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O papel do trabalho na trajetória de uma mulher trans
Mulher trans contratada pela cota do Decreto 11.430/23 destaca acolhimento, respeito à identidade e mudanças concretas após um ano de trabalho formal
Depoimento de C.B., mulher contratada há um ano por meio da Política de Cotas. C.B. autorizou a divulgação desse depoimento, mantendo seu anonimato.
Depois de uma trajetória marcada por discriminação, instabilidade no mercado de trabalho e o luto pela perda da mãe, uma mulher trans contratada por meio da Política de Cotas para Mulheres em Situação de Violência Doméstica nas Contratações Públicas (Decreto Nº 11.430/23) relata como o acesso ao trabalho formal foi decisivo para reorganizar a própria vida.
Ao falar sobre o momento atual, ela afirma: “Hoje eu posso falar que eu tenho autonomia.” A possibilidade de trabalhar em um ambiente respeitoso e seguro permitiu, segundo ela, dar passos concretos rumo à estabilidade financeira e emocional. “Eu consigo me manter, pagar minhas contas.”
Uma trajetória atravessada por luto e exclusão
O período anterior à contratação foi marcado por sucessivas rupturas profissionais. A situação se agravou em 2024, com a morte da mãe, figura central de apoio em sua vida.
“Minha mãe faleceu em 2024 e me mandaram embora.”
“Eu fiquei toda desorientada da vida, não sabia o que fazer.”
Após o luto, vieram o desemprego e o sofrimento emocional. A dificuldade de se recolocar profissionalmente se somou a experiências reiteradas de discriminação no ambiente de trabalho.
Violência cotidiana no mercado de trabalho
Ao relatar o histórico em outros empregos, a trabalhadora descreve um contexto de medo e sofrimento constante.
“É muito doído ser uma pessoa trans no mercado de trabalho.”
“Eu acordava cedo já cansada, já com medo.”
“Me chamavam pelo nome de registro, soltavam piadinha.”
“Eu chorava, ia para o banheiro, não sabia mais o que fazer.”
Ela conta que o receio de perder o emprego impedia qualquer reação ou denúncia.
“Eu sofria muita violência e não podia denunciar, porque senão eu perdia meu emprego.”
Entre os episódios narrados, estão situações explícitas de constrangimento.
“Teve uma reunião que um companheiro falou que eu não devia usar o banheiro feminino.”
A chegada pela Política de Cotas
A inscrição no banco de currículos ocorreu por meio da Secretaria da Mulher do Distrito Federal. No entanto, a trabalhadora conta que não sabia, inicialmente, que se tratava de uma política de cotas ou que havia vagas específicas voltadas para mulheres trans.
“Eu não sabia que era para cota, nem sabia que as empresas estavam trabalhando nesse formato de cotas para mulheres trans.”
Ao ser chamada para o processo seletivo, a surpresa veio acompanhada de emoção.
“Você está sendo a primeira trans da empresa e nós temos orgulho de contratar você.”
“Eu fiquei muito emocionada porque eu não sabia nem o que falar.”
Acolhimento que rompe com a violência
Desde o primeiro contato, a trabalhadora afirma ter vivido uma experiência completamente diferente das anteriores.
“Aqui eu não passo por isso.”
“Aqui ninguém fica questionando quem eu sou.”
“Aqui eu posso trabalhar em paz.”
No cotidiano, ela destaca que o critério central passou a ser a atuação profissional.
“O que importa aqui é o meu profissionalismo.”
“Eu entro bem e eu saio bem.”
Ao falar sobre o setor onde atua, utiliza uma metáfora que expressa como se sente no ambiente de trabalho.
“Aqui não é nem um coração, é uma mãe.”
Autonomia e transformação concreta
Após um ano de vínculo formal, a entrevistada relata uma mudança profunda em sua vida cotidiana, especialmente no campo da autonomia econômica.
“Nunca ganhei um salário igual eu ganho hoje.”
O trabalho possibilitou reorganizar a vida financeira, quitar dívidas deixadas pela mãe e apoiar familiares em situação de vulnerabilidade. O impacto, no entanto, vai além da renda.
“Esse é o meu primeiro emprego de carteira assinada com o meu nome.”
Ao resumir o significado da experiência, ela afirma:
“Esse trabalho mudou toda a minha vida.”
Trabalho e rede de cuidados
O relato também evidencia que o trabalho é fundamental, mas não atua sozinho. A trabalhadora possui acompanhamento psicológico por meio do ambulatório trans do Distrito Federal e reconhece a importância da rede de apoio para sua estabilidade emocional e permanência no emprego.
Perspectivas de futuro
Com maior estabilidade, a trabalhadora passou a planejar novos caminhos. Ela relata o desejo de continuar se qualificando e retomar a vida acadêmica.
“Eu tô fazendo mais curso para poder aprimorar mais.”
“Eu penso em progredir.”
“eu vou ver se eu consigo agora no segundo semestre fazer a outra faculdade que eu quero fazer geografia”
Ela também expressa forte sentimento de pertencimento ao local de trabalho.
“Aqui, para mim, é perfeito.”
Glossário
Disforia de gênero: sofrimento ou desconforto que algumas pessoas trans podem sentir em relação à forma como são percebidas socialmente.
Nome social: nome pelo qual a pessoa deseja ser chamada e reconhecida de acordo com sua identidade de gênero.
Transfobia: discriminação, preconceito ou violência direcionada a pessoas trans.