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Futebol & Debate
Câmaras Temáticas discutem a atuação da comissão técnica, arbitragem e direitos no futebol
A série de webinares Futebol & Debate – Câmaras Temáticas, promovida pela Secretaria Nacional de Futebol e Defesa dos Direitos do Torcedor (SNFDT) da Secretaria Especial do Esporte do Ministério da Cidadania, realizou, nesta terça-feira (17.11), mais um evento de sua programação. O encontro virtual tratou do tema “Comissão Técnica, Arbitragem e os Direitos no Futebol” e serviu como mais um passo nos debates que irão subsidiar a SNFDT na formulação das propostas de mudanças na legislação esportiva que deverão ser apresentadas no Projeto de Lei do Estatuto do Futebol.
“Essa webinar foi, como todas as demais, gravada e o conteúdo servirá de base para o estudo que a Secretaria Nacional de Futebol irá conduzir para a montagem de um Projeto de Lei relativo ao tema e que irá substituir a Lei 9.615 e que dará início ao Estatuto do Futebol, estatuto esse que irá normatizar e regular as atividades de interesse do futebol”
Ronaldo Lima, secretário da SNFDT
Além do secretário da SNFDT, Ronaldo Lima, a webinar reuniu o técnico Dorival Júnior; o ex-árbitro da FIFA e professor da Fundação Getúlio Vargas Renato Marsiglia; o treinador e presidente do Sindicato dos Atletas do Rio de Janeiro (SAFERJ), Alfredo Sampaio; o ex-atleta, gestor esportivo e professor de educação física Carlos Alberto Lancetta; e o gerente de Sustentabilidade e Responsabilidade Social da CBF, Diogo Netto, mediador do evento.
“Essa webinar foi, como todas as demais, gravada e o conteúdo dela servirá de base para o estudo que a Secretaria Nacional de Futebol e Defesa dos Direitos do Torcedor irá conduzir para a montagem de um Projeto de Lei relativo ao tema e que irá substituir a Lei 9.615, a lei geral do esporte (Lei Pelé), e que dará início ao Estatuto do Futebol, estatuto esse que irá normatizar e regular as atividades de interesse do futebol. Como esporte mais praticado e visto no país, como carro-chefe do esporte brasileiro, o futebol tem regras próprias, específicas, e como tal deve ser tratado”, afirmou Ronaldo Lima.
“A Secretaria Nacional de Futebol entende que, devido ao tempo, a Lei 9.615 não atende mais às necessidades de hoje para o futebol e também para as demais modalidades. Precisamos fazer mudanças e o Estatuto vem corrigir essa defasagem e propor novas ideias, ideias que inclusive foram debatidas neste webinar”, continuou o secretário da SNFDT.
Profissionalização
Em sua palestra, Renato Marsiglia tratou de um tema que há décadas é debatido com poucos avanços no país: a profissionalização da atividade de arbitragem no futebol.
O ex-árbitro, autor do livro Por Dentro da Copa – escrito após a experiência que ele viveu ao apitar no Mundial de 1994, nos Estados Unidos –, usou trechos de sua obra para mostrar como a situação do árbitro ainda é precária no país:
“O árbitro no Brasil é obrigado a ter outra atividade, já que ele não tem respaldo da legislação trabalhista. Quer dizer, se eu apito, eu recebo. Se eu tenho uma distensão muscular e fico um mês fora da arbitragem, eu fico sem receber. As federações exigem que o árbitro tenha uma outra profissão, até por uma questão de independência em relação às decisões tomadas em campo. O árbitro, se ele quiser, se ele achar, deve colocar dois, três, quatro ou cinco jogadores para rua sem se preocupar se ele vai ser escalado ou não na semana seguinte, pois aí ele tem uma outra profissão que vai garantir o salário no final do mês. Caso contrário, ele pode pensar: ‘se eu criar um problema eu não sou escalado, se eu não sou escalado eu não ganho, e se eu não ganho a minha família não come’”.
“Se tivéssemos nos estruturado e nos organizado lá atrás, talvez nós fôssemos não cinco, mas seis, sete, oito vezes campeões do mundo”
Dorival Júnior, treinador
“As próprias federações esportivas no Brasil não têm interesse em regulamentar a profissão. Creio que o crescimento da arbitragem passa necessariamente por essa regulamentação. É fundamental que ele tenha o respaldo de uma legislação trabalhista. Isso é de 26 anos atrás e hoje já existe uma legislação trabalhista mais moderna. Mas é uma questão fundamental que tem que ser discutida. O árbitro não tem nenhum tipo de segurança. Ele fica à mercê de sua saúde e do humor de quem faz a escala. No futebol tem muito dinheiro envolvido. Jogadores custam dezenas, centenas de milhões de dólares. E é o árbitro que tem que preservar a integridade física desses atletas. Mal comparando, ele é o amador no meio de profissionais”, prosseguiu.
“Isso eu escrevi há 26 anos. Não mudou praticamente nada, a não ser em relação à estrutura que a CBF oferece. Ela tem equipe de nutricionista, de psicólogo, preparadores físicos, tem uma escola de arbitragem... Nesse aspecto mudou muito. Federações? Tem três ou quatro que oferecem, num nível mais baixo, mas que também dão uma estrutura considerável, razoavelmente boa, aos seus árbitros. Fora isso, nas outras 22 duas (federações) o árbitro fica à mercê da sua própria sorte”, ressaltou o ex-árbitro da FIFA.
A situação é semelhante a dos treinadores, opinou Alfredo Sampaio, segundo palestrante do dia. “Qual a tranquilidade que nossos treinadores têm para trabalhar? Nenhuma. Em recente pesquisa feita por um brasileiro que está na Alemanha ficou constatado que a média de tempo de trabalho é de quatro meses no Brasil. Assim como o Marsiglia falou que se um árbitro não apitar como é que ele vai pagar as contas e como é que ele vai pagar escola e supermercado, isso inclui também os treinadores. Como é que ele pode fazer uma segurança de vida se ele não tem segurança de trabalho?”
Base e gestão
Outro tema abordado foi a forma como as categorias de base são trabalhadas no Brasil. “Nós não planejamos uma categoria de base. Cada um faz o que bem entende. Não existe um protocolo de formação nos clubes. Cada treinador, cada preparador físico faz o que entende. Não adianta queimar etapas de treinamento. O jovem campeão nem sempre é o campeão adulto”, afirmou Carlos Alberto Lancetta, terceiro palestrante.
“Nós fomos bicampeões mundiais em 1983 e 1985 (Sub 20) e dessas seleções, desses 44 jogadores, só cinco foram campeões do mundo em 1994. Por quê? Porque as etapas foram queimadas e também por conta do problema comercial. Os clubes venderam os jogadores para a Europa muito jovens. E hoje o jogador sai mais rápido ainda. Em consequência disso, nós não tínhamos jogadores na formação”, prosseguiu.
“É preciso ter um currículo básico nos clubes. Os clubes precisam ter consciência disso. Nós não estamos fazendo o nosso dever de casa. Nós não estamos preparando nossos atletas na base convenientemente”, alertou Lancetta.
Dorival Júnior, último palestrante, falou sobre vários assuntos, mas destacou que se o futebol brasileiro fosse mais bem administrado, o sucesso em todos os níveis seria muito maior. “Se tivéssemos nos estruturado e nos organizado lá atrás, talvez nós fôssemos não cinco, mas seis, sete, oito vezes campeões do mundo”, ponderou.
Para o treinador, um dos caminhos da modernidade e do sucesso passa pela gestão nos clubes. “A nossa reinvenção é necessária para que nesse momento nós possamos dar uma volta. E essa volta passa por alguns aspectos que eu acho muito importante. Primeiro, os gestores de clubes. Para mim, não são só os gestores, mas o modelo de gestão desses clubes. É fundamental que alteremos isso. Nós não podemos mais deixar que as coisas aconteçam. É um cheque em branco. O camarada faz o que quer e ainda recebe valores até estratosféricos, porque tem muitos jogadores vendidos nesse processo, além de tudo o que entra nos clubes vindo de contratos de publicidade, televisão, enfim, mal gerenciados, mal administrados, criando situações ainda piores quando saem”, prosseguiu.
“Eu acho que deveria ser auditado tanto no início quanto no final da administração. E a partir desses resultados que ele se fizesse responsável por aquilo que acabou criando para o seu clube. Que a partir daí o seu CPF fosse colocado à prova. Isso é fundamental que aconteça”, cobrou Dorival Júnior.
O próximo evento da série Futebol & Debate – Câmaras Temáticas será realizado no dia 24 de novembro. O webinar debaterá o tema “Aspectos tributários e fiscais no futebol”.
Diretoria de Futebol – Ministério da Cidadania