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As mentiras que circulam sobre o SUS e por que combatê-las é defender a saúde pública
Foto: Ascom/CNS
“Reposicionar o projeto Saúde sem Boato em um dia tão importante, mundialmente, como o Dia Mundial da Saúde, não é apenas simbólico, mas necessário diante do cenário evidenciado durante a pandemia de COVID-19, período marcado pela intensa circulação de informações falsas sobre saúde que levaram muitas pessoas à morte”, afirmou a secretária executiva do CNS, Jannayna Sales, durante a mesa de debates “Campanha Saúde sem Boato: quais mentiras te contam sobre o SUS”, na 74ª Reunião Extraordinária do Conselho, realizada no dia 07 de abril, em Brasília-DF.
O tema foi levado à debate pelo pleno do CNS não só pela relevância da data, mas também pelo reconhecimento de que a desinformação sobre saúde, intensificada durante a pandemia de COVID-19, impacta diretamente a vida da população e o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS), exigindo respostas institucionais permanentes e articuladas.
Para a presidenta do CNS, Fernanda Magano, “o controle social tem fortalecido ações voltadas ao enfrentamento da desinformação, reconhecendo que o acesso à informação confiável é parte essencial do cuidado em saúde. É nesse cenário que se insere o projeto Saúde sem Boato, iniciativa que atua na produção e disseminação de conteúdos qualificados, baseados em evidências, e comprometido com o interesse público”, afirmou.
Durante a pandemia de COVID-19, a disseminação de conteúdos falsos se intensificou sobre as vacinas, os tratamentos e o funcionamento do sistema de saúde, evidenciando que a desinformação pode ter consequências concretas, comprometendo a adesão a medidas de proteção e colocando vidas em risco.

O professor titular do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo e ex-gerente de projetos da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, Edgard Rebouças, foi um dos convidados da Mesa e fez um apanhado histórico das narrativas falsas sobre o SUS desde a sua criação. Para ele, o SUS é um dos maiores patrimônios que temos no país e motivo de orgulho.
“Todo o povo brasileiro é beneficiado diretamente pelo SUS em seu dia-a-dia, não apenas quando precisa de atendimento médico. E todos deveriam ter um maior conhecimento disso. Da qualidade da água de beber, passando pelo alimento no supermercado, até um transplante de coração, tudo é graças ao SUS. Espalhar mentiras nos meios de comunicação sobre o SUS é um ato criminoso. Não se deve cobrar um SUS menor, e sim um SUS melhor”, afirmou Edgard.
Segundo pesquisas do Laboratório da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NetLab/UFRJ), que investiga a internet, as redes sociais e o fenômeno da desinformação, entre abril e maio de 2025 foram analisados 6.579 anúncios sobre saúde, veiculados nas plataformas da Meta, sendo 76% classificados como fraudulentos, promovidos por 505 anunciantes (50,6%) diferentes.
Para a coordenadora do NetLab, Nicole Sanchotene, os resultados mostram um desrespeito às normas de saúde com forte prevalência de anúncios que violam normas brasileiras como as da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Código de Defesa do Consumidor e de outras entidades reguladoras.
“Observamos muitas alegações exageradas sobre a eficiência do produto e seus resultados com ausência de identificação de profissional, promessas de cura de doenças. Isso demonstra uma falha sistêmica por parte da Meta, cujo modelo de operação opaco compromete a fiscalização e a efetiva aplicação das normas”, alertou a pesquisadora.
Saúde sem Boato fortalece a rede colaborativa de comunicação nos territórios
Ao reconhecer a comunicação como um elemento estratégico das políticas públicas de saúde, a iniciativa busca enfrentar a desinformação não apenas como um problema informacional, mas como um desafio que impacta diretamente o direito à saúde e à democracia. Dessa forma, o projeto se estrutura a partir de parcerias firmadas com instituições públicas, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil, a partir de três eixos fundamentais de atuação: monitoramento da desinformação, produção de conteúdo qualificado e fortalecimento da comunicação no controle social, sendo este último central para a ampliação da rede colaborativa de comunicação do CNS.
“São eixos que promovem a articulação da comunicação e da saúde nos territórios, por meio de oficinas e pela troca de conhecimentos das diversas realidades locais, fortalecendo a comunicação popular e a aproximação entre os comunicadores do SUS”, reforçou a pesquisadora em desinformação e integrante da Ascom/CNS, Cris Cirino.

A rede colaborativa de comunicação do CNS foi criada em 2019, durante as etapas preparatórias da 16ª Conferência Nacional de Saúde realizada em Brasília-DF e segue fortalecendo a comunicação no controle social nos territórios, a medida em que novas conferências de saúde acontecem. Formada por profissionais da comunicação, conselheiras e conselheiros de saúde, comunicadores populares dos territórios, o Saúde sem Boato tem como objetivo ampliar ainda mais essa rede por meio da realização de oficinas de comunicação popular nos territórios, aproximando os comunicadores e suas realidades locais.
Em um país marcado pela pluralidade e diversidade, como o Brasil, a estratégia amplia a capacidade de resposta à desinformação nos diferentes contextos sociais, fortalecendo uma rede colaborativa comprometida com a circulação de informação confiável em saúde, incidindo na qualificação da comunicação no controle social.
O projeto Saúde sem Boato
Para a coordenadora da Assessoria de Comunicação do CNS, Elisângela Cordeiro, o Saúde sem Boato avança como um projeto alinhado com outras iniciativas do CNS. “É um projeto que se estrutura e atua de forma transversal, integrado aos objetivos da gestão do Conselho Nacional de Saúde (CNS), e não como uma ação isolada”, destacou.
O projeto está alinhado diretamente ao processo de mobilização e fortalecimento da participação social no país, dialogando com a ampliação das etapas dos encontros estaduais de saúde e com a etapa municipal da 18ª Conferência Nacional de Saúde. Ao mesmo tempo, reforça a importância da criação e fortalecimento dos Conselhos Locais de Saúde nos territórios, ampliando os espaços de escuta e diálogo com a população.
Em um contexto pré-eleitoral, a iniciativa também cumpre um papel fundamental ao contribuir para que a sociedade esteja atenta a narrativas e promessas que não defendam o SUS, reafirmando que informação de qualidade é essencial para a proteção da saúde, o fortalecimento da democracia e a garantia de direitos.