Prevenção e Controle do Cancro Europeu das Pomáceas.
CANCRO EUROPEU DAS POMÁCEAS (Neonectria ditissima)
O Cancro Europeu das Pomáceas, causado pelo fungo Neonectria ditissima, é uma das principais doenças que afetam a cultura da macieira. A doença atinge predominantemente as partes lenhosas da planta, como ramos jovens, galhos e o tronco principal. Em algumas situações, também pode afetar os frutos. Em casos mais severos, pode causar a morte da planta. As mudas possuem maior sensibilidade à praga.
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Nome científico: |
Neonectria ditissima |
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Nome comum: |
Cancro europeu das pomáceas |
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Grupo: |
Fungo |
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Família: |
Nectriaceae |
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Gênero: |
Neonectria |
Fatores Epidemiológicos da Praga
O ciclo da doença pode ser dividido em 5 etapas: infecção, colonização, reprodução, disseminação e sobrevivência. A infecção diz respeito aos primeiros momentos de contato do esporo com a planta e vai até o seu estabelecimento como parasita. A colonização é a etapa em que o patógeno consegue avançar no tecido vegetal e tornam-se visíveis os sintomas. Na fase de reprodução o patógeno produz novos esporos, que podem ser de um ou mais tipos dependendo da doença. A disseminação diz respeito a como os esporos são dispersos no ambiente e a sobrevivência refere-se ao que ocorre com o patógeno em condições climáticas adversas ou falta do hospedeiro².
A infecção do cancro europeu só pode ser bem estabelecida por meio de um ferimento. Os ferimentos podem ser causados pelo homem, por outras pragas e doenças, por eventos climáticos ou naturalmente.²
Após ocorrer uma infecção bem sucedida, se dá início o processo de colonização. De acordo com experimento realizado em condições de viveiro, os sintomas podem demorar de três meses até três anos para aparecerem.³
O período de incubação pode ser influenciado pelas condições climáticas e pela genética do hospedeiro. A doença é favorecida por condições de alta umidade e temperaturas amenas, especialmente entre 10 °C e 20 °C. Períodos chuvosos, presença de orvalho e baixa insolação prolongam o molhamento dos tecidos vegetais, criando um ambiente ideal para a germinação e infecção do patógeno. Essas condições são mais frequentes no outono e inverno, aumentando o risco de disseminação da doença, sobretudo em pomares com baixa ventilação ou após a realização de podas em períodos úmidos.
A dispersão do fungo Neonectria ditissima ocorre principalmente a curtas distâncias, dentro da própria planta, por meio de conídios. Já os ascósporos podem ser transportados pela chuva e pelo vento, permitindo que o patógeno alcance distâncias maiores. Além disso, ferramentas contaminadas podem contribuir para a disseminação do patógeno entre plantas. Outro importante meio de disseminação é o uso de material de propagação infectado, como mudas contaminadas, que podem introduzir a doença em novas áreas e pomares, reforçando a importância do uso de mudas certificadas e sadias. ²
Sintomas e danos
O primeiro sintoma do cancro é uma mancha marrom avermelhada em torno de uma cicatriz de folha, esporão ou ferimento de poda, ou ainda, como pequena depressão escura discreta em ramos jovens, geralmente no início da primavera. O cancro aumenta de tamanho e torna-se elíptico. O fungo penetra no câmbio, estabelecendo uma infecção perene na planta. Pode haver crescimento descontínuo do cancro pela morte de tecido na borda da lesão, dando origem a anéis concêntricos, parecido com um alvo. Algumas lesões podem apresentar inchaço em sua borda. ⁴
Os danos incluem a formação de cancros em ramos e tronco, que podem levar ao anelamento e à morte de partes da planta. A doença reduz o vigor e a produtividade, além de causar podridões em frutos, comprometendo sua qualidade comercial. Em casos mais severos, especialmente em mudas, pode resultar na morte da planta.

Medidas de Prevenção e Controle
Como medidas de prevenção, destacam-se o uso de mudas sadias na implantação de novos pomares, a realização de poda fitossanitária e a aplicação de fungicidas. O patógeno necessita de ferimentos na planta para se estabelecer, sendo fundamental atenção aos períodos do ano com maior ocorrência de lesões. Os principais pontos de entrada que devem ser protegidos com fungicidas são os ferimentos decorrentes da colheita, da queda de folhas e das podas.
A definição de estratégias de controle deve levar em consideração a tentativa de quebra do ciclo biológico do fungo. A principal medida de controle da doença é a remoção e queima das partes doentes. Em pomares novos, com menos de três anos, o aparecimento de sintomas no tronco da planta indica que a infecção ocorreu nas condições de viveiro e a planta deve ser eliminada. Antes da poda de manutenção, realizada no inverno, é recomendável fazer uma poda de remoção de cancros. Nesse período, os cancros são facilmente visualizados porque a copa está sem folhas. Outro período importante para se fazer o controle é na primavera, quando os ramos afetados tornam-se murchos e secos, contrastando com os ramos verdes e sadios. ⁴
Distribuição Geográfica
No Brasil, a N. ditissima ocorre no Paraná, Santa Catariana e Rio Grande do Sul, como demonstrado no mapa abaixo.

No mundo
O Cancro Europeu das Pomáceas ocorre em regiões produtoras de maçãs do mundo todo, como Europa, América do Norte, Chile, Austrália, Nova Zelândia, Japão e África do Sul (BERESFORD; KIM, 2011)⁵.
Situação Regulatória
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Instrução Normativa SDA/MAPA nº 38, de 1º de outubro de 2018, que estabelece a lista de Pragas Quarentenárias Presentes (PQP) para o Brasil.
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Portaria nº 319, de 26 de maio de 2021, instituiu o Programa Nacional de Prevenção e Controle do Cancro Europeu – PNCE. Este programa visa ao fortalecimento do sistema de produção agrícola de hospedeiros da praga, conforme lista oficial de Pragas Quarentenárias Presentes (PQP), estabelecendo os critérios e procedimentos para a contenção desta praga.
Notificação de Suspeitas
As suspeitas de ocorrência de pragas quarentenárias podem ser comunicadas diretamente às Superintendências Federais de Agricultura, presentes em todas as unidades da federação ou junto aos Órgãos Estaduais de Defesa Sanitária Vegetal.
Além disso o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), por meio da Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA), disponibilizou um canal exclusivo de notificação de suspeitas de ocorrência de pragas quarentenárias.
Referências Técnicas
¹ AMORIM, L.; PASCHOLATI, S. F. Ciclo das relações patógeno-hospedeiro. In: AMORIM, L.; REZENDE, J. A. M.; BERGAMIN FILHO, A. Manual de Fitopatologia: princípios e conceitos. 4. ed. São Paulo: Agronômica Ceres, 2011. v. 1. p. 59–100
² ALVES, S. A. M.; CZERMAINSKI, A. B. C. Controle do cancro europeu das pomáceas com base no novo ciclo Neonectria ditissima – macieira, nas condições do Brasil. Bento Gonçalves: Embrapa Uva e Vinho, 2015. (Comunicado Técnico, 178)
³ XU, X. M.; ROBINSON, J. D. Effects of fruit maturity and wetness on the infection of apple fruit by Neonectria galligena. Plant Pathology, v. 59, n. 3, p. 542–547, June 2010.
⁴ ALVES, S.A.M. Como identificar o Cancro europeu das pomáceas. Bento Gonçalves: Embrapa Uva e Vinho (Folder), 4p., 2014. https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/998753/como-identificar-o-cancro-europeu-das-pomaceas.
⁵ AMPONSAH, N. T.; WALTER, M.; BERESFORD, R. M.; SCHEPER, R. W. A. Seasonal wound presence and susceptibility to Neonectria ditissima infection in New Zealand apple trees. N.Z. Plant Prot. 68, 250–256. 2015.
EPPO (European and Mediterranean Plant Protection Organization). Neonectria ditissima. EPPO Global Database. Disponível em: https://gd.eppo.int