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FORMAÇÂO PARA O SUS
Participa+ leva primeira oficina de 2026 à cidade histórica de Goiás
Foto: Ascom/CNS
Nos dias 19 e 20 de março, a cidade de Goiás, patrimônio histórico fundado em 1727 e berço da poetisa Cora Coralina, recebeu a primeira oficina presencial do Participa+ 2026, projeto que chega à sua 6ª edição com a proposta de descentralizar as atividades e priorizar os municípios do interior do país.
A atividade reuniu lideranças de movimentos sociais, conselheiras e conselheiros de saúde da Região de Saúde Rio Vermelho, composta por 17 municípios, além de representantes da capital do estado, Goiânia. O objetivo foi qualificar a participação social na construção e no monitoramento das políticas públicas de saúde, por meio de uma programação voltada aos conceitos essenciais do Sistema Único de Saúde (SUS), com foco no financiamento e nos instrumentos de gestão.
Sueli Barrios, conselheira nacional de saúde e coordenadora da Comissão de Educação Permanente em Saúde para o Controle Social do SUS (CIEPCSS/CNS), destacou a importância da decisão do Conselho Nacional de Saúde (CNS) em levar as oficinas para os territórios. “Foi uma decisão do pleno do CNS junto com o nosso parceiro CEAP — sair das capitais e ir para o interior, conhecer a realidade e se aproximar da vida, de onde o SUS acontece”, declarou. O CEAP (Centro de Educação e Assessoramento Popular), parceiro do CNS junto à OPAS/OMS, está envolvido em todo o planejamento e produção do Participa+.
Além da simbologia de realizar a oficina na casa legislativa do município, o evento reforçou o papel dos conselhos de saúde como espaços de democracia participativa, reafirmando a lógica de que não é possível manter um sistema de saúde forte sem a participação da população. “É importante se apropriar e qualificar para mobilizar mais pessoas nos territórios para defender o SUS”, defendeu Sueli.

- Foto: Ascom/CNS
Participação popular
Mobilizar pessoas usuárias do SUS para participação em encontros, fóruns, conselhos locais de saúde e conferências tem sido, cada vez mais, um desafio para o controle social do SUS, de acordo com os participantes da Oficina em Goiás.
Elenízia da Mata, secretária da Igualdade e Equidade Etnico-Racial da Prefeitura de Goiás-GO, acredita que para conduzir momentos de troca e diálogo com a população é preciso mais esforço do Estado. “Como propor agendas para que a comunidade seja ouvida? Não será no tempo do relógio comercial e capitalista”, declarou.
A secretária, cuja família é originária do quilombo São Félix, em Matrinchã (GO), ressalta que as políticas de saúde historicamente promoveram o apagamento de saberes tradicionais e quilombolas. “Agora é preciso chegar novamente a essa comunidade, que passou por um processo sistemático de apagamento pelo Estado, e convidá-la novamente para integrar esses espaços de escuta e diálogo”, afirmou.
Para enfrentar esse desafio, o grupo destacou a importância da Educação Popular em Saúde, que deve ir além da linguagem popular, implicando também em formatos de acesso à escuta que de fato envolvam a população e efetivem os instrumentos democráticos de participação popular.
18ª Conferência Nacional de Saúde
Durante os trabalhos em grupo realizados durante a Oficina, os participantes refletiram sobre o conceito ampliado de saúde, que envolve não apenas a ausência de doenças, mas também o bem-estar físico, emocional e social, o acesso à moradia, transporte, lazer, alimentação e políticas públicas que promovam o bem viver. Foram apontados desafios como a falta de integração institucional, a necessidade de políticas de saúde mental mais robustas e a urgência de garantir equidade para comunidades quilombolas, indígenas, pessoas em situação de rua e assentados.
Nesse sentido, o presidente do Conselho Estadual de Saúde de Goiás (CES-GO), Walter Monteiro, enfatizou como o tema da 18ª Conferência Nacional de Saúde - "Saúde Democracia, Soberania e SUS: cuidar do povo é cuidar do Brasil” - vai ao encontro dessa perspectiva coletiva de saúde, amplamente defendida no âmbito do Participa+ e alinhada aos objetivos de qualificação que o projeto propõe. “Precisamos cuidar do SUS, cuidando do povo. Esse encontro nos permite justamente refletir sobre como, enquanto conselheiros de saúde e lideranças sociais, podemos atuar para fortalecer a participação da sociedade nesse processo”.
Outro ponto relevante e muito debatido durante a atividade foi em relação aos instrumentos de gestão e ao financiamento do SUS. A pauta é inclusive referência para o Eixo II da 18ª CNS, que trata sobre o “Financiamento adequado e suficiente para o SUS, com base na justiça tributária e na sustentabilidade fiscal e social”. Para o diretor-geral e educador popular do CEAP, Henrique Kujawa, o financiamento adequado do SUS é condição indispensável para que o sistema cumpra sua missão. “Se querem justamente que o SUS não aconteça, basta gastar mal o recurso. Os instrumentos de gestão só têm sentido, portanto, se tiverem caráter político, alinhados à concepção de saúde estabelecida pelo SUS”, declarou.
Conselhos Locais de Saúde
A multiplicação das oficinas do Participa+ é vista como estratégia fundamental para mobilizar territórios e ampliar a consciência de que o SUS é para todas as pessoas. Nesse aspecto, os Conselhos Locais de Saúde (CLS) foram apontados como espaços ideais para a multiplicação das Oficinas do Participa+.
A experiência dos Conselhos Locais de Saúde e a multiplicação das atividades podem subsidiar espaços de diálogo com a comunidade a partir da perspectiva de mobilização diretamente no território. Segundo Venerando Lemes, ex-presidente do Conselho Municipal de Goiânia, a capital do estado foi a primeira cidade no país a implantar a estratégia dos CLS, por meio da Lei Complementar n.º 08/1993. Atualmente, Goiânia possui mais de 100 conselhos locais, e parte deles deve receber as estratégias de multiplicação previstas na Oficina de Goiás.
Com a previsão de 110 oficinas ao longo de 2026, o Participa+ reafirma seu compromisso em construir um SUS solidário, universal, equânime e que cuida das pessoas. A primeira oficina em Goiás marca o início de um ciclo que pretende mobilizar conselheiros, trabalhadores, lideranças sociais e usuários do SUS em defesa da saúde pública e da democracia participativa.
Natália Ribeiro
Conselho Nacional de Saúde