O Brasil terá fitoterápico com quebra-pedra

Os saberes de povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares vão ser transformados em fitoterápicos. Dentro de aproximadamente dois anos deve estar pronto o primeiro medicamento feito a partir da planta Phyllanthus niruri – a popular quebra-pedra –, tradicionalmente usada para auxiliar no tratamento de distúrbios urinários. Visando implementar essa importante iniciativa o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) firmou acordo com o Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz) para o desenvolvimento do fitoterápico e registro na Anvisa, oficializado em 8 de maio do correte ano, no Rio de Janeiro.
Estão sendo investidos R$ 2,4 milhões na adequação de maquinário, aquisição de equipamentos e insumos, contratação de serviços, realização de visitas técnicas e condução de estudos laboratoriais. A parceria integra o projeto Fitoterápicos, executado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), com recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e coordenação técnica do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
“O acordo consolidará avanços sem precedentes para a fitoterapia no Brasil, tanto em pesquisa e desenvolvimento de fitoterápicos, quanto na produção destes para oferta em âmbito nacional”, diz Gabriel Fávero, consultor técnico do PNUD. Ele explica que, por meio de estudos rigorosos e testes de eficácia e segurança, a perspectiva é disponibilizar o novo medicamento gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), atendendo a uma demanda histórica por alternativas terapêuticas baseadas na vasta biodiversidade do país.
Segundo Gabriel Fávero, além de ampliar o acesso a produtos de qualidade no SUS, o acordo fortalece a cadeia produtiva nacional ao incentivar o desenvolvimento científico e tecnológico de medicamentos a partir da flora brasileira, redistribuindo os benefícios para as comunidades produtoras e para o reconhecimento dos saberes tradicionais. “Estas populações constituem a base da cadeia de valor de plantas medicinais e fitoterápicos e se caracterizam como guardiãs da biodiversidade.” A padronização e a garantia de qualidade dos fitoterápicos, lembra ele, representam um avanço significativo ao contribuir para o uso sustentável dos recursos naturais, promoção da saúde pública e de um desenvolvimento econômico inclusivo.
Este primeiro medicamento, produzido da quebra-pedra, será em sachê. “Embora a planta seja amplamente empregada pela população no tratamento da litíase urinária (doença que se caracteriza pela formação de cálculos no trato urinário), a indicação do produto tradicional fitoterápico para notificação na Anvisa é como auxiliar no aumento do fluxo urinário, atuando como adjuvante no tratamento de queixas urinárias leves”, explica a pesquisadora Maria Behrens, da Farmanguinhos, que coordena os estudos com a planta.
A pesquisadora afirma que o medicamento será inovador. “Por reunir tantas propriedades, este fitoterápico é tão importante para nós. Não há no mercado um produto que atue nas diferentes etapas da litíase urinária.” De acordo com ela, estudos na literatura apontam que o fitocomplexo atua em diferentes etapas da doença, mas faltam estudos clínicos para confirmar a indicação.
Nosso propósito é que a população se beneficie do fitoterápico na forma de um produto farmacêutico. Materiais vegetais comercializados com o nome de quebra-pedra são empregados em preparações caseiras. Embora tenham um valor acessível, um dos principais problemas é a garantia de qualidade do material adquirido pelo paciente”, diz Maria Behrens. Ela argumenta que falhas na qualidade (planta trocada, adulterada, contaminada, com baixo teor de ativos etc.) podem levar à ineficácia do produto e até a efeitos tóxicos.
Após a produção dos lotes-piloto, informa a pesquisadora, vão ser realizados estudos de estabilidade para obter a notificação junto à Anvisa e fornecimento no SUS, o que deverá acontecer dentro dos dois anos. “Esperamos impulsionar toda a cadeia produtiva, desde a produção sustentável de matéria-prima, do IFA e do produto farmacêutico, atendendo às diretrizes da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos”, afirma Maria Behrens.
Nesta cadeia produtiva está Maria Luiza da Silva Oliveira, de 81 anos, que desde a infância na fazenda Congomé, no município de Itaberaí (GO), aprendeu sobre plantas medicinais com a família e a bisavó Flausina Sabino Passos, que veio do Senegal; aprimorou nos 18 anos de trabalho na saúde pública, praticou na Pastoral da Saúde, aperfeiçoou no projeto Fitoterápicos. Sente-se realizada com o início dos estudos para o desenvolvimento do medicamento com quebra-pedra.
“Este ato valida o conhecimento popular, o saber dos nossos ancestrais”, diz Maria Luiza, que hoje mora na cidade de Goiás, antiga capital do Estado. Ela relembra que a família foi criada com plantas medicinais e homeopatia, aprendida pelo avô Victoriano Pereira da Silva com um boticário. “Eram os únicos recursos.” Depois mudaram para a cidade, mas Maria Luiza não esqueceu dos chás, aprofundou seus conhecimentos sobre as plantas medicinais, chegou ao projeto Fitoterápico, que tem o propósito de promover o uso sustentável, acessível e inovador dos recursos da biodiversidade brasileira.
Categoria
Meio Ambiente e Clima