidade, memória, ludicidade, energia vital (axé), oralidade (Azoilda Loretto Trindade) que fazem conexão direta com as linguagens da infância e podem ser articulados aos conhecimentos e aprendizagens de diferentes linguagens, assim como o direito à proteção, à saúde, à liberdade, à confiança, ao respeito, à dignidade, à brincadeira, à convivência e à interação com outras crianças tal como previsto nas DCNEI.
texto elaborado pela Profª Drª Lucimar Rosa Dias