Contexto
A água constitui elemento estruturante para o desenvolvimento sustentável, a segurança alimentar, energética e climática e a promoção do bem-estar social. Apesar dos avanços institucionais, científicos e tecnológicos observados nas últimas décadas, o mundo enfrenta um cenário de crescente pressão sobre os recursos hídricos, agravado pelas mudanças climáticas, pela degradação ambiental e pela intensificação dos usos múltiplos da água.
Em 2026, a crise hídrica global atingiu um novo patamar, com a UN-Water alertando para a possibilidade de uma “falência global da água”, expressão que traduz a incapacidade progressiva dos sistemas naturais e institucionais de responder, de forma sustentável, às demandas humanas, econômicas e ecológicas. Bilhões de pessoas ainda não têm acesso adequado à água potável e ao saneamento, enquanto os padrões atuais de consumo, poluição e uso do solo vêm superando a capacidade de reposição e regeneração dos sistemas hídricos. A poluição, o desmatamento, a degradação dos ecossistemas e os impactos crescentes das mudanças climáticas agravam esse cenário, revelando uma crise que não é apenas física, mas também civilizatória, associada a modelos de desenvolvimento e governança que, em muitos contextos, afastaram a centralidade da vida, da natureza e do uso sustentável dos recursos[1].
Diferentemente do estresse hídrico ou de crises localizadas de escassez, a noção de “falência hídrica” remete a uma condição persistente de insolvência sistêmica, marcada pela acumulação de danos que degradam o capital natural, comprometem a capacidade de suporte dos ecossistemas e reduzem as possibilidades de recuperação futura. Esse contexto reforça a necessidade de dar centralidade ao tema da água nos debates internacionais sobre clima, biodiversidade, cidades, produção de alimentos, energia, redução do risco de desastres e desenvolvimento sustentável.
No Brasil, esse cenário global assume contornos próprios. O País reúne uma das mais expressivas disponibilidades de água doce do planeta, ampla diversidade de biomas e reconhecida experiência em gestão por bacias hidrográficas, o que lhe confere papel estratégico nos debates internacionais sobre água, desenvolvimento sustentável e adaptação climática. Ao mesmo tempo, persistem desafios estruturais que demandam respostas integradas, contínuas e territorialmente sensíveis.
Entre esses desafios estão o aumento do estresse hídrico em áreas densamente povoadas e de intensa atividade econômica, a vulnerabilidade do setor energético em razão da dependência de fontes hidrelétricas, os conflitos pelo uso da água em territórios produtivos, a poluição difusa associada à expansão urbana e agropecuária, a degradação de bacias hidrográficas e a perda de vegetação nativa em áreas estratégicas, além da existência de déficits de saneamento básico e de acesso à água em diferentes contextos sociais e territoriais.
Esse quadro é agravado pela maior frequência e intensidade de eventos extremos relacionados ao clima, como secas prolongadas, chuvas intensas, inundações e maior variabilidade hidrológica, com impactos diretos sobre a segurança hídrica, a infraestrutura, os ecossistemas, a produção e a qualidade de vida da população. .
Nesse contexto, torna-se necessário avançar na adaptação climática, ampliar a resiliência territorial e consolidar modelos cada vez mais integrados, participativos e preventivos de governança da água, capazes de responder aos desafios atuais e futuros do desenvolvimento brasileiro, e assegurar a disponibilidade de água, em quantidade e qualidade compatíveis com as múltiplas necessidades da sociedade, da economia, dos ecossistemas e dos territórios.
1.2. Negociações Internacionais
A 3ª Conferência das Nações Unidas sobre a Água será realizada em Abu Dabi, nos Emirados Árabes Unidos, em dezembro de 2026, e representa um marco internacional para acelerar a implementação da Agenda 2030, em especial do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6), voltado a assegurar água e saneamento para todos.
Sua preparação integra um processo internacional iniciado em janeiro de 2026, em Dacar, no Senegal, onde foram lançados os debates estruturantes que orientarão a agenda política de 2026. Essa etapa inaugurou o percurso Dacar → Abu Dabi, organizado em torno de seis Diálogos Interativos, concebidos para mobilizar governos, instituições, especialistas e sociedade em torno de prioridades globais relacionadas à água, ao saneamento, à resiliência, ao financiamento e à cooperação.
Na reunião de Dacar, os países foram conclamados a promover, em âmbito nacional, mecanismos de diálogo, escuta e sistematização de contribuições, com objetivo de reunir percepções, experiências e prioridades dos diferentes setores e segmentos sociais, que de modo que essas contribuições reflitam os desafios concretos e as soluções em curso.
É nesse contexto que se insere o Caminho das Águas, como a expressão brasileira desse chamado à mobilização e à escuta nacional. A iniciativa busca transformar a diversidade de percepções, experiências e prioridades do País em insumos qualificados para a consolidação do posicionamento brasileiro, a ser apresentado pelo governo na Conferência.
Ao mesmo tempo, o Caminho das Águas também se materializa como processo de implementação do Plano de Aceleração para Gestão da Água e Governança Participativa, lançado no âmbito da COP30, ao estruturar uma jornada contínua de mobilização, escuta social, fortalecimento institucional e circulação de boas práticas. Dessa forma, a iniciativa conecta o legado da COP30 ao percurso Dacar → Abu Dabi, transformando a participação brasileira na Conferência de 2026 em oportunidade concreta de avançar na implementação de compromissos já assumidos pelo País.O Caminho das Águas constitui, assim, o desdobramento brasileiro dessa trajetória internacional, conectando as discussões globais às realidades nacionais, às diversidades territoriais e às prioridades estratégicas do Brasil, ao mesmo tempo em que fortalece a construção de uma contribuição de país legitimada pelas múltiplas vozes de da sociedade.