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SAÚDE DO TRABALHADOR E DA TRABALHADORA
CNS debate impacto dos agrotóxicos na saúde da população brasileira
Foto; Ascom/CNS
Cerca de 1,3 bilhão de quilos de agrotóxicos foram consumidos no Brasil em 2025. Quando diluído para uso, esse volume pode chegar ao equivalente a 52 mil piscinas olímpicas de calda tóxica, veneno que, enquanto impulsiona a lucratividade do agronegócio, deixa também um rastro de efeitos nocivos no meio ambiente, na saúde de trabalhadores e em comunidades próximas às lavouras. “A gente precisa refletir sobre esse tema porque ele atravessa a vida de milhões de pessoas”, afirmou a coordenadora-adjunta da Comissão Intersetorial de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora do Conselho Nacional de Saúde (Cistt/CNS), Euridice de Almeida, ao abrir o debate sobre o tema realizado na 378ª Reunião Ordinária do colegiado.
Pesquisadores apresentaram danos causados por agrotóxicos à saúde humana, com estudos apontando a associação entre a exposição e o aumento de neoplasias, malformações congênitas, doenças pulmonares, intoxicações agudas, impactos no sistema endócrino e no desenvolvimento cerebral infantil, entre outras. A presença de resíduos de agrotóxicos em grande parte dos alimentos consumidos pela população brasileira, inclusive em produtos industrializados voltados ao público infantil, também foi denunciada no debate.
Representando a Coordenação-Geral de Vigilância em Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde (CGSAT/DVSAT/SVSA/MS), Lucinéia Freitas destacou que os impactos dos agrotóxicos sobre a saúde do trabalhador não se restringem ao momento da aplicação nas lavouras. A exposição pode ocorrer em todas as etapas da cadeia produtiva, incluindo armazenamento, transporte, comercialização e descarte das embalagens. “Precisamos ampliar essa concepção da exposição e pensar o trabalho como atividade humana mais ampla”, afirmou, “e não apenas aquela mediada por uma relação formal ou informal de trabalho”. Freitas também ressaltou a invisibilização das vítimas: mais de 20 mil casos de intoxicação exógena (causado de fora para dentro do organismo) por agrotóxicos foram notificados em 2025, mas os dados reais podem ser muito maiores devido aos desafios da subnotificação.
O pesquisador e coordenador do Grupo de Ergonomia Agrícola e Gestão Ambiental da Universidade Federal da Paraíba (GEA/UFPB), Paulo Adissi, chamou a atenção para a situação dos pequenos agricultores, mais vulneráveis à contaminação devido às condições precárias de trabalho e à informação insuficiente por parte dos fornecedores. “Existe uma porção de ‘faz de conta’ da indústria que é impossível de ser seguida, principalmente para o pequeno agricultor”, alertou. Adissi acrescentou que Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) não garantem segurança total e dos trabalhadores e denunciou casos de empregadores que fornecem aparato inadequado ou mesmo adulterado para burlar a fiscalização.
Além dos riscos à saúde dos trabalhadores, agrotóxicos afetam diretamente o meio ambiente e comunidades próximas às áreas de cultivo. As substâncias não são biodegradadas facilmente e contaminam o solo, a água e os alimentos. Segundo Adissi, embora operações mecanizadas permitam maior controle sobre a quantidade aplicada por área, técnicas como a pulverização aérea representam graves riscos ambientais e sanitários. “Nas aplicações aéreas os riscos ambientais são gigantescos”, explicou, “comunidades vizinhas às áreas também são atingidas”. Estudos apresentados na reunião indicam que morar próximo a regiões de intensa produção agrícola pode dobrar o risco de determinadas doenças.
Se por um lado o consumo dessas substâncias cresce ano após ano — o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo —, por outro, especialistas apontam retrocessos na legislação e na fiscalização, como a redução da autonomia de órgãos de saúde e meio ambiente e a aceleração de registro de novos produtos. O pesquisador Wanderlei Pignati, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), destacou que o atual modelo do agronegócio produz grave “risco sanitário, alimentar, ocupacional, ambiental e social”, o que exige um esforço social amplo para enfrentamento.
Lucinéia Freitas reforçou a importância da vigilância popular em saúde e do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), além de apontar ações do MS para fortalecimento da vigilância em saúde e proteção da vida de trabalhadores e trabalhadoras. Com ampla participação da plenária, conselheiras e conselheiros nacionais de saúde frisaram também a importância de se aprimorar a vigilância em saúde, de se restringir ou proibir produtos e técnicas de aplicação nocivas e de investimentos em modelos agroecológicos, entre outros pontos. “Há uma necessidade urgente de darmos prioridade à vida”, concluiu o conselheiro nacional de saúde, Mauri Bezerra.
O debate sobre agrotóxicos foi realizado em alusão ao 1º de maio, Dia do Trabalhador e da Trabalhadora.
Daniel Zimmermann
Conselho Nacional de saúde