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A incrível trajetória das meninas quilombolas de Curiaú, no Amapá, nos JEB’s 2022
Mar acima, mar abaixo: Marabaixo. É a partir desse movimento ondulatório que faz referência à ancestralidade cultural e histórica dos afrodescendentes que as meninas da equipe de basquete da comunidade de Curiaú, no Amapá, se apresentam. Cantam Marabaixo ( conheça melhor abaixo ), encantam a plateia e jogam. Representantes da Escola Quilombola Estadual José Bonifácio, na região metropolitana de Macapá, elas venceram a seletiva do estado e conquistaram a vaga no Rio de Janeiro para a disputa da edição de 2022 dos Jogos Escolares Brasileiros.
O Marabaixo é nossa ancestralidade lá do Curiaú. Do quilombo. O nosso cabelo é o caminho por onde os negros saíram. É nossa identidade"
Elizia da Silva Paixão, atleta do basquete e cantadora de Marabaixo
No caminho e na capital fluminense, elas viveram ineditismos em série. Quase todas as adolescentes entraram num avião pela primeira vez. Muitas se hospedaram em um hotel de forma inédita. Tiveram a noção da grandeza real do país ao conviver no evento esportivo com atletas das 27 Unidades da Federação. Conheceram o mar na orla do Recreio dos Bandeirantes. E, de quebra, ainda ganharam a chance de ver de pertinho a fase final da Skate Street League (SLS), principal competição do circuito internacional da modalidade.
“Eu confesso que fiquei um pouco nervosa, com medo de cair de avião, mas foi tranquila a viagem. É um orgulho imenso, porque nem todo mundo tem essa oportunidade. Hoje estamos aqui representando nossa comunidade e nosso estado”, afirmou Lorrana da Silva, de 13 anos, pivô da equipe. Nervosas no início, elas perderam os dois primeiros jogos. Contra o time do Acre, por 22 x 4. Diante do Maranhão, por 72 x 8.
Pelo regulamento dos JEB’s, as primeiras fases dos torneios servem de nivelamento. Na sequência, as equipes são divididas por nível técnico, em séries ouro, prata e bronze, todas elas com direito a medalhas. As meninas de Curiaú foram para a Série Bronze e, neste sábado (05.11), tiveram uma partida emocionante contra a equipe da Bahia pelas quartas de final, decidida nos últimos segundos pela diferença mínima: 21 x 20 para a trupe amapaense. Foi a senha para uma imensa festa na Arena da Juventude, no Complexo Esportivo de Deodoro. Neste domingo (06.11), elas foram superadas pela equipe de Alagoas na semifinal por 31 x 14. Na segunda, entram em quadra pela última vez nos JEB's, para decidir o terceiro lugar da Série Bronze.
Da pandemia aos JEB’s
O projeto do basquete na comunidade quilombola tem origens em 2019. Ex-armador de equipes amapaenses, o empresário Paulo Thadeu Tenório dos Santos se casou com uma integrante do quilombo e, numa área ociosa do terreno, construiu uma quadra, ainda antes da pandemia. Primeiro, com tabela simples. Depois, com padrão oficial.
As crianças da escola pública local começaram a frequentar o ambiente, ter aulas algumas vezes por semana, surgiram projetos e ali foi lançada a semente para a formação das equipes que conquistaram em 2022 o torneio estadual e a vaga nos Jogos Escolares Brasileiros.
Para quase todas é a primeira vez num avião, num hotel, numa cidade grande, diante do mar. É um negócio fora do comum, fora do normal. Acrescenta demais como cidadãos fazer esse intercâmbio com outros atletas da mesma modalidade”
Paulo Thadeu Tenório, integrante da comissão técnica do basquete do Amapá
“A maioria dos moradores estuda na escola que fica no quilombo. Aí a gente conseguiu reunir um time, vencer a etapa estadual e estamos tendo essa experiência de participar da etapa nacional dos JEB’s. Tudo isso gerou uma expectativa muito grande. Elas estão se divertindo de verdade, gostando muito”, contou Expedito Castelo Branco, técnico da equipe.
“Para quase todas é a primeira vez num avião, num hotel, numa cidade grande, diante do mar. É um negócio fora do comum, fora do normal. Acrescenta demais como cidadãos fazer esse intercâmbio com outros atletas da mesma modalidade”, completou Paulo Thadeu, que integra a comissão técnica amapaense no Rio de Janeiro.
Uma das caçulas do grupo, Kelly Soraia de Miranda, de 12 anos, é retrato do projeto. Chegou ao basquete quando primos avisaram que existia a oportunidade. “Eu me interessei e fui me inscrever. Estou há pouco tempo ainda e está sendo um grande privilégio para nós”.
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| Foto: Claudia Martini/ Min. Cidadania |
Marabaixo: tradição e identidade
O Marabaixo é uma manifestação cultural de origem africana, típica de comunidades afrodescendentes do Amapá. Inclui dança de roda, canto e percussão. É uma atividade ligada às festas religiosas e históricas e simboliza um reforço de identidade.
“É uma manifestação cultural quilombola que marca a utilização de danças e lamentos, que são os ladrões, os tipos de cantos que elas fazem. E tem a dança Marabaixo, que é feita arrastando os pés, como se estivessem com as pernas acorrentadas. Como os negros faziam na época da escravidão”, explicou Luinne Nascimento, professora de educação física e uma das integrantes da delegação amapaense nos JEB’s.
Descendentes de famílias bem antigas na região, as meninas da equipe de basquete trazem a tradição em sua história e costumam se apresentar em escolas da região. Coringa da equipe, atuando como armadora, ala e até pivô, Elizia da Silva Paixão é uma dessas artistas.
“Sou cantadora também. Este ano a gente ganhou cantando Marabaixo nas escolas. Fomos campeãs. Fico muito feliz por isso. O Marabaixo é nossa ancestralidade lá do Curiaú. Do quilombo”, relatou, apontando ainda para as tranças meticulosamente alinhadas em seu cabelo. “O nosso cabelo é o caminho por onde os negros saíram. É nossa identidade. Essa trança aqui foi minha irmã que fez. Ela é lá do Amapá, do Curiaú”, orgulhou-se.
Originalmente voltada para si própria, com produção agrícola de farinhas e açaí voltados para a própria subsistência, a comunidade quilombola de Curiaú passou a chamar a atenção da população local, tanto para quem busca a tradição das tranças nos cabelos afro quanto para o comércio de produtos locais. “Originalmente eles eram voltados mais para a subsistência, mas hoje ocorre a comercialização dos cultivos de farinha, açaí e dessa arte de fazer os trançados”, explica Luinne Nascimento.
Assessoria de Comunicação – Ministério da Cidadania
