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Inclusão Socioeconômica
No Piauí, empreendedora transforma criação de galinhas em negócio e inspira outras mulheres pelo YouTube
Foto: Sérgio De Mouraj
No povoado Bom Passar, zona rural de Altos, no Piauí, a dona de casa Cacilda de Freitas Nunes fracassou três vezes na criação de galinhas. Na quarta, acertou. Hoje ela se define como microempreendedora do ramo aviário, vende ovos e pintinhos e ensina outras mulheres do campo pelo YouTube.
O canal nasceu por acaso. A filha publicou um vídeo dela vacinando as aves no quintal. Cacilda gostou da repercussão e passou a ensinar manejo e gestão a mulheres isoladas, muitas sem renda própria.
Ela é beneficiária do Acredita no Primeiro Passo, programa coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) que combina crédito, capacitação técnica e cooperativismo. O Instituto Federal do Piauí (IFPI) executa a iniciativa, e o Banco do Nordeste (BNB) a financia, em parceria com o MDS e as prefeituras. O programa atende 500 famílias, cerca de 1.500 pessoas, em Teresina, Altos, José de Freitas, Lagoa Alegre, Cabeceiras, Miguel Alves, União e Boa Hora.
Foco no conhecimento
Cacilda atribui os três fracassos à falta de preparo. “Eu achei que, se tinha fracassado, era porque estava falhando em alguma coisa. Faltava conhecimento”, lembrou. Ela estudou o manejo correto e prosperou na quarta tentativa.
Para ela, o diferencial do programa vai além do crédito. “O projeto não se preocupou apenas em financiar, mas em fornecer e fortalecer o conhecimento para que a mulher já entre no ramo aviário com a certeza de que vai dar certo”, disse.
Antes do apoio, a produção ocupava a casa inteira. “Eu não tinha espaço. Era uma chocadeira em cima do freezer, outra numa mesinha na cozinha, ovos em cima de prateleiras e até no chão. As ligações elétricas eram todas no improviso”, contou.
Hoje, a propriedade tem uma sala de entreposto, onde Cacilda seleciona, classifica, pesa e higieniza os ovos, e um berçário de pintinhos que ela batizou de “fábrica de bebês”. O berçário responde por 80% do faturamento.
Ensinar pela internet
Os comentários das seguidoras medem o resultado do canal. “O sonho da gente é do tamanho da nossa determinação. Quando vejo comentários de mulheres que compraram suas chocadeiras e tiveram sucesso nas eclosões graças aos vídeos, sinto que ganhei o ano”, relatou.
Nos vídeos, Cacilda também ensina a valorizar o próprio trabalho e a não deixar o cliente ditar o preço. “Quem sabe o valor do seu ovo, do seu pintinho e da sua galinha é você. A gestão empresarial não é só para quem tem um CNPJ na cidade”, orienta.
O programa oferece crédito de até R$ 35 mil para famílias que empreendem em conjunto pelo casal, valor que viabiliza a estruturação de 200 aves e pode gerar renda líquida de até R$ 3.800 em seis meses. Assim, famílias inscritas no CadÚnico, que antes dependiam do Bolsa Família, passam a faturar até três vezes mais trabalhando de dentro de casa.
Quando a mulher é a protagonista do empreendimento, o projeto disponibiliza um crédito de R$ 20 mil. O valor permite a estruturação da unidade produtiva com 100 animais. Em cerca de seis meses, a comercialização de ovos, pintos e aves de corte gera uma renda líquida de aproximadamente R$ 1.800 para a família.
O projeto tem quatro etapas: capacitação em manejo, associativismo e marketing rural; implantação dos aviários com financiamento do BNB; assistência técnica por 18 meses, com um técnico para cada dez famílias; e integração dos produtores a uma cooperativa, que garante o escoamento da produção.
O coordenador adjunto do projeto, José Luiz Santos de Moura, diretor-geral do IFPI – Campus Esperantina, aposta no impacto nos municípios. “É um projeto que vai mudar o IDH de cada município onde está inserido”, disse.
Marketing rural e compra coletiva
A coordenadora-geral, Dayseanny de Oliveira Bezerra, professora do Instituto Federal do Piauí (IFPI) – Campus José de Freitas, explica que o marketing rural agrega valor a um produto que já tem alta qualidade. A galinha que antes saía em sacola comum ganha embalagem, rótulo, data de envase e prazo de validade.
Em visitas a comunidades e assentamentos, José Luiz e a equipe notaram que as confraternizações serviam frango de granja, galeto ou caipirão, e não a galinha caipira nativa. Segundo ele, a ave corre risco de extinção em um futuro próximo. A parceria com o MDS ganhou força a partir dessa constatação. O IFPI leva às produtoras conhecimento científico sobre manejo, vacinação, ração, incubação e limpeza de aviários.
A meta é levar a galinha nativa à merenda escolar, a restaurantes de Teresina e ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Cacilda já enxerga o efeito. “Imaginar que o seu filho, na rede pública, vai consumir um produto genuinamente caipira da própria região é a prova da amplitude que esse projeto alcançou”, diz. O programa já é visto como modelo piloto para outras regiões do país.
Cacilda deixa um recado às mulheres do campo. “Acredite no seu potencial. Nada cai de paraquedas e tudo tem um preço, que é do tamanho do seu esforço. Mas é possível, sim, transformar a sua vida e gerar a sua própria renda sem precisar sair de casa”.

Assessoria de Comunicação - MDS