Mulher em situação de violência doméstica, depois de 10 anos fora do mercado, começa a reconstrução de sua autonomia a partir de trabalho terceirizado no IPHAN.
Depoimento de A.G., 46 anos, mulher contratada há um ano por meio da política de cotas, atuando no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). AG autorizou a divulgação desse depoimento, mantendo seu anonimato.
O relato mostra como a oportunidade de trabalho, aliada ao acolhimento institucional, tem contribuído para o processo de reconstrução da autonomia após uma trajetória marcada por violência doméstica e longa exclusão do mercado de trabalho.
Antes da contratação, o cenário era de ausência total de perspectivas. “Eu vinha de 10 anos sem conseguir um trabalho”, relata. Nesse período, diz que “não via luz no fim do túnel, saída para aquela situação onde eu estava vivendo”.
Quando foi chamada para a vaga, chegou carregando sentimentos ambíguos. “Eu cheguei aqui com muita esperança, mas com muito medo, porque eu não sabia o que tinha na frente e eu não sabia nem o que era o IPHAN de fato.” O acolhimento inicial foi determinante para que o medo não se transformasse em desistência. “As meninas me trataram muito bem. Eu nunca tive um tratamento tão bom, tão especial.”
O retorno ao mercado de trabalho depois de uma década afastada trouxe insegurança. “Eu não sabia se eu ia dar conta, porque era tudo muito novo para mim. Imagina você ficar 10 anos fora do mercado de trabalho”, conta.
Segundo ela, a diferença esteve na forma como o aprendizado foi conduzido no dia a dia, com tempo, paciência e disponibilidade da equipe para ensinar. “Eu aprendi muito e eu venho aprendendo muito, cada vez mais com cada um deles”, afirma.
Mesmo reconhecendo seus limites, destaca o compromisso com as atividades assumidas: “Eu ainda tenho as minhas limitações, mas tudo que eu me propus a fazer, eu aprendi e eu fiz e eu entreguei.”
Outro fator decisivo para sua permanência foi a segurança institucional para cuidar da própria saúde sem medo de perder o emprego. Acostumada a experiências anteriores marcadas por demissões e falta de escuta, ela relata que ouviu no IPHAN algo inédito em sua trajetória profissional: “não, senhora, a sua saúde é em primeiro lugar… você não vai ser mandada embora. Não se preocupa com isso.”
Com o passar dos meses, o ambiente de trabalho deixou de ser apenas um local de cumprimento de jornada e se transformou em espaço de pertencimento. “Aqui eu fiz grandes amigos. Aqui eu fiz desde a brigada, ao pessoal da segurança, ao pessoal da portaria. Eu me sinto assim aqui no meu lugar.” O trabalho passou a ter também um papel de sustentação emocional. “Aqui é o meu refúgio, aqui é meu ponto de luz, aqui é onde eu tenho paz.”
Ao falar sobre o vínculo com o órgão, ela não esconde o desejo de permanecer. Afirma que, se puder, pretende cumprir todo o período do contrato e diz que ficaria por muito mais tempo. O desejo de continuar no IPHAN aparece como sinal de pertencimento e de segurança em um momento em que sua vida pessoal ainda passa por reorganizações profundas.
Hoje, ela faz questão de destacar o impacto da experiência em sua vida. “Hoje eu sou muito grata ao IPHAN… o tanto que tem sido diferente na minha vida.” Ao falar sobre o futuro, evita conclusões definitivas e reforça que a autonomia é um processo em construção. “Eu acredito que eu vou conseguir recuperar a minha autonomia, sim.” afirma.