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Vestígios do passado, ciência para o futuro: os caminhos da paleontologia no Brasil
No mês em que se celebra a força das mulheres e se reconhece o trabalho dos profissionais que dedicam a vida a decifrar a história profunda do planeta, os paleontólogos, a Agência Nacional de Mineração (ANM) destaca uma trajetória que reúne ciência, preservação e serviço público.
A entrevistada é Márcia Polck, paleontóloga e especialista em recursos minerais da ANM, cuja atuação se tornou referência em diferentes frentes da paleontologia brasileira. Ao longo de sua carreira, Márcia esteve envolvida em pesquisas de impacto, desde a produção de metodologias para identificação de fósseis na Bacia do Araripe até a participação em descobertas inéditas no contexto do pré-sal brasileiro. Sua contribuição também se estende à preservação e valorização do patrimônio fossilífero nacional, com destaque para sua atuação no Parque Paleontológico de São José de Itaboraí.
Em um momento em que o país discute o fortalecimento da ciência, a proteção dos sítios paleontológicos e o incentivo à participação feminina nas áreas científicas, a experiência de Márcia ilumina desafios e oportunidades para o futuro da pesquisa no Brasil.
Ascom ANM - Estamos no mês da Paleontologia e também dedicado às mulheres. Como uma cientista e profissional da Agência Nacional de Mineração, quais desafios você enfrentou na sua trajetória e quais conquistas mais a orgulham?
Márcia - Os desafios foram muitos, mas prefiro focar nas conquistas. Entre elas posso citar as seguintes: Atuação na Bacia do Araripe (Nordeste do Brasil), com destaque para a publicação do “Guia de identificação dos peixes fósseis das Formações Crato e Santana da Bacia do Araripe”, livro que apresenta uma metodologia prática e acessível para a identificação da paleoictiofauna da região. O material consolidou-se como referência na área, contribuindo para o desenvolvimento de pesquisas científicas por estudantes e pesquisadores, apoiando a atuação de técnicos e especialistas da Agência Nacional de Mineração (ANM) nas atividades de fiscalização, bem como auxiliando profissionais de aeroportos nacionais na identificação de fósseis. A relevância do trabalho é ampliada pelo fato da Bacia do Araripe ser reconhecida internacionalmente pela preservação excepcional de fósseis do período Cretáceo e pelo fato da região abrigar o Geoparque Araripe, o primeiro das Américas reconhecido pela UNESCO, sendo um território protegido de reconhecida importância científica, ambiental, paisagística e cultural. (https://www.gov.br/anm/pt-br/centrais-de-conteudos/anm/documentos/estudo-diagnostico/guia_peixes_fosseis_formacoescrato_santanabaciaararipe/@@download/file).
Outra conquista foi a coordenação de pesquisa no pré-sal brasileiro, em parceria com a Petrobras e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que resultou na descoberta do primeiro vertebrado fóssil articulado encontrado nas camadas do pré-sal em âmbito mundial. O estudo culminou em publicação internacional, com a descrição de uma nova espécie de peixe fóssil, Ellima longipectoralis (Polck et al., 2019), datada entre aproximadamente 113 e 125 milhões de anos, proveniente das camadas do pré-sal da Bacia de Santos. DOI: 10.1016/j.jsames.2019.102318
Também tenho atuação no Parque Natural Municipal Paleontológico de São José de Itaboraí. Desde 2018, venho representando a ANM no conselho gestor do parque. Nesse âmbito, houve participação ativa na organização de eventos científicos, no desenvolvimento de ações educativas e em atividades de divulgação científica, contribuindo para a preservação, revitalização e valorização desse relevante patrimônio paleontológico. Como um dos resultados desse trabalho, ressalta-se a publicação do Guia Ilustrado da Paleobiota de Itaboraí, lançado no final do ano passado.
O guia pode ser acessado no link:
https://mega.nz/file/SIkliTrL#wtKFztbvzuVV1SwWEiV02diGUI13mW1zJMnyAXQ1TM
Ascom - O “Guia Ilustrado da Paleobiota de Itaboraí”, que você publicou recentemente, apresenta uma forma lúdica de visualizar a vida de 50 milhões de anos atrás. Como você percebe o impacto da paleoarte na aproximação do público com a ciência e na valorização dos sítios fósseis brasileiros?

Márcia - Para promover uma divulgação mais ampla do conhecimento paleontológico, é fundamental adotar estratégias que facilitem a compreensão do tema pelo público leigo. Nesse sentido, a reconstituição dos fósseis por meio da arte paleontológica constitui um recurso relevante, ao possibilitar uma visualização mais clara dos organismos do passado, especialmente considerando que muitos fósseis são encontrados de forma fragmentada.
A paleoarte destaca-se, ainda, como uma importante ferramenta didática, passível de aplicação em programas educacionais voltados à formação de professores, bem como recurso visual atrativo para estimular o interesse dos alunos pelo tema. A ampliação do conhecimento é um passo essencial para a compreensão da relevância científica e cultural do patrimônio fossilífero e, consequentemente, para a formação de cidadãos comprometidos com sua preservação. Nessa perspectiva, ressalta-se a importância da valorização do patrimônio da Bacia de Itaboraí, que possui elevado significado histórico, geológico, paleontológico, arqueológico, biológico e ambiental para o país.
Ascom - A Bacia de Itaboraí é considerada um dos sítios paleontológicos mais importantes do país. Na sua visão, quais descobertas de lá mais transformaram a compreensão sobre a evolução dos mamíferos na América do Sul?
Tiveram algumas descobertas, vou citar algumas:
1) O Tatu mais antigo do mundo, Riostegotherium yanei. 2) Os primeiros ungulados da América do Sul, mamíferos herbívoros de pequeno a médio porte, ancestrais distantes de grupos hoje extintos da América do Sul e fundamental para o conceito de endemismo sul-americano, que marcaria toda a história evolutiva do continente. 3) O maior mamífero Sul-Americano do Paleoceno e Eoceno inicial, Carodnia vieirai, que foi maior que uma anta brasileira, o atual maior mamífero terrestre nativo da América do Sul. 4) Os marsupiais primitivos descritos também permitiram entender melhor a relação entre os marsupiais sul-americanos e os da Austrália, além de terem reforçado a ideia de que o continente foi um centro importante de diversificação, e não apenas uma “rota de passagem”. 5) Itaboraí é a única localidade da América do Sul a registrar a transição do Paleoceno para o Eoceno inicial, que é o período de maior aquecimento do Cenozoico. O Eoceno inicial é caracterizado por diversos picos de temperatura global devido a liberação de CO2 por vulcanismo em um "curto período de tempo geológico" (entre 80 e 200 mil anos). O estudo da fauna Itaboraiana pode ajudar em estudos sobre potenciais respostas dos mamíferos ao crescente aumento de temperatura global observado nos últimos séculos.
A Bacia de Itaboraí não apenas trouxe à luz fósseis de grande relevância — ela redefiniu a compreensão sobre como, onde e em que ritmo os mamíferos sul‑americanos evoluíram. É importante destacar que, embora muitos desses fósseis tenham sido estudados no passado, o material preservado nas coleções paleontológicas continua revelando um número crescente de novas espécies conforme as pesquisas avançam.
Ascom - O sítio foi revelado durante uma atividade minerária, e você frequentemente destaca a possibilidade de uma convivência responsável entre mineração e preservação paleontológica. Quais lições esse caso deixa para práticas futuras no setor?
Márcia - A atividade minerária tem desempenhado papel relevante na descoberta e preservação de importantes registros paleontológicos no Brasil. As frentes de trabalho abertas pelas empresas mineradoras frequentemente possibilitam a descoberta de fósseis que, em muitos casos, não seriam encontrados sem a intervenção decorrente dessas atividades.
A Bacia de Itaboraí constitui um exemplo emblemático da convivência harmoniosa entre mineração e paleontologia. Durante o período de exploração mineral, os próprios mineradores comunicaram servidores do então Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e pesquisadores de universidades sobre a ocorrência de fósseis na área, viabilizando sua coleta, preservação e posterior estudo. Essa colaboração foi fundamental para o conhecimento desse importante sítio fossilífero, que abriga os fósseis mais antigos do Brasil após a extinção dos dinossauros.
A experiência evidencia que mineração e pesquisa paleontológica podem e devem ser desenvolvidas de forma concomitante e integrada, por meio de políticas públicas e projetos específicos. Iniciativas que promovam a conscientização do setor mineral sobre sua importância no desenvolvimento científico e educacional do país contribuem para o incentivo e possível inserção dos mineradores em planejamentos que sejam economicamente atrativos e que proporcionem visibilidade institucional às empresas. Nesse sentido, a aproximação entre mineração e ciência tem potencial para ampliar a participação do setor mineral em ações de salvamento paleontológico, fortalecendo a pesquisa científica brasileira e promovendo benefícios socioambientais.
Ascom - Quais são, na sua opinião, os principais desafios e prioridades para o futuro da paleontologia brasileira, tanto na pesquisa quanto na preservação do patrimônio fossilífero, e como iniciativas como o guia ilustrado que você publicou podem contribuir para o melhor caminho a ser trilhado?
Há diversos desafios e prioridades a serem enfrentados na paleontologia no Brasil. Entre os principais, destacam-se: a insuficiência de recursos e de financiamento contínuo e a urgência na preservação do patrimônio fossilífero e combate ao tráfico de fósseis. Embora os fósseis sejam legalmente protegidos no Brasil, ainda se observa a ocorrência de coleta e comércio ilegal, especialmente em regiões de elevada relevância paleontológica. Essas práticas resultam na retirada dos fósseis de seu contexto original, comprometendo tanto o avanço do conhecimento científico quanto a preservação do patrimônio cultural nacional.

O “Guia Ilustrado da Paleobiota da Bacia de Itaboraí” tem como um dos objetivos principais ampliar a divulgação do Parque Paleontológico de Itaboraí, ainda pouco conhecido pela sociedade, contribuindo para a valorização desse sítio paleontológico e para o fortalecimento de políticas públicas de proteção e investimento na região. A publicação do material evidencia o compromisso institucional da ANM com a responsabilidade socioambiental e com a preservação do patrimônio paleontológico e cultural brasileiro.
Ascom - Nos últimos anos, vemos um interesse crescente de meninas e jovens mulheres nas ciências da Terra. Que mensagem você deixaria para elas, especialmente para quem deseja atuar na paleontologia ou na geologia?
Márcia - Na verdade, observa-se um crescente interesse de meninas e jovens mulheres pelas ciências da Terra e por outras áreas antes predominantemente masculinas, o que representa um avanço positivo e inspirador.
A mensagem que deixo dirige-se a todas as meninas e mulheres que desejam atuar em qualquer área do conhecimento ou do mercado de trabalho:
É fundamental que não desistam de seus sonhos e que não se deixem desestimular por discursos que questionem sua capacidade ou potencial. A busca contínua por formação, aliada ao trabalho honesto, ao comprometimento e à dedicação, constitui um pilar essencial para o desenvolvimento profissional. A atuação ética, pautada no respeito aos colegas e às instituições, deve orientar toda sua trajetória. Mais do que adquirir conhecimento, é importante disseminá-lo e empregá-lo de forma responsável e com propósito social, contribuindo para o bem coletivo.
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ㅤ ㅤMárcia Polck é especialista em recursos Minerais da ANM, possui graduação em Ciências Biológicas (UERJ), mestrado em Ciências - Geologia (UFRJ), doutorado em Ciências - Geologia UERJ) e pós-doutorado em Geociências (UERJ). Servidora de Carreira da ANM desde 2006, tendo atuado na curadoria das coleções paleontológicas do Museu de Ciências da Terra por 10 anos, além de desenvolver projetos e coordenar o setor educativo do museu por três anos. Trabalhou na antiga DDM, na gerência regional do RJ, desenvolvendo alguns projetos, como o mapa digital das localidades fossilíferas georreferenciadas do Brasil. Posteriormente, atuou por um ano como chefe da divisão de paleontologia, onde elaborou e deu início ao projeto “Fósseis em aeroportos do Brasil”. Atualmente integra a equipe da Gerência de Projetos Institucionais (GEPROJ/SPE). |
| Marize Torres Magalhães — ASCOM da Agência Nacional de Mineração |
