Rede nacional de monitoramento em recursos hídricos
O Programa Nacional de Monitoramento em Recursos Hídricos — lançado em 2024 de um Termo de Execução Descentralizada (TED) firmado entre o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa – Meio Ambiente), contando com o suporte técnico e logístico de instituições parceiras, tais como a Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA), o Serviço Geológico Brasileiro (SGB), entre outras — busca, por meio da geração de informações sistematizadas e qualificadas, suprir lacunas significativas de dados a respeito da contaminação ambiental em ambientes agrícolas e em recursos hídricos, causada por Agrotóxicos e o Fluoreto de Perfluorooctano sulfonila (PFOS), subsidiar a formulação e a implementação de políticas públicas sobre o tema. A iniciativa está alinhada às metas das Convenções de Estocolmo e Roterdã, que abordam a gestão de substâncias químicas, e reforça o compromisso do Brasil com a gestão sustentável e o controle de agrotóxicos.
O programa de monitoramento coletou águas de rios e corpos d’água em todo o Brasil desde fevereiro de 2024, após quase dois anos de preparação metodológica e estruturação técnica, os dados puderam ser tratados e, agora, disponibilizados. Ao todo, foram definidos 63 pontos de monitoramento distribuídos em todos os estados brasileiros, considerando a representatividade agrícola, o uso predominante da terra e a vulnerabilidade ambiental das bacias hidrográficas monitoradas.
O foco do programa é o monitoramento de recursos hídricos superficiais, permitindo acompanhar a presença de agrotóxicos em rios e cursos d’água associados às principais regiões produtoras do país. Para cada ponto amostral, foram delimitadas as respectivas bacias hidrográficas e áreas de drenagem, permitindo integrar informações sobre uso do solo, dinâmica hidrológica e ocorrência de agrotóxicos em água superficial.
Também foi realizado um processo de priorização de ingredientes ativos, considerando critérios como volume de comercialização no país, tendência de ocorrência em água e relevância regulatória. Ao final, foram selecionados 49 ingredientes ativos para monitoramento.
Resultados preliminares indicam efetividade das ações de controle e necessidade de aprimoramento contínuo
Até o momento, maio de 2026, o programa já realizou 10.437 análises laboratoriais em 213 amostras de água superficial coletadas em diferentes regiões do país.
Em média, aproximadamente 2 agrotóxicos foram quantificados por amostra. Em 46 amostras não houve quantificação de agrotóxicos, enquanto em 167 amostras pelo menos um agrotóxico foi quantificado.
Além disso, aproximadamente 3,5 agrotóxicos em média foram detectados por amostra. Em 21 amostras não houve detecção de agrotóxicos, enquanto em 192 amostras pelo menos um agrotóxico foi detectado,
Os resultados preliminares mostram que:
- 751 análises apresentaram presença de agrotóxicos acima do limite de detecção ou quantificação, sendo sua frequência geral de detecção de 7,2%;
- o número médio de ingredientes ativos detectados por amostra foi de 3,5;
- algumas amostras apresentaram mais de 10 ingredientes ativos simultaneamente.
Entre as moléculas com maior frequência de detecção destacam-se herbicidas como S-metolacloro, ametrina, tebuthiuron e atrazina. Entre os inseticidas, o acefato apresentou maior frequência de ocorrência, enquanto a azoxistrobina se destacou entre os fungicidas.
Os dados também indicam diferenças relevantes entre os usos da terra monitorados. As áreas associadas à cultura de citrus apresentaram maior frequência de detecção, enquanto áreas de pastagem registraram os menores índices.
Segundo os pesquisadores envolvidos no projeto, os resultados obtidos até o momento demonstram que as políticas públicas, instrumentos regulatórios e ações governamentais voltadas ao controle, monitoramento e mitigação da contaminação ambiental por agrotóxicos vêm produzindo resultados importantes.
A atuação integrada dos órgãos ambientais, sanitários e agrícolas, associada às medidas de fiscalização, avaliação de risco, monitoramento e adoção de boas práticas agrícolas, contribui para reduzir riscos ambientais e ampliar a proteção dos recursos hídricos.
Ao mesmo tempo, os dados mostram que ainda é necessário manter, fortalecer e aprimorar continuamente essas políticas públicas e mecanismos de controle, de forma a evitar a contaminação ambiental e ampliar a proteção da vida aquática e da saúde da população.
Pilares da estratégia
Considerada pioneira, a Estratégia também busca ampliar o monitoramento da utilização de agrotóxicos no país para controlar e mitigar os impactos de seu uso para a saúde humana e o meio ambiente. Com o objetivo de promover práticas agrícolas sustentáveis e fomentar estudos científicos na área, ela ainda apresenta três eixos principais:
- Expansão do monitoramento do PFOS (Ácido Perfluorooctanossulfônico): serão analisadas áreas agrícolas estratégicas nos estados de Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso do Sul, incluindo também propriedades rurais.
- Ampliação do Programa Piloto de Monitoramento de Agrotóxicos em Recursos Hídricos: durante três anos, serão monitoradas substâncias químicas prioritárias, ampliando a lista de substâncias analisadas e a base de dados nacional.
- Estudo de processos de transporte de agrotóxicos: avaliará como os agrotóxicos são transportados no meio ambiente e seus impactos em mananciais de água.
Visando entender como esses as diferentes variáveis fisiográficas citadas anteriormente estão relacionadas ao transporte de agrotóxicos em meio tropical, é previsto uma correlação multivariada com os dados da rede nacional experimental de monitoramento de agrotóxicos no Brasil que conta com 63 bacias em monitoramento distribuídas em todos os estados da federação e contemplando os mais diversos cultivos agrícolas (Figura 1).
Figura 1 - Mapa de localização dos 63 pontos de monitoramento de agrotóxicos no Brasil atualmente em operação através desse projeto.
No próximo período, será realizada uma análise multivariada para correlacionar essas variáveis com os dados de monitoramento obtidos em 63 bacias agrícolas distribuídas em todo o Brasil, a fim de identificar padrões de contaminação e aprimorar as estratégias de manejo ambiental.
Em síntese, os resultados obtidos pelo Programa Nacional de Monitoramento em Recursos Hídricos evidenciam a importância da consolidação de uma rede nacional estruturada e contínua de monitoramento ambiental voltada à avaliação da presença de agrotóxicos em águas superficiais brasileiras. A abrangência territorial do projeto, associada à elevada quantidade de análises laboratoriais realizadas e à diversidade de contextos agrícolas monitorados, permitiu gerar informações inéditas e estratégicas para o entendimento da dinâmica de contaminação em diferentes regiões do país.
Nesse sentido, a ampliação do programa, incluindo o monitoramento de PFOS, o aprofundamento dos estudos de transporte ambiental e a aplicação de análises multivariadas nas 63 bacias monitoradas, representa um avanço significativo para a construção de uma base científica robusta capaz de subsidiar políticas públicas mais eficientes, preventivas e territorialmente direcionadas.
Dessa forma, o projeto consolida-se como uma importante ferramenta de apoio à gestão sustentável dos recursos hídricos no Brasil, contribuindo para o aprimoramento da governança ambiental, para o cumprimento de compromissos internacionais relacionados à gestão de substâncias químicas e para o fortalecimento da proteção da qualidade da água e da saúde ambiental no país.