Como trabalhar a saúde financeira dos empreendedores de forma mais holística e sustentável
Como trabalhar a saúde financeira dos empreendedores de forma mais holística e sustentável
Por Larisse Micuci e Rodrigo de Marco Pinheiro Sêga*
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde como sendo um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas como a ausência de doença ou enfermidade. Se a saúde vai muito além da ausência de doença, por que ainda tratamos a saúde financeira meramente como uma questão de dinheiro em caixa e maximização de resultados?
Na definição da OMS, a essência da saúde é o bem-estar. No âmbito das finanças pessoais, já estamos ouvindo no Brasil, ainda que de forma tímida, o conceito de Bem-Estar Financeiro, termo cunhado pelo CFPB (órgão norte-americano de proteção ao consumidor), que é definido como “um estado de estar no qual uma pessoa pode cumprir plenamente as suas obrigações financeiras atuais e contínuas, pode se sentir segura em relação ao seu futuro financeiro, e é capaz de fazer escolhas que lhe permitam aproveitar a vida”.
Para aprofundar essa discussão, podemos recorrer à Teoria do Bem-Estar Subjetivo, que sugere que o bem-estar é composto por uma avaliação cognitiva da vida (satisfação com a vida) e uma avaliação afetiva (presença de emoções positivas e ausência de emoções negativas). Estudos recentes, como o de Buecker et al. (2023), demonstram que o bem-estar subjetivo se desenvolve ao longo da vida, com variações significativas em diferentes etapas. Este enfoque holístico pode ajudar a mitigar sentimentos negativos associados ao dinheiro, como ansiedade e depressão, e promover um bem-estar geral mais robusto.
Essa perspectiva sobre a percepção do indivíduo quanto à sua situação financeira ainda não é amplamente aplicada ao mundo dos negócios. Em um mundo BANI - frágil, ansioso, não-linear e incompreensível - onde casos de estresse relacionado ao trabalho (burnout) crescem exponencialmente, é imperativo considerar os empreendedores que sentem o peso de ter seus negócios e suas famílias impactados pelas suas decisões.
No Brasil, cerca de 30 milhões de pessoas estão à frente do seu próprio empreendimento, sendo a principal fonte de renda de suas famílias. Grande parte ainda trabalha na informalidade e vê no empreendedorismo a única saída para a falta de oportunidades no mercado.
Os donos desses micros e pequenos negócios querem sobreviver e ter uma imagem positiva perante sua família e sua comunidade. Separar o negócio da vida pessoal é um dos grandes desafios desses empreendedores - empreender costuma ser uma experiência compartilhada com pais, irmãos, cônjuges e filhos.
Nesse contexto, a gestão financeira é sabidamente um dos maiores problemas dos micro e pequenos negócios. Os próprios empreendedores reconhecem isso quando questionados em inúmeras pesquisas sobre o tema. A falta de gestão financeira é um dos principais fatores de mortalidade dos micro e pequenos negócios.
Gestão financeira, porém, remete a controle, processos, planejamento, rigidez, a fazer sacrifícios para ganhar dinheiro e não gastar. Para quem está preocupado com a sobrevivência, a felicidade da sua família e em fazer seu dia a dia acontecer, não há tempo ou espaço mental para gastar com isso.
É como se a gestão fosse uma possibilidade apenas para empresas maiores, para empresários. E os donos de micro e pequenos negócios brasileiros não se enxergam, e talvez nem queiram se enxergar, como empresários.
Parece já existir um estigma com essa nomenclatura. As diversas crises e escândalos de corrupção, que envolvem não só o governo, mas também grandes empresas do país, somadas à falta de transparência e ao prejuízo que acaba recaindo sobre a população, convergem na criação de um inconsciente coletivo acerca de um caráter duvidoso por parte dos empresários.
O termo empreendedor, por sua vez, carrega a força da inovação, do espírito de luta e sobrevivência, de fazer a diferença. É como se fossem dois seres que não podem coexistir num mesmo corpo.
E está feito um tabu: num mundo onde o sucesso é medido pelo dinheiro e tem no empresário a figura de quem chegou lá, afinal ele acumulou riquezas e possui grande fortuna, fica a percepção de que só faz isso quem se corrompe ou se “vendeu”. O empreendedor fica então, sem perceber, fadado a trabalhar para existir, uma vez que qualquer resultado para além disso pode fazer dele mal visto pela sua comunidade e até pela sua família.
Essa é a percepção de realidade que permeia o mundo dos negócios brasileiros, alimentando e influenciando crenças, personalidades e perfis dos empreendedores e empresários, baseando comportamentos e ações. Essa dinâmica cria uma espécie de “Fobia Financeira”, onde o dinheiro traz sentimentos negativos como ansiedade, depressão, culpa e tédio.
Para quebrar esse paradigma, é necessário mudar o foco da gestão financeira. Sua meta não pode ser apenas o sucesso financeiro, tal como discutido até aqui. Deve ser acompanhada pela percepção e satisfação de outros elementos importantes, como:
● Como o empreendedor se sente e se enxerga;
● Como ele se percebe visto pela sua família e comunidade;
● Quais as emoções envolvidas;
● Se existe a sensação de segurança e liberdade financeira.
Podemos e devemos olhar para a saúde financeira como a união do sucesso e do bem-estar financeiro, assim como na definição de saúde da OMS, e colocá-la como ponto central na vida do micro e pequeno empreendedor. Isso implica apoiar o empreendedor na construção de uma gestão e relacionamento mais eficaz com o dinheiro – tanto o pessoal quanto o da empresa.
Aplicando a Teoria do Bem-Estar Subjetivo ao contexto dos empreendedores, a saúde financeira não deve ser vista apenas como a ausência de problemas financeiros, mas como a presença de uma gestão financeira que promove a satisfação e emoções positivas.
Além disso, a Teoria do Capital Psicológico (Luthans, Youssef & Avolio, 2007) pode ser utilizada para entender como os recursos psicológicos, como esperança, autoeficácia, resiliência e otimismo, influenciam a saúde financeira dos empreendedores. Esses recursos podem ser desenvolvidos e fortalecidos através de intervenções específicas, contribuindo para uma gestão financeira mais eficaz e um bem-estar geral melhorado.
Por fim, é essencial considerar a implementação de programas de educação financeira que não apenas ensinem técnicas de gestão financeira, mas também abordem aspectos emocionais e psicológicos relacionados ao dinheiro. Estudos mostram que a educação financeira pode melhorar significativamente a saúde financeira e o bem-estar dos indivíduos (Lusardi & Mitchell, 2014). Portanto, programas de educação financeira adaptados às necessidades dos micros e pequenos empreendedores podem ser uma ferramenta poderosa para promover uma saúde financeira sustentável e holística.
Referências:
Buecker, S., Luhmann, M., Haehner, P., Bühler, J. L., Dapp, L. C., Luciano, E. C., & Orth, U. (2023). The development of subjective well-being across the life span: A meta-analytic review of longitudinal studies. Psychological Bulletin, 149(7-8), 418–446
Luthans, F., Youssef, C. M., & Avolio, B. J. (2007). Psychological capital: Developing the human competitive edge. Oxford University Press.
Lusardi, A., & Mitchell, O. S. (2014). The economic importance of financial literacy: Theory and evidence. Journal of Economic Literature, 52(1), 5-44