
Prevenção, mitigação e transferência de risco compõem a estratégia de enfrentamento dos desafios trazidos pela chegada do El Niño ao território brasileiro. É um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento acima da média das águas do Oceano Pacífico Tropical, provocando modificações na circulação atmosférica.
Os efeitos do El Niño variam por região, afetando, de forma diferente, culturas, pastagens e áreas agrícolas. Cada região apresenta vulnerabilidades distintas: o Sul, grande produtor de grãos, terá excesso de chuva; o Centro-Sul flerta com seca moderada e temperaturas elevadas; o norte do Sudeste enfrenta risco de seca; e no Nordeste e Norte (Amazônia) agrava o risco de secas.
Para enfrentar esse cenário diverso, o Ministério da Agricultura e Pecuária mantém um grupo de trabalho ativo, reunindo diferentes áreas para acompanhar a evolução do fenômeno e construir medidas de prevenção, preparação e mitigação dos possíveis impactos no campo. Esse trabalho faz parte de uma ação federal integrada. Coordenada pela Casa Civil, uma força-tarefa reúne diferentes ministérios para planejar respostas e garantir que as decisões necessárias sejam tomadas antes que os problemas se agravem. É o governo se preparando hoje para enfrentar os desafios de amanhã.
Antecipar os riscos é proteger quem produz. Fortalecer uma gestão integrada dos riscos climáticos, combinando prevenção, boas práticas de manejo, assistência técnica e instrumentos de proteção ao produtor, como o seguro rural está no foco do trabalho do Mapa para apoiar o produtor rural. E, neste trabalho, a informação climática precisa estar no centro da tomada de decisão. Aqui você encontra as principais orientações técnicas e de gestão de risco, além de tecnologias adequadas para reduzir impactos do fenômeno climático na produção agropecuária e ampliar a proteção ao produtor rural.
Monitoramento e Ações – El Niño e Agropecuária
1.1 Composição
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) instituiu o Grupo de Trabalho El Niño por meio da portaria nº 928 publicada no Diário Oficial da União em 1º de julho de 2026 (assinada durante o lançamento do Plano Safra 2026/27). O grupo é composto por:
- Representantes da Secretaria-Executiva do Mapa
- Secretaria de Política Agrícola (SPA)
- Secretaria de Comércio e Relações Internacionais
- Secretaria de Desenvolvimento Rural
- Secretaria de Defesa Agropecuária
- Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
- Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet)
A coordenação ficou sob a responsabilidade do primeiro representante titular da Secretária de Desenvolvimento Rural (SDR). O GT, de caráter temporário, com prazo de 60 dias contados da data da designação dos membros, já finalizou seu trabalho e apresentou o relatório final em 24 de setembro de 2026 ao ministro André de Paula.
1.2 Atribuições do GT El Niño
- Identificar as regiões e cadeias produtivas mais vulneráveis aos efeitos do fenômeno, com destaque para culturas como soja, milho, trigo, feijão, cana-de-açúcar, café e mandioca;
- Propor medidas de mitigação e adaptação;
- Elaborar subsídios técnicos e institucionais para apoiar ações de enfrentamento dos impactos climáticos sobre a produção agropecuária;
- Apresentar um relatório final, com um diagnóstico e um plano de trabalho com o cronograma de ações e os impactos na agropecuária brasileira a fim de minimizar os efeitos do fenômeno climático;
- Apoiar a Sala de Situação do El Niño, coordenada pela Casa Civil.
- PORTARIA MAPA Nº 928, DE 30 DE JUNHO DE 2026. Institui o Grupo de Trabalho El Niño
- PORTARIA MAPA Nº 933, DE 7 DE JULHO DE 2026
- Relatório Final - Grupo de Trabalho El Niño
2.1 Como funciona
A Sala de Situação do El Niño é coordenada pela Casa Civil da Presidência da República e reúne 24 ministérios e órgãos federais responsáveis pelo acompanhamento das condições climáticas, gestão de riscos, proteção e defesa civil, segurança hídrica, saúde, abastecimento, energia e prevenção de incêndios.
Diversos órgãos mantêm Salas de Situação e Salas de Crise para monitoramento contínuo, com reuniões periódicas e emissão de alertas. A Defesa Civil Nacional mantém briefing diário e orienta estados e municípios sobre medidas de autoproteção.
Um exemplo desse monitoramento é o Painel El Niño 2026-2027, resultado de ação conjunta entre:
- Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet)
- Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)
- Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
- Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden)
- Serviço Geológico do Brasil (SGB)
- Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec)
- Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam)
Mensalmente, o conteúdo do Painel é atualizado para disponibilizar informações acerca do fenômeno e apoiar órgãos federais e estaduais na tomada de decisões. O GT Mapa–Inmet–Embrapa apoia tecnicamente a Sala de Situação com diagnósticos de vulnerabilidade regional e setorial.
3.1 Estratégia geral
A estratégia de enfrentamento combina três eixos: (1) prevenção (escape e diluição de risco); (2) mitigação operacional; e (3) transferência de risco. A orientação é que o produtor siga o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) vigente, faça o planejamento de insumos e da safra, conforme as previsões do El Niño, contrate seguro agrícola (Proagro/PSR) e adote práticas sustentáveis de manejo.
3.2 Orientações por região
Sul (RS, SC, PR) – excesso de chuvas
- Respeitar o ZARC; escalonar semeadura; selecionar cultivares resistentes a doenças e tolerantes à germinação pré-colheita.
- Formar cobertura de solo; reforçar drenagem e terraços; intensificar monitoramento fitossanitário.
- No arroz irrigado: usar PlanejArroz; sincronizar fase reprodutiva com períodos de maior radiação.
- Na pecuária: drenagem de piquetes; elevação de cochos; monitoramento sanitário; proteção de silagem.
- Planejar logística de colheita e secagem com antecedência; monitorar micotoxinas.
Norte e Nordeste – estiagem e risco de incêndios
- Reserva estratégica de forragem e água; redução de lotação; manipulação da Caatinga (NE).
- Barragens subterrâneas, cisternas e barraginhas; SAFs e ILPF.
- Prevenção de incêndios: aceiros, brigadas, monitoramento por satélite; restringir uso de fogo.
- Manejo de mínimo impacto em açaizais (≈400 touceiras/ha).
Centro-Oeste – gestão de janela e estresse térmico
- Planejar a safrinha com base no ZARC e previsões Inmet/CPTEC.
- Cobertura de solo e plantio direto; recuperação de pastagens (RenovAgro); ILPF para conforto térmico.
- Aproveitar o tempo seco para colheita de milho 2ª safra, algodão e sorgo.
Sudeste – padrão variável
- Atenção a café e cana (estresse térmico/hídrico); irrigação de salvamento, quando viável.
- Na pecuária: sombra, água, ventilação, suplementação; ILPF/silvipastoril.
- Monitorar previsões de curto prazo; contratar seguro com cláusulas de seca e excesso de chuva.
3.3 Checklist resumido
- Consultar Zarc e app Plantio Certo.
- Verificar previsões ENOS (NOAA/CPC, Inmet) e boletins Embrapa.
- Contratar ou renovar seguro rural (PSR) ou Proagro.
- Planejar insumos com rendimento realista para ano de El Niño.
- Adotar práticas conservacionistas adequadas ao padrão regional.
- Manter CAR regularizado.
É o principal instrumento de política agrícola de gestão de riscos climáticos do Mapa, regido pelo Decreto nº 9.841/2019. Identifica, para cada município, cultura, tipo de solo e ciclo de cultivar, as janelas de semeadura/plantio com menor probabilidade de perdas por eventos adversos (seca, excesso de chuva, geada, temperaturas extremas).
Os estudos utilizam séries históricas diárias de precipitação e temperatura (mínimo de 30 anos), contemplando os impactos observados em anos de ocorrência do El Niño e da La Niña. O cumprimento do ZARC é condição para acesso a crédito oficial, Proagro e Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). O Brasil conta com essa ferramenta para mais de 50 culturas, com recomendação para todos os municípios.
O agricultor tem acesso a recomendações em três níveis de risco: 20%, 30% e 40%. Não há recomendação de plantio quando o risco é maior. As orientações podem ser consultadas pelo aplicativo Zarc Plantio Certo (iOS e Android) ou pelo site plantiocerto.cnptia.embrapa.br.
4.1 ZARC Manejo
O Zarc Manejo (Instrução Normativa nº 2/2025) classifica áreas de produção em quatro níveis de manejo (NM1 a NM4) com base em indicadores de qualidade do solo e do sistema produtivo (teor de cálcio, saturação por bases, tempo sem revolvimento, cobertura com palhada, diversidade de cultivos em rotação etc.). Áreas com melhores práticas (NM3 e NM4) recebem percentuais adicionais de subvenção no PSR, incentivando resiliência e sustentabilidade. A aplicação inicial é na soja, em áreas-piloto no Paraná, com expansão prevista.
O Plano Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (ABC+) é a principal política pública brasileira de mitigação climática no setor agropecuário e uma referência mundial. Com 16 anos de trajetória, o plano tem como meta para o período 2020–2030:
- Redução de 1,1 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente.
- Recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas.
- Expansão de 5 milhões de hectares de sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF).
As tecnologias do ABC+ (plantio direto, recuperação de pastagens, ILPF, florestas plantadas, tratamento de dejetos, bioinsumos, fixação biológica de nitrogênio etc.) aumentam a resiliência dos sistemas produtivos exatamente aos extremos climáticos associados ao El Niño e à La Niña, ao mesmo tempo em que reduzem emissões e aumentam o sequestro de carbono.
O programa Caminho Verde reforça a agenda de restauração de paisagens e adaptação climática. A meta é recuperar 40 milhões de hectares em 10 anos, sem abertura de novas áreas. Na primeira fase, por meio de leilões do Eco Invest, a previsão é de captação de R$ 30 bilhões. O programa complementa o ABC+ ao ampliar a restauração de pastagens e a adoção de sistemas integrados (ILPF/SAFs), fortalecendo a resiliência da agropecuária diante de extremos climáticos como o El Niño.
O Plano Safra 2026/2027 disponibiliza R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial e cerca de R$ 97 bilhões para a agricultura familiar (Pronaf), totalizando volume superior a R$ 610 bilhões. As taxas de juros foram reduzidas em relação ao ciclo anterior na maioria das linhas.
Principais linhas utilizáveis no contexto de El Niño:
| Linha | Finalidade | Relevância p/ El Niño |
|---|---|---|
| Custeio / Pronamp / Pronaf | Insumos e custeio da safra | Manutenção da atividade sob adversidade |
| RenovAgro | Recuperação de pastagens e práticas ambientais (a partir de 8,5%) | Resiliência de pastagens e solo |
| Proirriga | Irrigação e uso eficiente da água | Essencial em áreas de estiagem |
| PCA | Armazenagem | Proteção de grãos e redução de perdas |
| Inovagro | Inovação, sensores, climatização | Climatização de aviários/suiários |
| Proagro / PSR | Cobertura de perdas climáticas | Transferência de risco – instrumento essencial |
Observação: cumprimento do Zarc é condição para crédito oficial, Proagro e PSR. O BNDES oferta cerca de R$ 72 bilhões no âmbito do Plano Safra.
A Embrapa disponibiliza um conjunto de soluções tecnológicas que aumentam a resiliência dos sistemas produtivos diante do El Niño:
- Plantio direto: mantém cobertura permanente do solo, reduz erosão e melhora estrutura e retenção de água.
- Recuperação de pastagens degradadas: tecnologias de correção, adubação e manejo que restauram produtividade forrageira (financiável via RenovAgro).
- Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN): reduz dependência de fertilizantes nitrogenados e custos em leguminosas.
- Sistemas Agroflorestais (SAF) e ILPF: diversificam renda, perenizam cobertura do solo, otimizam balanço hídrico e diluem risco econômico.
- Barraginhas: bacias de retenção em estradas e áreas de contribuição; controlam enxurradas e recarregam o lençol freático.
- Barragem subterrânea (semiárido): lona plástica no solo que retém umidade da chuva.
- Manipulação da Caatinga para fins pastoris: controle seletivo de arbustos para aumentar disponibilidade e qualidade da forragem nativa.
- Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC): orienta épocas de plantio e reduz probabilidade de perdas.
- PlanejArroz: aplicativo para planejamento da safra de arroz irrigado, sincronizando manejo à oferta de radiação.
- Sistema de Alerta da Mosca-das-Frutas (Embrapa Clima Temperado e parceiros).
- Manejo de mínimo impacto em açaizais (≈400 touceiras/ha).
Portal de busca: embrapa.br/busca-de-solucoes-tecnologicas
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) executa a Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM) e a formação de estoques públicos reguladores.
9.1 Pacote de enfrentamento (anúncio Casa Civil – 29/07/2026)
O governo federal anunciou pacote de R$ 1,335 bilhão para enfrentamento dos efeitos do El Niño. Desse total:
- R$ 850 milhões destinam-se à compra, pela Conab, de 310 mil toneladas de arroz e 180 mil toneladas de milho para recomposição dos estoques públicos.
- Arroz: prioritariamente em razão do risco de perdas no Rio Grande do Sul (excesso de chuva).
- Milho: prioritariamente para o semiárido nordestino (risco de estiagem e demanda por ração animal).
- Foram anunciadas ainda 350 mil cestas a grupos vulneráveis (R$ 65 milhões), além de demais ações de segurança alimentar e saúde.
9.2 Perspectivas regional de oferta
Em cenários de El Niño, a colheita de milho segunda safra e de algodão nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste tende a ser favorecida pelo tempo mais seco, enquanto o Sul enfrenta riscos de perdas por excesso de umidade. O governo monitora preços e disponibilidade de itens da cesta básica e pode acionar mecanismos de liberação de estoques ou de compras públicas quando necessário.
A Conab opera Aquisição do Governo Federal (AGF), contratos de opção de venda, leilões e instrumentos de escoamento (VEP, vendas em balcão etc.) para estabilizar preços e garantir abastecimento. Anteriormente, em maio/2026, já havia sido liberado crédito suplementar de R$ 54,3 milhões para compra antecipada de milho.
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Propostas foram elaboradas no âmbito do GT do EL Nino com a participação do Inmet