Notícias
SEMANA DA MULHER
Entre retalhos e oportunidades: a moda que gerou impacto social na vida de mulheres da periferia
Designer transforma moda em autonomia para mulheres da periferia (Foto: Márcio Pinheiro/MIDR)
Brasília (DF) – No banco de uma praça em Macapá (AP), uma sacola de retalhos marcou o início de uma história de resistência, criatividade e transformação social. Foi ali que a designer de moda Rejane Soares, 48 anos, começou a reconstruir a própria trajetória e a abrir caminhos para outras mulheres negras da periferia por meio da moda. Formada em moda, Rejane encontrou no setor muito mais do que uma profissão. Para ela, a moda se tornou uma ferramenta de autonomia econômica, valorização da identidade e desenvolvimento local.
A relação de Rejane com a moda começou com uma necessidade pessoal: encontrar roupas que respeitassem seu corpo e sua identidade. Mulher negra, de corpo grande e com características raramente contempladas pelas vitrines tradicionais, ela percebeu que o mercado não dialogava com mulheres como ela. “Eu fui para a moda buscando roupas que valorizassem quem eu sou. Roupas que respeitassem meu tamanho e a cor da minha pele. Eu queria estar bem vestida e bem apresentada”, conta.
A busca por essas peças levou Rejane a estudar moda e, posteriormente, a criar sua própria marca. A proposta era simples e potente: desenvolver roupas que respeitassem as histórias e os corpos de outras mulheres que também não se viam representadas no mercado.
Quando tudo recomeçou com retalhos
Mas o caminho não foi fácil. Em determinado momento, a casa de Rejane foi assaltada. As máquinas de costura e os tecidos desapareceram. Restou apenas uma sacola de retalhos. Foi com esse material que ela decidiu recomeçar. A partir dos pedaços de tecido, criou brincos artesanais. Com papel, cola e criatividade, transformou as sobras em acessórios que começaram a chamar atenção.Sem dinheiro para alugar um espaço comercial, Rejane passou a vender suas peças no banco de uma praça na Via Cabral, em Macapá. “Eu não tinha outra opção. Então eu ia para a praça vender meus brincos e turbantes”, lembra. Com o tempo, os produtos começaram a circular em feiras e eventos. O público cresceu e o negócio também.
O que começou de forma improvisada hoje se transformou em um espaço físico colaborativo que reúne produção, formação e empreendedorismo feminino. Rejane criou um território afro-colaborativo que abriga não apenas produtos de sua marca, Zwanga, mas também peças de outras mulheres empreendedoras que não têm onde comercializar seus trabalhos. No local, além da venda de produtos, acontece a formação profissional de mulheres da periferia que já atuam — muitas vezes de forma invisível — na cadeia produtiva da moda.
“Existem muitas mulheres que já estão na rota da moda, produzindo, vendendo e criando. Mas muitas vezes elas não se reconhecem como parte dessa cadeia, e o próprio sistema também não reconhece”, explica.
Formação que gera autonomia
Para mudar essa realidade, Rejane criou uma metodologia própria de formação baseada naquilo que sentiu falta ao construir seu próprio negócio. As mulheres passam por cursos em diversas áreas da cadeia produtiva da moda e da beleza, como costura, maquiagem, penteado e cabelo, produção de acessórios, saberes artesanais, manicure e pedicure.
Mas o diferencial do projeto vai além da capacitação. Ao final da formação, as participantes recebem o chamado “kit semente” — um conjunto de equipamentos ou materiais que permite iniciar imediatamente a atividade profissional. Quem se forma em costura recebe uma máquina de costura. Quem faz maquiagem recebe um kit completo de produtos. Artesãs recebem os insumos necessários para produzir suas peças. “Não adianta ter certificado se você não tem como começar. O kit semente é aquilo que permite que a mulher pratique o que aprendeu e comece a gerar renda”, explica Rejane.
Além da capacitação técnica, as participantes também recebem formação em marketing digital, criação de redes sociais, precificação de produtos e organização do próprio negócio.
A iniciativa criou uma rede de mulheres que passam a gerar renda a partir de seus próprios talentos. Mais do que produzir roupas e acessórios, o projeto ajuda mulheres a reorganizarem suas vidas. Segundo Rejane, muitas participantes conseguem sair de situações de violência doméstica, conquistar autonomia financeira e garantir melhores oportunidades para suas famílias. “Hoje a gente tem uma cadeia de mulheres que produzem, vendem e vivem daquilo que aprenderam. A moda vira uma ferramenta para reconstruir a vida”, afirma.
Desenvolvimento regional que começa na comunidade
O empreendimento liderado por Rejane também integra a Rota da Moda, estratégia do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) voltada ao fortalecimento da cadeia produtiva da moda, com foco na valorização da produção local, no empreendedorismo e na geração de emprego e renda nos territórios. Quando essas mulheres passam a empreender, o impacto vai além da renda individual. Os negócios movimentam a economia local, fortalecem a produção cultural e ampliam a presença da moda afro-brasileira nos territórios periféricos.
Essa dinâmica mostra como iniciativas criativas e comunitárias podem contribuir para o desenvolvimento regional ao gerar renda em comunidades periféricas, fortalecer cadeias produtivas locais, valorizar saberes culturais e identitários e incentivar o empreendedorismo feminino. Para Rejane, o objetivo nunca foi apenas criar uma marca de moda. “Hoje, o que começou com uma sacola de retalhos virou um território de oportunidades. Um lugar que mostra para outras mulheres que é possível viver da moda, ter profissão e transformar a própria história.”
Rotas de Integração Nacional
As Rotas de Integração Nacional são uma estratégia do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional para fortalecer cadeias produtivas e promover o desenvolvimento econômico em diferentes regiões do país. Atualmente, a iniciativa conta com 13 rotas, 79 polos produtivos distribuídos em 19 estados e no Distrito Federal, alcançando 1.202 municípios.
Outras Notícias:
Política de crédito inclusiva apoia mulheres empreendedoras do Centro-Oeste
MIDR coloca em apreciação projetos estratégicos para fronteiras amazônicas
Vilas Produtivas Rurais transformam histórias de vida no Ceará
