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Do Amapá à Sapucaí: Mangueira reverencia o Marabaixo na avenida
Foto: Eduardo Hollanda/Rio Carnaval
Na última segunda-feira, dia 16, a Estação Primeira da Mangueira desfilou na Marquês de Sapucaí com o samba-enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju - O Guardião da Amazônia Negra”. O tema enalteceu expressões culturais do Amapá, com destaque para o Marabaixo, manifestação típica do estado registrada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural do Brasil desde 2018. O superintendente do órgão no Amapá Michel Flores afirma: “A homenagem dá rosto e coloca o povo amapaense no centro do imaginário Nacional. Esse reconhecimento é especialmente significativo porque o Amapá possui a maior proporção de população autodeclarado negra do país, com 73,7% de habitantes autodeclarados pretos, segundo o IBGE.”
O enredo homenageou Raimundo dos Santos Souza – o Mestre Sacaca – conhecido como “doutor da floresta” ou “curador da floresta”. Ele era procurado por moradores de diversas regiões em busca de tratamentos naturais, chás e ervas medicinais oriundos da cultura afro-indígena. Além disso, Sacaca foi uma figura importante para a cultura do Amapá, atuando nas rodas como marabaixeiro e sendo artesão do instrumento.
Essas referências foram representadas na avenida por meio de itens marcantes da floresta amazônica - como as folhas, raízes e frutos utilizados por mestre Sacaca -, além de alusões à musicalidade e aos rituais do Norte do Brasil. As alegorias e fantasias mesclaram folclore, elementos naturais e símbolos da tradição oral.
O Marabaixo esteve presente em vários momentos do desfile. A bateria da verde e rosa, Tem Que Respeitar Meu Tamborim, contou com a participação de 15 marabaixeiros amapaenses, que levaram para avenida a mistura do samba carioca com o batuque tucuju (termo utilizado para identificar o que é próprio do Amapá, funcionando como um gentílico afetivo para quem nasce ou vive no estado). As referências ao bem cultural também estiveram presentes nas saias rodadas das fantasias, representando os trajes tradicionais das marabaixeiras. Essas mulheres têm papel central nas rodas, as conduzindo, liderando os cantos, mantendo os saberes e cuidando dos barracões.
“Negro na marcação do Marabaixo
firma o corpo no compasso
com ladrões e ladainhas que ecoam dos porões"
trecho do samba-enredo
A homenagem à cultura afro-amapaense garantiu à escola o 6º lugar no grupo especial do carnaval do Rio de Janeiro e a sua participação no desfile das campeãs, que acontece no dia 21 de fevereiro na Marquês de Sapucaí.
Conheça o Patrimônio
O Marabaixo é uma tradição afro-amapaense que reúne canto, tambor, dança, fé e comunidade. É praticado principalmente por famílias negras do estado, em bairros como Laguinho, Santa Rita e Favela, em Macapá; e em Mazagão Velho. A manifestação ocorre nos barracões, espaços comunitários ligados às casas das famílias ou ao centro dos bairros. Lá se preparam os festejos, as rezas, os cantos, os caldos e a gengibirra (bebida feita com gengibre e cachaça, símbolo das festas).
A música tem papel central no Marabaixo: o toque das caixas e dos tambores feitos de madeira e couro marcam o ritmo dos ladrões - versos cantados em coro, que falam de fé, alegria, crítica e resistência. A dança segue o compasso, com passos curtos, giros que envolvem o corpo todo e as saias rodadas das mulheres que dão cor e movimento à roda.O calendário das festas costuma acompanhar datas do catolicismo popular, como o Divino Espírito Santo e a Santíssima Trindade. Mas o Marabaixo tem raízes profundas na cultura africana, que influenciam seus rituais, cantos e modos de celebrar.
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