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Gestão esportiva
Série Futebol & Debate – Câmaras Temáticas termina com webinar sobre Calendário e Seleções Brasileiras
A série de webinares Futebol & Debate – Câmaras Temáticas terminou nesta terça-feira (22.12) com a realização do último evento de sua programação. Com o objetivo de debater o tema “Calendário e Seleções Brasileiras”, o encontro virtual contou com a participação, além do secretário nacional de Futebol e Defesa dos Direitos do Torcedor (SNFDT) da Secretaria Especial do Esporte do Ministério da Cidadania, Ronaldo Lima, de dois convidados ilustres.
Se não massificarmos novamente a prática do futebol vamos ter dificuldade para voltar a ser o país do futebol. Se a gente não massificar, não colocar mais atletas, mais treinadores, mais comissões técnicas em atividade o ano todo vamos ter dificuldade para voltar a ser o país do futebol"
Mauro Silva, campeão da Copa de 1994
Campeão da Copa do Mundo de 1994, Mauro Silva, atual vice-presidente da Federação Paulista de Futebol, foi um dos palestrantes, assim como Américo Faria, ex-coordenador técnico da Seleção Brasileira. Lindberg Júnior, secretário executivo da Comissão de Esporte da Câmara dos Deputados, completou o time dos palestrantes. O evento foi mediado por Diogo Netto, diretor de Sustentabilidade e Responsabilidade da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Elitização
Para Mauro Silva, o retrospecto da Seleção Brasileira em 2020 foi espetacular e isso pode indicar um boa chance de sucesso na Copa do Mundo do Catar, em 2022. Ele, contudo, alertou para os prejuízos causados pelo que ele chamou de “elitização” do futebol brasileiro.
“A trajetória da Seleção em 2020 teve o melhor início, desde 1969, nas Eliminatórias. Nós, que disputamos as Eliminatórias, sabemos como é importante começar bem. Foram quatro vitórias, 12 gols feitos e somente dois gols sofridos. Acho que isso cria um ambiente muito favorável para o trabalho do Tite para a gente chegar a essa Copa do Mundo e conquistar um título de novo depois de 20 anos. Nós conquistamos em 1994 depois de 24 anos e conforme passa o tempo aumenta muito essa pressão. Acho que chegou a hora do Tite levantar essa taça e acho que é a oportunidade do Neymar também e de toda essa geração coroar o trabalho. Acho que esse início nas Eliminatórias é muito promissor e eu fico muito feliz”, avaliou Mauro Silva.
Para ele, o caminho de uma Seleção Brasileira forte, pensando no calendário, passa por um equilíbrio entre os interesses do time nacional, dos clubes e dos jogadores. “O cenário ideal é a gente evitar conflitos de calendários. Por um lado, é muito ruim para os clubes não poderem contar com seus jogadores por conta da data Fifa ou por qualquer outra razão. Por outro lado, para o atleta é super importante ter a oportunidade de representar a Seleção. Assim como para a Seleção é fundamental poder contar com os melhores. Então, é preciso conciliar esses interesses. É difícil, mas é importante. Esse é o primeiro ponto quando se fala de calendário e de Seleção: conciliar os interesses da Seleção, dos clubes e dos atletas que querem vestir a camisa da Seleção Brasileira”, enumerou Mauro Silva.
A partir daí, Mauro Silva traçou um paralelo da realidade do calendário do futebol brasileiro, que força poucos clubes a jogarem muito e muitos clubes a se apresentarem pouco.
“Quando a gente fala de calendário como um todo, nós vamos falar de um universo de 700 clubes no Brasil e o raciocínio não pode ser elitizado. Não podemos olhar para o calendário nacional pensando apenas em poucos clubes. Porque senão temos poucos clubes com um grande número de jogos e temos muitos clubes com poucos jogos. A maioria das equipes tem um calendário enxuto. Então é preciso ter essa visão sistêmica sobre essa quantidade de times e grande quantidade de jogadores que é impactada por esse calendário restrito. Consequentemente, estamos falando de menos emprego, menos renda, menos movimento no futebol e menos revelação de atletas e desenvolvimento como um todo”, explicou.
O mais importante é que a gente possa já delinear na cabeça alguma possível solução para esse problema. Nós estamos vivendo uma realidade com poucos clubes jogando muito e muitos clubes jogando pouco”
Ronaldo Lima, secretário da SNFDT
“Os chamados grandes clubes têm um calendário apertado, com muitos jogos. Enquanto os clubes menores têm menos oportunidades ao longo do ano. E o Brasil não é feito só de 20 clubes (da Série A). São centenas que fazem o futebol. Então é preciso tomar cuidado com a chamada elitização do futebol. Um dos principais focos da Federação (Federação Paulista) tem sido oferecer um calendário para o maior número de clubes. Existe essa preocupação de justamente não deixar essa agenda restrita”, ponderou.
Mauro Silva também pontuou que é preciso que o país volte a massificar o futebol, sob o risco de perder uma parte importante de sua história. “Por que nós ganhamos cinco Copas do Mundo e nos tornamos o país do futebol? Porque a prática do futebol era massificada nas ruas de todo o país. E da quantidade nós tirávamos a qualidade. Se não massificarmos novamente a prática do futebol vamos ter dificuldade para voltar a ser o país do futebol. Se a gente não massificar, não colocar mais atletas, mais treinadores, mais comissões técnicas em atividade o ano todo vamos ter dificuldade para voltar a ser o país do futebol”, alertou.
Em sua palestra, Américo Faria apresentou dados de um estudo que fez há dois anos sobre o calendário do futebol brasileiro e mostrou como a matemática vai de encontro ao que Mauro Silva falou.
“Em 2018 eu fiz um levantamento. Nós temos 52 semanas (por ano). Com meio de semana e fim de semana temos 104 datas (para jogos). Se você tira as férias e a pré-temporada, temos 19 datas e com isso vão sobrar 85 datas, incluindo o meio de semana e o final de semana. Acontece que você não pode jogar todo meio de semana e final de semana. O que seria um calendário ideal? O calendário ideal, ao meu ver, perfeitamente exequível, seria jogar a cada 15 dias no meio de semana. Você teria um meio de semana para jogar e na outra você teria uma semana inteira para treinamento. Isso aí daria 64 datas. Eu fiz um levantamento em 2018 e onze clubes jogaram mais de 64 datas. Todos os outros clubes brasileiros jogaram menos de 64 datas”, afirmou Américo Faria.
Estatuto do Futebol
Ao longo do ano, a série de webinares promoveu debates sobre diversos temas ligados à cadeia produtiva do futebol, como os direitos do torcedor, o futebol amador e semiprofissional, a constituição de clubes, os direitos de transmissão, a arbitragem e comissão técnica, entre outros.
O objetivo foi dar voz a representantes dos variados setores de modo que tudo o que foi discutido nos webinares possa embasar as propostas de mudanças na legislação esportiva que deverão ser apresentadas no Projeto de Lei do Estatuto do Futebol.
Durante sua apresentação, Mauro Silva elogiou a iniciativa da série de webinares e, principalmente, o objetivo de reformulação da legislação por parte da Secretaria Nacional de Futebol e Defesa dos Direitos do Torcedor. “Eu acho que a relevância do futebol requer um estatuto e um documento próprio para a gente desenvolver ao máximo essa indústria”, afirmou o campeão mundial.
Para Ronaldo Lima, a preocupação de Mauro Silva sobre o desequilíbrio do calendário do futebol brasileiro é fundamental. “Acho importante todos nós estarmos cientes dos problemas e imaginarmos as soluções. Isso aqui é uma troca de ideias, mas o mais importante é que a gente possa já delinear na cabeça alguma possível solução para esse problema. Nós estamos vivendo uma realidade com poucos clubes jogando muito e muitos clubes jogando pouco. Qual a solução de um calendário que nos permita manter em atividade tantos profissionais que tem tão pouco jogos em competição? É por isso que esse webinar é importante. Para discutir os problemas e tentar buscar as soluções”, afirmou o secretário da SNFDT.
Diretoria de Comunicação - Ministério da Cidadania