Notícias
Coletânea Rumo à 5ª CNSTT
MUSICOTERAPIA NO CUIDADO À SAÚDE DO TRABALHADOR E TRABALHADORA: ENSAIO COLETIVO SOBRE O AVANÇO NESSE CONTEXTO
Esse texto foi construído por profissionais musicoterapeutas e uma estudante que estão inseridos na prática, no ensino e em associações de musicoterapia. Consideramos importante que nossas vozes, oriundas de diferentes cenários, registrassem as iniciativas de musicoterapeutas visando o cuidado à saúde dos trabalhadores e das trabalhadoras no Brasil.
No Sistema Único de Saúde (SUS), a musicoterapia foi sendo implementada nos serviços de saúde mental na década de 90. No ano de 1999, no Rio de Janeiro, houve a inclusão em seis CAPS, e em 2001, houve o primeiro concurso público para musicoterapeutas no estado, seguido em 2002 por Goiânia (GO). Atualmente, a musicoterapia já está inserida em diversos locais no SUS em diversas regiões do país, e esse ensaio exemplifica o potencial da musicoterapia para o cuidado à saúde física e mental da população.
Trajetória da Musicoterapia no enfoque da Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora
No ano de 2000, ocorreu o primeiro relato sobre a aplicação da musicoterapia voltado ao cuidado à saúde do trabalhador, no II Fórum Paranaense de Musicoterapia, através do Projeto Música – Funcional desenvolvido em um hospital em Curitiba. O foco, além dos atendimentos aos usuários, era possibilitar ao trabalhador maior motivação para a realização do trabalho (Gomes, Sato, 2000).
Em 2006, foi realizada uma pesquisa de mestrado, utilizando intervenção com musicoterapia, que teve como participantes técnicos de enfermagem de uma unidade fechada em um hospital público de Porto Alegre (RS). A escolha se deu por ser uma das categorias mais desfavorecidas no jogo do poder da hierarquia, e tinha por objetivo produzir modos de subjetivação através da música enquanto agente produtor de tempos de viver, sentir, pensar e agir. Fugindo da mítica que o relaxamento produzido pela música poderia produzir uma alternativa transformadora do trabalho, os sujeitos agiram produzindo transformações no próprio ambiente, reduzindo, por exemplo, a quantidade de ruídos. A intervenção musicoterápica nas relações de poder produziram novas práticas de liberdade frente as relações de dominação com potencial para causar sofrimento e adoecimento (Guazina, 2006).
Em 2009, outra pesquisa, dessa vez em uma unidade básica de saúde no município de Nova Iguaçu, inseriu a musicoterapia como uma abordagem de acolhimento, enquanto diretriz transversal da Política Nacional de Humanização. A musicoterapia era desenvolvida em sala de espera, com a participação de usuários e de profissionais, com a proposta de fomentar a participação das pessoas, produzindo cuidado e promovendo autonomia. Os usuários e trabalhadores abordaram problemas no cotidiano da unidade e as dificuldades com a precarização do trabalho, ampliando a compreensão de cada um sobre seu papel no processo de cuidado. A musicoterapia se mostrou como potência mobilizadora de mudanças para além da clínica, promovendo uma postura de protagonismo e participação social (Pimentel; Barbosa; Chagas, 2011).
Outra iniciativa, em 2015, utilizando a musicoterapia para promover a saúde do trabalhador ocorreu no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro (RJ). A atividade “Agente se cuida” era uma abordagem de cuidado à saúde mental de Agentes Comunitários em Saúde (ACS) em territórios permeados pela violência, visando construir estratégias de enfrentamento e melhorar a qualidade de vida desses trabalhadores. Como resultado foi observado que a musicoterapia proporcionou um espaço dinâmico e motivador onde ocorreu o compartilhamento sobre situações de violência e os meios para lidar com esta, promovendo cuidado e reflexão sobre os processos de trabalho e de cuidado (Farnettane, Silva, 2015).
Em 2023 iniciou-se o projeto “Musicoterapia na saúde do trabalhador do SUS”, que vem sendo desenvolvido em um Hospital Universitário no Rio de Janeiro (RJ), baseado nas políticas públicas voltadas à saúde do trabalhador e na perspectiva da Musicoterapia Comunitária. Os encontros promovem um espaço lúdico e interativo com troca de vivências a respeito da rotina e desafios do trabalho, porém teve como entrave a questão da compatibilidade de horários do serviço, pois os funcionários tinham que optar entre o horário do almoço ou participar do encontro voltado para promoção da saúde, situação encontrada em outras experiências de cuidado com a saúde do trabalhador e que aponta a incoerência das reiteradas condutas de instituições de saúde não facilitarem o cuidado em saúde dos próprios trabalhadores.
Outro projeto de Extensão, denominado “Andanças”, também em desenvolvimento em outro hospital Universitário no Rio, promove um espaço de atenção ao trabalhador. O musicoterapeuta vai ao encontro dos trabalhadores, oferecendo uma ação musical terapêutica, promovendo a expressão de sentimentos e a produção de si. Os trabalhadores, durante as Andanças, mostram-se mais sorridentes e relaxados e relatam que se sentem melhor pela quebra da rotina.
Possibilidades no contexto do cuidado à Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora
As intervenções de musicoterapia descritas, estão de acordo com a perspectiva da Política Nacional de Saúde do Trabalhador e Trabalhadora (Ministério da Saúde, 2012), que no artigo 7º aponta que se deve priorizar pessoas e grupos em situação de maior vulnerabilidade, relacionando, entre outras, as atividades de maior risco para a saúde, Neste contexto, os profissionais de saúde apresentam vulnerabilidade pela exposição contínua a doenças e ao sofrimento, além de exercerem jornadas extensas de trabalho para compor orçamento mensal, principalmente os que recebem salários mais baixos, conforme pesquisas realizadas.
A musicoterapia apresenta muitas possibilidades de atuação na promoção da saúde do trabalhador da saúde e de outras áreas a partir do instante em que oferta acolhimento, cuidados e propõem experiências de reflexão e discussão sobre possibilidades de modificação do ambiente e de processos de trabalho, assim como pode atuar na prevenção de agravos, pelas suas múltiplas potencialidades relacionadas aos aspectos físicos, psíquicos e sociais. Contudo, apesar de ser uma profissão regulamentada, ainda é necessário que seja reconhecida oficialmente como uma profissão da área da saúde para poder ampliar seu potencial de ação junto à saúde do trabalhador e trabalhadora.
Nessa construção sobre a trajetória da musicoterapia voltada para a saúde do trabalhador, destaca-se o movimento das Associações Estaduais de Musicoterapia que mobilizaram a participação de musicoterapeutas nas Conferências Municipais, Estaduais e Livres voltadas para a saúde do trabalhador e trabalhadora nas diversas regiões do país, buscando contribuir para a promoção da saúde e do trabalho digno como direito humano.
Referências:
Farnettane AT, Silva L. “A gente se cuida”: A musicoterapia na ação de cuidado, desafio e enfrentamentos à violência no Complexo do Alemão. Anais do XV Encontro Nacional de Pesquisa em Musicoterapia. 2015
Gomes A, Sato R. O musicoterapeuta além da prática clínica. Anais do II Fórum Paranaense de Musicoterapia. 2000.
Guazina LS. Sons, silenciamentos, poder e subjetivação no hospital: a musicoterapia na saúde do trabalhador. Porto Alegre. Dissertação [Mestrado de Psicologia Social e Institucional] - Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 2006.
Ministério da Saúde. Portaria 1.823 de 23 de agosto de 2012. Institui a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e Trabalhadora.
Pimentel AF, Barbosa RM, Chagas M. A musicoterapia na sala de espera de uma unidade básica de saúde: assistência, autonomia e protagonismo. Interface - Comunic., Saúde, Educ., v.15, n.38, p.741-54, jul./set. 2011