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383ª RO
CNS amplia o diálogo sobre diagnóstico precoce e cuidado integral às pessoas com Alzheimer e outras demências
Foto: Agência Brasil
O Brasil está envelhecendo, mas ainda enfrenta dificuldades para garantir que esse processo seja acompanhado de saúde, autonomia e dignidade. Estima-se que 2,9 milhões de pessoas idosas vivam com Alzheimer e outras demências no país. O dado mais preocupante é que cerca de 80% delas ainda não receberam diagnóstico. São pessoas que convivem com alterações de memória e comportamento sem compreender o que está acontecendo, enquanto suas famílias enfrentam, muitas vezes sozinhas, os desafios do cuidado.
Esse cenário esteve nos debates da 383ª Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Saúde (CNS), realizada nos dias 7 e 8 de outubro, em Brasília (DF). A discussão reuniu representantes do Ministério da Saúde, especialistas, movimentos sociais e conselheiros para avaliar as políticas públicas e propor medidas que ampliem o acesso ao diagnóstico, ao tratamento e ao acompanhamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Participaram da mesa Camila Maria Mendes Nascimento, coordenadora nacional de Atenção à Saúde da Pessoa Idosa do Ministério da Saúde; Celene Pinheiro, médica geriatra, cuidadora familiar e presidente do Conselho Diretor da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz); e Fernanda Vicari dos Santos, assistente social, conselheira nacional do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Conade) e integrante do Comitê Estratégico da Política Nacional de Cuidados, que participou remotamente.

Um país que envelhece e precisa ampliar o cuidado
O Brasil já tem mais de 36 milhões de pessoas idosas, aproximadamente 17% da população. Segundo dados apresentados por Camila Maria Mendes Nascimento, esse contingente deverá crescer mais de 68% até 2046, em comparação com 2026. A longevidade é uma conquista, mas exige políticas públicas capazes de responder às necessidades de uma população que envelhece em condições sociais e econômicas muito diferentes.
Camila destacou que, além do elevado número de casos não identificados, muitas pessoas só recebem o diagnóstico quando a doença já está em estágio moderado ou avançado. “Hoje, uma das coisas que a gente mais precisa avançar no nosso país é, de fato, o diagnóstico e o cuidado em tempo oportuno”, afirmou.
A coordenadora apresentou ações do Ministério da Saúde, entre elas a atualização da linha de cuidado para pessoas com Alzheimer e outras demências, publicada em 2022, e o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS), para que as equipes possam identificar os primeiros sinais, realizar avaliações e acompanhar os pacientes e suas famílias.
Camila também destacou a Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Demências, instituída pela Lei nº 14.878, de junho de 2024, e as iniciativas do Ministério da Saúde para ampliar a atenção domiciliar, qualificar profissionais e apoiar as pessoas cuidadoras. Entre elas, citou o iSupport, programa desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), cuja versão brasileira oferece orientações e formação para familiares e cuidadores de pessoas com demência.
Esquecer não é, necessariamente, coisa da idade
Esquecimentos frequentes, dificuldades para realizar tarefas habituais e mudanças inesperadas de comportamento podem ser sinais de demência e precisam ser investigados. A médica geriatra Celene Pinheiro explicou que o Alzheimer é a causa mais frequente, mas não a única, e que as demências podem comprometer a memória, a atenção, a capacidade de tomar decisões e a autonomia. “Toda e qualquer mudança, seja do comportamento, seja da cognição, merece investigação”, alertou.
Segundo Celene, embora ainda não exista cura para a doença de Alzheimer, o diagnóstico nas fases iniciais amplia as possibilidades de tratamento, permite organizar o cuidado e garante à pessoa maior participação nas decisões sobre sua própria vida.
A especialista também apresentou dados sobre prevenção. Estudos internacionais relacionam aproximadamente 45% dos casos de demência a 14 fatores de risco potencialmente modificáveis. No Brasil, essa proporção pode chegar a quase 60%. Entre os fatores estão baixa escolaridade, depressão, perda auditiva e visual, tabagismo, consumo excessivo de álcool, sedentarismo e problemas cardiovasculares.
A baixa escolaridade está entre os fatores de maior impacto no país, mostrando que prevenir as demências também exige enfrentar desigualdades e garantir direitos ao longo da vida.
O cuidado que não cabe apenas dentro de casa
Se os números revelam a dimensão do desafio, a experiência de quem cuida mostra o que eles significam na vida cotidiana. Participando remotamente de Canoas (RS), a assistente social Fernanda Vicari dos Santos compartilhou a experiência de cuidar da própria mãe, uma pessoa idosa com alterações cognitivas e ainda em processo de definição diagnóstica. Fernanda tem deficiência, utiliza cadeira de rodas e divide com a irmã e o sobrinho as responsabilidades pelo cuidado.
Sua fala chamou a atenção para uma realidade pouco discutida. A de pessoas com deficiência, frequentemente vistas apenas como destinatárias de cuidados, que também são cuidadoras. Fernanda destacou ainda que essa responsabilidade continua recaindo principalmente sobre as mulheres, muitas vezes obrigadas a interromper a carreira e adiar seus projetos pessoais. “O quanto nós mulheres a gente abdica muitas vezes dos nossos sonhos, o quanto a minha mãe também em algum momento da vida dela não fez isso e o quanto hoje eu também tenho que fazer”, relatou.

Fernanda também questionou a visão romantizada do cuidado. “A gente não pode trazer pra um lugar de utópico de que o cuidado sempre vai ser esse lugar de carinho e de amor”, afirmou, lembrando que essa experiência também envolve angústia, cansaço e insegurança.
Para ela, é necessário que o cuidado possa “ultrapassar as quatro paredes, ultrapassar o portão de casa”, deixando de ser responsabilidade exclusiva das famílias e passando a ser compartilhado pelo poder público e pela comunidade.
Encaminhamentos para fortalecer o cuidado
Ao final da discussão, a 383ª Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Saúde (CNS) apresentou propostas para fortalecer as políticas públicas de atenção às pessoas com Alzheimer e outras demências. Entre os principais encaminhamentos está assegurar a participação do controle social na atualização da linha de cuidado do Ministério da Saúde, com foco na integralidade, equidade e humanização da assistência.
Também foram propostas medidas para fortalecer a Atenção Primária à Saúde, capacitar profissionais e ampliar a articulação com serviços especializados, de reabilitação, saúde bucal, atenção domiciliar, cuidados paliativos e práticas integrativas e complementares, conforme as necessidades de cada pessoa.
Os encaminhamentos incluem ainda a criação de centros de referência, a elaboração de materiais de orientação para familiares, o incentivo à pesquisa científica e a promoção de hábitos saudáveis, com atenção à identificação precoce de fatores de risco modificáveis.
Outro ponto central foi a necessidade de incorporar às políticas públicas a dimensão de cuidar de quem cuida, reconhecendo as necessidades de familiares, profissionais e cuidadores comunitários, inclusive pessoas com deficiência que desempenham essa função.
A reunião também propôs levar o tema às etapas preparatórias da 18ª Conferência Nacional de Saúde (18ª CNS), por meio das conferências municipais, estaduais e livres, ampliando a participação da sociedade na construção de políticas de prevenção, diagnóstico e cuidado.
Marcelo Santos
Conselho Nacional de Saúde