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Coletânea Rumo à 5ª CNSTT
Galo Cego: Saúde do trabalhador como um direito humano
Trabalho como Agente de Combate às Endemias (ACE) desde a extinta SUCAM. Naquela época, os vínculos empregatícios eram precários e renovados a cada seis meses. Em 1999, todos os ACEs do estado do Rio de Janeiro foram demitidos por decisão do ministro da Saúde, José Serra, o que resultou em adoecimentos e suicídios de inúmeros trabalhadores[1]. Esses profissionais exercem um papel fundamental na saúde pública, atuando no controle de doenças transmitidas por vetores. Suas principais atividades incluem: Visitas domiciliares, com inspeções em residências, estabelecimentos comerciais, borracharias, ferros-velhos, depósitos e terrenos baldios, identificando e eliminando focos de vetores, especialmente o Aedes aegypti, transmissor da dengue e da febre amarela; Educação em saúde, promovendo ações educativas e conscientização da comunidade sobre higiene, vacinação e prevenção de doenças; Tratamento focal, com aplicação de larvicidas e inseticidas nos criadouros de vetores; Coleta de dados e registro de informações sobre a incidência de doenças na área de atuação, contribuindo para o monitoramento epidemiológico; Apoio a campanhas de vacinação e participação na imunização da população — e até de animais domésticos — colaborando para a saúde coletiva; Integração com a comunidade, construindo um relacionamento de confiança com os moradores e facilitando o acesso a informações e ações de saúde no território.
Naquela época, Niterói enfrentava uma grave epidemia de dengue, e muitos servidores eram contratados para reforçar as equipes de campo. Quando um bairro apresentava alto índice de casos e infestação de mosquitos, se organizava mutirões aos finais de semana para vistoriar todos os imóveis da região. Minha equipe era composta por dez profissionais, cada um com um apelido peculiar: “MacGyver” (nosso guarda- chefe), “Robocop”, “Cara de Lua”, “Cara de Cavalo”, “Calado”, “Geninho”, “171”, os gêmeos “Cosme” e “Damião” e eu, “Renato Russo”. Porém, nos mutirões, as equipes eram misturadas, e trabalhávamos em duplas para agilizar o serviço. Foi assim que conheci “Galo Cego”, um jovem de pouco mais de trinta anos, apesar dos cabelos grisalhos e dos enormes óculos inseparáveis.
Pontualmente às 8h, começamos nosso trabalho em um dos quarteirões em Niterói. Casa por casa, seguíamos vasculhando quintais, caixas d’água, cisternas, galões, reservatórios, pratinhos de plantas e até bromélias. Para otimizar o processo, combinamos um revezamento: quem tocasse a campainha ficava responsável por se apresentar, explicar a visita e esclarecer as ações de saúde e a importância do mutirão. Enquanto isso, o outro agente inspecionava a área em busca de focos, aplicava o tratamento e, caso encontrasse larvas ou pupas, coletava amostras para análise epidemiológica. Nossa estratégia estava funcionando bem, e os imóveis estavam sendo vistoriados com eficiência — até que chegamos à padaria.
Naquele momento, era a vez de “Galo Cego” fazer a explanação, enquanto eu realizava a
vistoria. Mal sabíamos que aquele local nos reservaria uma surpresa. Segui para os fundos da padaria e me deparei com um cenário preocupante: dezenas de garrafas cheias de água, além de outros depósitos infestados de larvas. Imediatamente, eliminei todos os recipientes plásticos e virei as garrafas de boca para baixo, impedindo o acúmulo de água e a proliferação do Aedes aegypti. Quando finalizei o trabalho, meu colega já havia conversado com os proprietários do estabelecimento, que deixaram um funcionário para nos acompanhar. Durante a inspeção, encontramos uma caixa d’água destampada que precisava ser vistoriada. Perguntei ao rapaz se havia uma escada disponível, mas ele respondeu que não. Nos mutirões, levávamos todo o aparato necessário para garantir que nenhum local ficasse sem vistoria. Sabíamos que cada foco eliminado significava menos risco para a população. No veículo da equipe, tínhamos várias escadas, justamente para essas situações. Virei-me para “Galo Cego” e disse que iria buscá-la.
No entanto, ele achou que seria perda de tempo. Olhando ao redor, apontou uma alternativa: havia um muro próximo que dava acesso ao telhado da varanda, de onde seria possível alcançar a caixa d’água. Antes que eu pudesse argumentar, ele já havia conseguido uma cadeira e, ágil como um galo, preparava- se para subir no muro. Mas, ao segurar na grade da janela para se apoiar, soltou um grito agonizante: — Socorro sendo eletrocutado! O tempo pareceu parar. Sem pensar, saí correndo e gritando: — Desliga! Desliga a energia! Desliga agora! Ele está sendo eletrocutado! Não sei quantos segundos se passaram — pareciam uma eternidade.
Quando finalmente desligaram a luz, “Galo Cego” desabou no chão, meio zonzo, com a mão dormente. O alvoroço tomou conta da padaria. Em poucos minutos, o local estava cercado por agentes de endemias, supervisores e até a coordenação do programa. O funcionário que nos acompanhava estava branco como papel, balbuciando que não sabia que a grade estava energizada. O dono da padaria, visivelmente nervoso, explicou que deixava a grade eletrificada à noite para evitar invasões, mas, naquela manhã, havia esquecido de desligá-la. Atordoado, “Galo Cego” foi levado ao pronto-socorro.
Enquanto isso, seguimos com as vistorias até concluirmos todo o bairro. No fim do dia, recebemos a notícia de que ele estava bem e repousava em casa. Mesmo com contratos precários, tínhamos orgulho da profissão. Mais do que eliminar focos do mosquito, éramos agentes da saúde pública, combatendo a epidemia de dengue com dedicação e compromisso. Nossa profissão ia além do local e do tipo de trabalho: envolvia nossa formação, nossas relações sociais, nossas experiências, a humanização e o espírito de equipe. A população respeitava nosso serviço, e nós tínhamos orgulho.
Mas, infelizmente, até hoje esses trabalhadores ainda enfrentam falta de infraestrutura, vínculos precários e desigualdades — alguns efetivos e outros terceirizados. Nossa rotina nos expõe a riscos constantes: câncer de pele, lesões por esforço repetitivo, cefaleia, tonturas — sem falar nas quedas de altura, mordidas de cães e gatos, entre outros perigos. É por isso que precisamos lutar. A saúde do trabalhador deve ser reconhecida como um direito humano. E a oportunidade de virar esse jogo está chegando: a 5ª Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (5ª CNSTT), que acontecerá de 18 a 21 de agosto de 2025. Vamos exigir que a saúde no trabalho seja garantida como um direito fundamental. É hora de unirmos forças e sermos ouvidos!
[1] PEREIRA JUNIOR, Alberto Jucelino. A luta contra a precarização do trabalho dos agentes de combate às endemias (ACE) no estado do Rio de Janeiro (1989-2014). 2018, 199 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Educação Profissional em Saúde) - Fundação Oswaldo Cruz. Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, Rio de Janeiro, 2018. Disponível em: https://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/29802 Acesso em: 02/05/2025.