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LIBERDADE DE IMPRENSA E CONFIANÇA DEMOCRÁTICA NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
O Dia Nacional da Liberdade de Imprensa, celebrado em 7 de junho, oferece uma oportunidade para refletirmos sobre uma das garantias mais relevantes do Estado Democrático de Direito. Em uma sociedade cada vez mais conectada e impactada pelos avanços da inteligência artificial, a liberdade de imprensa permanece essencial para a proteção da democracia, da participação cidadã e da circulação de informações de interesse público.
A democracia se sustenta em eleições livres e periódicas, instituições independentes e na efetiva garantia dos direitos fundamentais. Sua estabilidade, contudo, depende de um elemento menos visível: a confiança democrática. Mais do que um regime político, a democracia constitui um pacto coletivo de convivência e participação, cuja legitimidade está diretamente relacionada à percepção de que o Estado é capaz de proteger direitos, representar a pluralidade da sociedade e atuar em favor do interesse público.
Como observam autores como Norberto Bobbio[1] e Luigi Ferrajoli[2], a força das democracias não depende apenas da existência formal de direitos e instituições, mas da sua capacidade de produzir resultados concretos e responder às demandas sociais. Quando essa confiança se enfraquece, aumentam a fragmentação social, a polarização e a dificuldade de construir consensos mínimos.
No contexto brasileiro, Jessé Souza chama atenção para uma desigualdade que ultrapassa a dimensão econômica e se reproduz também nos planos social, cultural e simbólico. O resultado é a formação de grupos que, embora formalmente titulares de direitos, encontram dificuldades para exercê-los plenamente – fenômeno que o autor denomina “subcidadania”[3]. Quando parcelas da população não se sentem representadas ou percebem que seus direitos permanecem apenas no plano formal, enfraquecem-se os vínculos que sustentam o compromisso coletivo com a democracia.
É nesse cenário que a liberdade de imprensa assume papel central. Mais do que proteger jornalistas e empresas de comunicação, ela assegura à sociedade o acesso a informações confiáveis e de interesse público.
No ambiente digital, essa função tornou-se ainda mais relevante. A inteligência artificial e as plataformas digitais ampliaram o acesso à informação e democratizaram a produção de conteúdo. Ao mesmo tempo, reduziram significativamente os custos de criação e disseminação de conteúdos enganosos.
A preocupação com esses fenômenos não é apenas teórica. Organismos internacionais vêm alertando para os riscos que a desinformação e o uso abusivo de tecnologias digitais representam para os direitos humanos e para os processos democráticos.
Em 2024, as Nações Unidas divulgaram princípios globais voltados à promoção da integridade da informação, destacando os impactos da disseminação de conteúdos falsos ou manipulados sobre a confiança pública e sobre a qualidade do debate democrático.[4]
Na mesma direção, a UNESCO tem defendido a transparência algorítmica, a responsabilização das plataformas digitais e a proteção do jornalismo profissional como elementos essenciais para a preservação de ambientes informacionais confiáveis
A discussão ganha relevância adicional diante do crescimento das ameaças à atividade jornalística em diversas partes do mundo. Relatórios internacionais recentes apontam a deterioração das condições para o exercício da imprensa, marcada por pressões econômicas, intimidações, assédio digital e tentativas de deslegitimação do trabalho jornalístico.[5]
Como observa Yuval Noah Harari, as sociedades sempre dependeram de redes de informação para organizar formas complexas de cooperação social. A novidade do nosso tempo está na capacidade da inteligência artificial de produzir, direcionar e disseminar narrativas em escala sem precedentes. A tecnologia não cria a crise de confiança, mas amplia tensões já existentes e influencia a forma como a realidade é percebida[6].
Nesse contexto, ganha destaque o conceito de integridade informacional: a existência de um ambiente em que informações verificáveis e produzidas de forma responsável possam circular amplamente.
A defesa da liberdade de imprensa deve caminhar ao lado da discussão sobre a governança democrática das novas tecnologias. O desafio contemporâneo não é escolher entre inovação e direitos, mas construir arranjos institucionais capazes de assegurar que o desenvolvimento da inteligência artificial ocorra de forma transparente, responsável e compatível com os valores democráticos.
Os desafios do século XXI exigem a atualização das ferramentas de proteção da democracia. Se, em outros momentos históricos, a principal preocupação era evitar a censura, hoje também é necessário enfrentar os riscos decorrentes da manipulação informacional e da opacidade algorítmica. Fortalecer a liberdade de imprensa, promover a integridade informacional e desenvolver formas democráticas de governança da inteligência artificial são objetivos complementares e indispensáveis para preservar a confiança pública e a própria democracia.
[1] BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1992.
[2] FERRAJOLI, Luigi. Direito e razão: teoria do garantismo penal. 10. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014.
[3] SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão a Bolsonaro. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2019.
[4] UNESCO. Guidelines for the Governance of Digital Platforms, 2023; Recommendation on the Ethics of Artificial Intelligence, 2021. Disponíveis em https://www.unesco.org/en/internet-trust/guidelines e em https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000380455. Acesso em 09/06/2026.
[5] Reporters Without Borders (RSF). World Press Freedom Index 2025. Disponível em https://rsf.org/en/rsf-world-press-freedom-index-2025-economic-fragility-leading-threat-press-freedom. Acesso em 09/06/2026.
[6] HARARI, Yuval Noah. Nexus: uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à inteligência artificial. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.