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POESIA CANTADA
Paraíba mobiliza poder público e comunidade artística na construção do Plano de Salvaguarda do Repente
Foto: Iphan
Reconhecida como um dos grandes berços do Repente, a Paraíba sediou, entre outubro e novembro de 2025, três encontros participativos que marcam uma nova fase na elaboração do Plano Nacional de Salvaguarda do Repente. Coordenadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), as reuniões aconteceram em Teixeira, Ouro Velho e Campina Grande, reunindo poder público, universidades, comunidade artística e mestres da tradição oral.
O Repente, manifestação cultural na qual dois cantadores alternam estrofes improvisadas, rimadas e ancoradas no cotidiano, ocorre na Paraíba e em Pernambuco desde meados do século 19. A manifestação teve papel relevante na difusão do rádio no Brasil, por muito tempo, era cultivada em sua maioria por artistas de origem rural, que cantavam para plateias camponesas.
Os encontros reuniram gestores públicos, vereadores, coletivos culturais, pesquisadores, jovens artistas e repentistas de diferentes gerações. As escutas integram o conjunto de ações posteriores ao Registro do Repente como Patrimônio Cultural do Brasil, em 2021, e têm como objetivo estabelecer diretrizes e políticas públicas para sua preservação, transmissão e valorização.
Para o técnico do Iphan, Marcos Vinicius Ribeiro de Assis, os eventos consolidam “um amplo processo de escuta e construção coletiva”. Ele reforça que, apesar do reconhecimento como patrimônio cultural, o Repente ainda apresenta fragilidades e necessita de políticas contínuas. “As reuniões realizadas na Paraíba representam um passo decisivo. Preservar o Repente é preservar um modo de pensar, sentir e narrar o Nordeste. É garantir que a memória, a força e a criatividade dos mestres continuem atravessando gerações”, afirmou.
O material produzido nas escutas será sistematizado pela superintendência do Iphan na Paraíba e encaminhado para subsidiar as próximas etapas do Plano Nacional de Salvaguarda do Repente, que pretende fortalecer - política, técnica e financeiramente - essa manifestação cultural.
Teixeira: a terra-mãe da cantoria inicia o ciclo de escutas
Primeiro município a sediar os encontros, Teixeira recebeu gestores municipais e estaduais, pesquisadores, poetas populares e mestres repentistas. A antropóloga Nina Vincent Lannes, destacou que a construção das políticas começou pela escuta ativa dos protagonistas da tradição: “Começamos ouvindo as demandas, os desafios e as histórias de vida dos mestres e das comunidades, porque é a partir dessa escuta que conseguimos construir políticas públicas verdadeiramente participativas e democráticas.”
Entre as demandas mais recorrentes estiveram: digitalização e organização de acervos; criação de um arquivo digital público; ampliação do Repente nas escolas; formação de jovens; incentivo a circuitos culturais; maior visibilidade institucional e apoio continuado aos artistas.
Ouro Velho: diálogo entre comunidade, gestores e parlamento
Segundo município a receber o processo, Ouro Velho reuniu vereadores, agentes culturais, a Funesc, coletivos artísticos e cantadores de diferentes gerações. As discussões abordaram desigualdade de cachês, equidade em contratos públicos, inclusão de disciplinas escolares sobre o Repente e a necessidade de capacitar artistas para acessar editais e políticas culturais.
Campina Grande: memória, pesquisa e políticas estruturantes
A terceira reunião, realizada em Campina Grande, cidade reconhecida como uma das matrizes culturais brasileiras, destacou temas como: criação de espaços permanentes para a cantoria, incluindo museus interativos e centros de memória; presença de mestres nas escolas e formação específica de docentes; fortalecimento da participação feminina no universo da cantoria.
Durante o encontro, Marcos Vinícius ressaltou a importância de reativar a Associação do Repentista, que pode se tornar um Pontão de Cultura, ampliando a capacidade de articulação e gestão de projetos. Ele também lembrou que, em 2025, a Lei Rouanet – Linha Nordeste contemplou iniciativas do eixo Patrimônio Cultural, abrindo oportunidades para grupos ligados ao Repente.