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PRF apoia projeto de educação no trânsito e obtenção de CNH para índios
Um projeto pioneiro da Polícia Rodoviária Federal em Primavera do Leste, município do Mato Grosso, distante 240 quilômetros da capital Cuiabá, promoveu uma série impactos marcantes na região. Durante um ano, 14 indígenas da etnia Xavante participaram de aulas em autoescolas que capacitaram o grupo a ser aprovado nos exames para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). A PRF Angélica Miranda, que acompanhou os primeiros passos projeto, afirma que a iniciativa, além de promover conhecimento sobre as regras de comportamento seguro no trânsito e, por consequência, beneficiar todos os usuários das rodovias, promoveu inclusão social e harmonia entre povos indígenas e a Polícia Rodoviária Federal.
Ao lado da PRF, estão a 40a Cinetran (órgão dos DETRANs nos municípios do interior dos estados), a Cooperativa Agropecuária Primaverense, a Prefeitura de Primavera do Leste, o Sindicato Rural do Município e as autoescolas Senna, Logos, Porshe e Fenix. Os novos motoristas habilitados vivem nas Terras indígenas Sangradouro e Volta Grande que margeiam mais de 60 quilômetros da BR 070 em Mato Grosso. A indicação dos indígenas que participaram do projeto foi feita pelos caciques.
Muitos acidentes envolvendo indígenas aconteciam porque eles não tinham conhecimento das normas de conduta no trânsito. Entre elas, questões como uso do cinto de segurança, significado das placas e até mesmo cuidados preventivos com o veículo. O índio Daniel Maratedewa Dzaywa, um dos beneficiados pelo projeto, acredita que os conhecimentos adquiridos ajudarão a diminuir o número de acidentes na BRs e que toda comunidade da região, independente se ser indígena ou não, terá mais segurança nas rodovias.
Na capacitação dos indígenas um dos principais desafios vencidos foi o idioma. A PRF Iara Santos lembra, entretanto, que essa era uma das dificuldades previstas, principalmente a interpretação de texto na hora das provas teóricas. A chefe da 40a Ciretran, Lenice Freitas Teixeira, contou que dentro deste contexto houve o cuidado de que os indígenas não ficassem desanimados e entendessem que, no caso de reprovação, poderiam fazer a prova novamente. Sendo assim, além das aulas teóricas e práticas nas autoescolas, os indígenas contaram com reforço promovido pela PRF no contraturno. Lenice revelou que, em média, cada Xanante precisou repetir o exame teórico cinco vezes até conseguir a aprovação.
Após a aprovação nos exames teórico e prático, a entrega das carteiras de habilitação, categoria B, foi realizada em uma solenidade no dia 24 de setembro de 2021, em Primavera do Leste. Nesta categoria os motoristas são habilitados para dirigir veículos com até oito lugares, como carros e caminhonetes. Durante o evento, o superintendente da PRF em Mato Grosso, Francisco Élcio Lucena, recebeu um cocar e foi realizada uma roda de cantos indígenas que contou com a participação dos representantes das instituições envolvidas no projeto. O superintendente avaliou que o presente foi uma demonstração de confiança. “Nós cortamos muitas aldeias indígenas, várias nações e é isso que nós queremos passar, uma relação de pacificação”, enfatizou.
De acordo com Lucena, no passado, a PRF deparava-se com indígenas dirigindo sem habilitação ou alcoolizados, muitas vezes em veículos com poucas condições para transitar. Esses fatores contribuíam para ocorrência de acidentes na região e aplicação de multas. A PRF começou a fazer o trabalho de conscientização de que eles poderiam mudar essa perspectiva. Além da preparação para receber a CNH, a PRF também ingressou nas aldeias e ministrou palestras de trânsito. “O índio realmente habilitado, conhece todos os seus diretos e deveres. Nós zeramos praticamente os acidentes graves aqui da região”, enfatizou o PRF.
Indígenas de outras aldeias já demonstraram interesse em participar desta iniciativa. Para a próxima edição, inclusive, o indígena Daniel Maratedewa Dzaywa sugeriu a inclusão de mulheres. O projeto foi apresentado à Funai que o encaminhou ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. A expectativa é que a iniciativa seja expandida para aldeias indígenas de outras regiões do país.