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Além da deficiência: histórias de vida e trabalho de servidores do INSS em São Paulo
Neste Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, o INSS reúne histórias de quatro servidores de São Paulo que mostram diferentes caminhos de autonomia, inclusão e pertencimento no serviço público. Em comum, trajetórias marcadas por desafios, conquistas e pela busca de espaço para exercer plenamente suas capacidades, dentro e fora do Instituto.
Autonomia para ocupar o próprio lugar
O servidor do INSS em Osasco, Rodrigo Leon Ramos Plati, tinha 20 anos quando perdeu a visão, em decorrência da neuromielite óptica. Com a deficiência adquirida, veio a tarefa de reaprender as tarefas cotidianas. Rodrigo aprendeu a usar computador com leitor de tela e a se locomover pelas ruas. Recuperar a independência tinha, para ele, um significado familiar: sua irmã tem paralisia cerebral e depende dos cuidados da mãe.
O caminho profissional não foi linear. Rodrigo trabalhou em um call center, até que uma atualização do sistema o tornou inacessível e acabou levando à sua demissão. Depois, passou anos procurando emprego. Nesse intervalo, chegou a vender pães de mel de porta em porta, para ajudar nas despesas da filha pequena. Mais tarde, conseguiu um trabalho como telefonista, justamente no hospital onde a filha mais velha tinha ficado internada.
Quando surgiu a oportunidade do concurso do INSS, em 2022, a rotina tinha pouco espaço livre. Rodrigo morava sozinho, trabalhava no hospital e ainda precisava dar conta da casa. A solução foi fazer o estudo caber entre as tarefas: acompanhava as aulas enquanto cozinhava, lavava roupa ou limpava a casa. O esforço valeu a pena – conseguiu ser aprovado no concurso, tomando posse em junho de 2023.
Na GEX Osasco, atua hoje principalmente com a Ouvidoria, pelo Fala.BR, além de auxiliar na Tomada de Contas Especial (TCE). Antes de chegar, confessa que havia apreensão sobre a acessibilidade e sobre como seria recebido, mas o receio ficou para trás já nos primeiros dias. “Tenho bastante orgulho de trabalhar no INSS, em especial na Ouvidoria. É muito satisfatório quando um cidadão entra em contato conosco e conseguimos solucionar aquele problema que se arrastava por tempos”, diz.
Um gesto ficou guardado em sua memória. Durante a ambientação dos novos servidores, uma das orientadoras instalou um leitor de tela em seu computador, para que Rodrigo pudesse acompanhar melhor o conteúdo. Era uma forma concreta de dizer: você faz parte deste espaço.
Rodrigo ainda encontra barreiras relacionadas ao capacitismo no dia a dia. “Às vezes, as pessoas me julgam incapaz de fazer algo pela minha deficiência, antes sequer de me ouvirem ou de darem uma chance para eu mostrar que consigo”, relata.
A vida é um tabuleiro
A servidora Glenda Felippe e Silva perdeu a visão em meados da década de 1990. Complicações da diabetes levaram a sucessivas cirurgias, sem que fosse possível impedir a perda total da visão. Um mês depois da última operação, porém, ela começou a aprender braile e técnicas de locomoção. “Quando aprendi os primeiros caracteres de braile, parece que tudo se iluminou pra mim”, recorda.
Anos depois, ao passar por um centro cultural onde pessoas com deficiência visual jogavam xadrez, Glenda se interessou pelo jogo. Ela aprendeu xadrez e, seis meses depois, participou de seu primeiro campeonato.
“Foi um aprendizado enorme, além de fazer muitos amigos. Hoje, mais do que competir, encaro os campeonatos como uma ocasião para reencontrar os amigos”, conta. Em 2026, Glenda planeja participar do Parapanamericano de Xadrez.
Sua trajetória no INSS também percorreu diferentes áreas. Ingressou no Instituto em 2003, passou pela Reabilitação Profissional e pela Gestão de Pessoas, além de participar de projetos ligados à acessibilidade. Hoje na Comunicação Social de SP, ela trabalha com consultoria de audiodescrição de imagens e conferência de placas em braile.
Ao longo desse percurso, Glenda transformou a própria experiência de reabilitação em conhecimento profissional. Na Reabilitação Profissional, chegou a mapear centros de atendimento para pessoas com diferentes deficiências em São Paulo, facilitando o encaminhamento de segurados.
Sua relação com a autonomia talvez esteja resumida em outra de suas frases. “Não tenho inibição nenhuma de pedir ajuda. Quando preciso, peço, sim.” Como no xadrez, independência trata-se de poder decidir os próprios caminhos, inclusive quando um deles passa por estender a mão.
Ossos de vidro, alma de aço
Para Mario Sergio Nascimento, servidor da agência de Barueri (SP), a expressão “ossos de vidro” não é apenas uma metáfora. Diagnosticado com osteogênese imperfeita por volta dos seis anos de idade, ele descobriu que o próprio corpo exigiria cuidados que outras crianças talvez jamais precisassem. A condição de saúde traz uma fragilidade óssea que transforma movimentos aparentemente banais em decisões cotidianas. Uma queda, um esforço, um descuido podem terminar em fratura.
Foi também durante a juventude que ele encontrou nas palavras um território menos sujeito às limitações do corpo. Começou a escrever na adolescência para expressar sentimentos e exercitar a criatividade.
Da relação com a literatura nasceu sua coletânea de poemas, Castelo de Vidro. Em livro lançado neste ano, Mario escreve: “Somos ossos de vidro/Somos almas de aço//Tantas vezes batidos/Tantas vezes quebrados/Tantas vezes caídos/Tantas vezes pisados//Mas sempre reerguidos/Mas sempre levantados//Nós nunca desistimos/Nós nunca não sorrimos//Somos ossos de vidro/Somos almas de aço”.
Mario teve no INSS o seu primeiro emprego: ingressou em 2014 e hoje trabalha com ofícios judiciais, implantação de descontos decorrentes de penhoras determinadas pela Justiça e emissão de autorizações de pagamento. Ao recordar sua chegada, o que sobressai é a recepção dos colegas, com disposição para ensinar e as amizades construídas no INSS.
Por trás do servidor, do escritor e do leitor há ainda uma história familiar que Mario faz questão de reconhecer. “A minha família me trouxe até aqui com muito esforço e sacrifício. Tenho uma grande dívida com todos eles, principalmente com os meus pais”, afirma.
Samirian: entre estudos e esportes
Em setembro de 2009, Samirian Grimberg seguia de motocicleta para o trabalho, em São Carlos, quando foi atingida por uma caminhonete. A perna esquerda sofreu múltiplas fraturas. Foram seis cirurgias ao longo de um ano e meio, além de duas operações corretivas posteriormente e da amputação da perna.
Quinze dias antes do acidente, Samirian havia defendido o mestrado em Antropologia Social e aguardava a nomeação do concurso do INSS. “Tinha 35 anos de idade, estava no auge da carreira profissional, construindo muitas coisas naquela época. Aí, acontece o acidente”, relembra.
Durante a recuperação, tomou posse como analista do Seguro Social com formação em Terapia Ocupacional. Algum tempo depois, uma imagem na televisão apontaria mais um caminho: a paraciclista norte-americana Allison Jones pedalando com uma perna. Samirian pensou: “Se ela consegue, eu também consigo”.
Vieram a bicicleta adaptada, os treinamentos e as competições. Em 2012, Samirian entrou para a história da modalidade. “Ali foi o pontapé de meu pioneirismo: me tornei a primeira mulher do País a competir pedalando com uma única perna”, recorda. Depois disso, conquistou títulos nacionais e chegou aos Jogos Parapan-Americanos de Lima, em 2019. A última competição de Samirian foi em março de 2022, em Ribeirão Preto. Hoje, ela pedala somente para cuidar da própria saúde.
O fim das competições abriu espaço para outros percursos. Samirian concluiu, entre 2018 e 2022, sua segunda graduação, em Comunicação Social com ênfase em Publicidade e Propaganda, e passou a atuar na inovação pública. Participou do LabPrev, laboratório de inovação do INSS, entre 2023 e 2024, além de realizar cursos na Escola Nacional de Administração Pública (Enap) e se aproximar de redes dedicadas ao tema.
Em 2023, iniciou o doutorado na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Samirian foi aprovada em terceiro lugar, em um processo com nove vagas, e ingressou no Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade, na linha de pesquisa Gestão Tecnológica e Sociedade Sustentável. Seu objeto de estudo é a Transformação Digital do INSS na perspectiva interseccional de gênero.
Profissionalmente, sua atuação também se diversificou. Hoje divide a jornada: metade vinculada à parceria da agência São Carlos com a de Itápolis e região, e metade junto à Coordenação de Segurança da Informação e Inovação (Coseg), da Diretoria de Governança e Inovação (Digov).
Texto: André Kameda (ACS/SP)
Fotos: Arquivo pessoal



