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Coletânea Rumo à 5ª CNSTT
Um Ano de Enchente, Uma Vida de Luta: Saúde, Gênero e Justiça Climática no Campo.
As mudanças climáticas deixaram de ser uma previsão científica para se tornarem parte do cotidiano das populações rurais, especialmente das mulheres. No Brasil, e particularmente no Rio Grande do Sul, os efeitos do novo regime climático têm se intensificado em frequência e intensidade, alterando radicalmente a vida no campo. Um marco incontornável dessa nova realidade foi a trágica enchente de 2024, que, ao completar um ano, ainda deixa rastros profundos de destruição, dor e insegurança. Com as inundações, elas não enfrentaram somente a perda de suas casas, plantações e meios de produção, mas também os surtos de doenças, interrupções em tratamentos médicos e longos períodos de estresse e sofrimento psíquico, se manifestando através de episódios de ansiedade, insônia, medo constante e sobrecarga emocional.
O acesso à saúde no meio rural, historicamente limitado pela escassez de unidades básicas próximas, transporte inadequado, ausência de equipes multidisciplinares e de serviços especializados, tornou-se ainda mais crítico após a enchente de 2024. Com a destruição de diversas unidades de saúde, bloqueio de estradas e paralisação prolongada de atendimentos, os serviços passaram a focar exclusivamente em emergências, negligenciando o cuidado contínuo essencial à população. Soma-se a isso a invisibilização dos problemas de saúde enfrentados pelas mulheres do campo, muitas vezes naturalizados como parte inerente da vida rural — como a dor, a exaustão e a sobrecarga. No entanto, a constante exposição ao clima, as extensas jornadas de trabalho, a multiplicidade de responsabilidades e os impactos emocionais provocados pelas perdas relacionadas às mudanças climáticas exigem uma resposta específica, que leve em conta tanto as questões de gênero quanto as particularidades dos territórios rurais.
Essa medida se sustenta porque as mulheres do campo enfrentam múltiplas barreiras — geográficas, econômicas e simbólicas — para acessar o Sistema Único de Saúde (SUS). Sendo assim, as trabalhadoras rurais precisam de um sistema de saúde que compreenda suas realidades: que atenda perto de onde vivem, com profissionais capacitados, com respeito às suas identidades culturais e com serviços que incluam saúde mental, saúde sexual e reprodutiva, além do acompanhamento contínuo e prevenção de doenças crônicas.
Um Ano Após a Enchente: A Memória e a Luta
No aniversário de um ano da enchente de 2024, não basta relembrar a tragédia — é preciso exigir justiça social, climática e de gênero. As mulheres do campo reivindicam mais do que assistência emergencial: elas exigem políticas públicas duradouras, que garantam reconstrução com dignidade, resiliência climática e investimentos contínuos em saúde e bem viver. A tragédia escancarou a ausência de planejamento territorial e o descaso com as zonas rurais, onde muitas comunidades ficaram isoladas e sem apoio, dependendo da solidariedade de vizinhos e organizações populares. As respostas governamentais foram, em muitos casos, tardias ou insuficientes, sem ouvir de forma qualificada as demandas das mulheres atingidas.
Nesse contexto, o trabalho dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais e da Federação dos Trabalhadores na Agricultura e Pecuária Familiar, por meio da Marcha das Margaridas — que representa milhões de mulheres do campo, da floresta e das águas, é essencial. Com pautas que defendem um modelo de desenvolvimento sustentável, justo, popular e feminista, a marcha reivindica políticas públicas de saúde com recorte de gênero e territorialidade, programas de atenção à saúde mental e fortalecimento da atenção básica no campo.
A luta por saúde está intrinsecamente ligada à luta por direitos estruturais, como acesso à terra, educação, crédito, infraestrutura e justiça ambiental. Para isso, é urgente que o Estado implemente ações intersetoriais e preventivas, com participação ativa das mulheres trabalhadoras rurais na formulação e no monitoramento de políticas públicas — pois são elas que vivem e conhecem as realidades de seus territórios e precisam ser ouvidas em todos os espaços de decisão.
Para finalizar…
A enchente de 2024 no Rio Grande do Sul foi um marco doloroso, mas também um alerta: o clima está mudando, e com ele, mudam as condições de vida no campo. As mulheres trabalhadoras rurais são as primeiras a sentir os impactos e, muitas vezes, as últimas a serem lembradas nas políticas de reconstrução. Um ano depois, a reconstrução física ainda é um desafio, mas a reconstrução política e simbólica exige, sobretudo, compromisso com a justiça de gênero e com a saúde integral.
Lutar por políticas públicas de saúde para as mulheres do campo não é apenas um ato de resistência, é um ato de cuidado com o presente e de esperança para o futuro. É garantir que as próximas gerações possam permanecer no campo com dignidade, com acesso à saúde e com direitos assegurados. É, enfim, afirmar que cuidar da saúde das mulheres rurais é cuidar da saúde do Brasil.