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CNS defende Programa de Vivências no SUS como estratégia de fortalecimento da democracia e da justiça social
Foto: Ascom CNS
O Conselho Nacional de Saúde (CNS) participou, nesta quinta-feira (08/01), do Seminário Ver-SUS/Vivências no SUS, em Brasília (DF). O evento marcou o início da agenda do Programa de Vivências no Sistema Único de Saúde em 2026, sendo uma iniciativa conjunta do Ministério da Saúde (MS), da Associação Rede Unida e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Projetos de vivência permitem que estudantes da saúde e de áreas correlatas tenham contato direto com o cotidiano dos serviços do SUS nos territórios, fortalecendo seu preparo técnico e compromisso social.

O uso de vivências como ferramenta de formação começou com iniciativas independentes, organizadas principalmente por estudantes e docentes ainda na década de 1960. Tais práticas ganharam força nos anos 2000 em um processo que teve participação direta do CNS: a institucionalização do método foi debatida, proposta e aprovada na 12ª Conferência Nacional de Saúde, em 2003. No ano seguinte, o projeto de Vivências e Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde (Ver-SUS) foi incorporado à Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS). Mais recentemente, em 2024, a iniciativa foi revitalizada com o lançamento do Programa de Vivências no Sistema Único de Saúde.
“Essas experiências transformam as pessoas, e as pessoas transformam o mundo", afirmou a conselheira nacional de saúde, Francisca Valda, que representou o CNS na cerimônia de abertura e na mesa-redonda “Vivências, defesa do SUS e da democracia”. Segundo Valda, que também coordena a Comissão Intersetorial de Relações de Trabalho e Educação na Saúde (Cirtes/CNS), a vivência “aproxima o estudante de saúde da realidade, faz com que ele conheça o SUS por dentro e passe a ter um compromisso social com a população”.

A conselheira enfatizou, ainda, o papel estratégico das vivências no cenário atual. “O Ver-SUS é uma estratégia pedagógica para formação no SUS em defesa da democracia e da justiça social”, explicou. “Ela produz transformação nos indivíduos, que se reúnem, se mobilizam e buscam disputar o projeto da concentração de renda com um projeto de bem-viver e de desenvolvimento humano”.
O coordenador-geral da Rede Unida, Alcindo Ferla, também destacou a importância das vivências na promoção de princípios democráticos. “Democracia e soberania não são atributos secundários; são atributos estruturais da aprendizagem em saúde”, concluiu.
Cerca de 400 pessoas se inscreveram no seminário, entre participantes presenciais e remotos. A transmissão do evento está disponível na íntegra no canal do YouTube da TV Rede Unida.
Lançamento do Ver-SUS / Vivências do SUS 2026
Em sua maior edição desde o início da iniciativa, a perspectiva para 2026 é alcançar 42 mil pessoas. Segundo Jérzey Timóteo Ribeiro, secretário adjunto da Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do MS, esse número demonstra a forte capilaridade e o potencial transformador do programa. Durante o lançamento, realizado no período vespertino também na sede da Fiocruz Brasília, o gestor ressaltou que o projeto foca no fortalecimento da formação orientada ao trabalho em equipe e à equidade. O objetivo é promover mudanças nos modelos de atenção e gestão, utilizando a integração ensino-serviço-comunidade como eixo estruturante.
“O propósito central é convidar as universidades para construir o SUS que o povo brasileiro precisa, utilizando a máxima do 'SUS como escola': quem cuida aprende, e quem aprende cuida melhor”, declarou Ribeiro. Sob a premissa de que é necessário formar profissionais comprometidos com a sociedade, o projeto sustenta que políticas públicas dependem de pessoas engajadas. Nesse sentido, busca-se disputar o currículo da formação em saúde por meio do controle social, da defesa da Atenção Primária à Saúde (APS) na coordenação do cuidado e da valorização da pesquisa dentro do sistema, visando formar profissionais éticos e sensíveis ao direito à saúde.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, também presente na solenidade, destacou que os participantes de 2026 devem enfrentar dois grandes desafios globais: a defesa da democracia e as mudanças climáticas. Ao contextualizar o lançamento com o marco de 8 de janeiro (data que simboliza a resistência democrática no Brasil após os ataques golpistas de 2023), o ministro enfatizou que o direito à saúde é indissociável da democracia. Além disso, destacou a necessidade de os sistemas de saúde se adaptarem às crises ambientais contemporâneas. “São grandes desafios para o SUS, e os profissionais em formação devem ter essa perspectiva crítica”, ressaltou.
Encerrando o evento, Francisca Valda reiterou que a educação em saúde transcende o processo técnico de salas de aula e hospitais, configurando-se como um ato político-pedagógico na interação com a comunidade. Para ela, o controle social é o maior educador do sistema. Ao defender que estudantes e profissionais compreendam o papel dos conselhos de saúde para uma atuação humanizada, a conselheira concluiu: “O controle social qualifica a democracia e, consequentemente, qualifica o cuidado”.
A solenidade de lançamento do programa está disponível no Youtube da Rede Unida.
Daniel Zimmermann
Natália Ribeiro
Conselho Nacional de Saúde