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Sob a montanha
Para quem chega a Vazante, no noroeste de Minas Gerais, a cidade parece seguir o ritmo tranquilo de tantas outras do interior brasileiro. Casas baixas, pequenos comércios e ruas calmas. O visitante distraído dificilmente imagina que ali funciona uma das maiores operações subterrâneas de zinco da América Latina.
O primeiro indício surge na praça central, em uma placa ao lado da Gruta da Lapa Velha. Foi ali que, segundo a tradição, uma camponesa testemunhou, em 1865, a aparição de Nossa Senhora da Lapa. A história conta que, depois do episódio, milagres começaram a ocorrer na região. Uma formação rochosa dentro da caverna teria assumido o formato da santa, atraindo romeiros e visitantes desde então. Por intervenção divina ou por obra da geologia, Vazante prosperou.
A cidade, de pouco mais de 20 mil habitantes, abriga o maior polo produtor de zinco do país. Desde 1969, toneladas do metal saem dali todos os anos. O zinco extraído nas galerias subterrâneas da região percorre um longo caminho até chegar a produtos presentes no cotidiano de milhões de pessoas: ligas metálicas que protegem estruturas da corrosão, peças automotivas, equipamentos industriais e componentes eletrônicos.
Pouca gente pensa na origem desses materiais. Menos ainda imagina que parte deles começa sua jornada a centenas de metros de profundidade, no interior de uma montanha do cerrado mineiro.
Foi para conhecer de perto essa realidade que uma comitiva da diretoria colegiada da Agência Nacional de Mineração realizou uma visita técnica à operação subterrânea da Nexa Resources, em fevereiro.
A descida
As atividades começam na superfície. Mas a verdadeira dimensão da mina aparece apenas quando o veículo entra na boca do túnel próximo ao topo do monte.
A caminhonete avança com cautela pelo vão escavado na rocha. A luz do dia desaparece poucos metros depois da entrada. O farol recorta o caminho em um feixe estreito que ilumina paredes úmidas e marcas de perfuração. A cada curva, a montanha parece se fechar um pouco mais, e o túnel desce como um precipício longo e inclinado.
O rádio chia com comunicações curtas entre operadores. Em determinado ponto do trajeto surge um caminhão — duas ou três vezes maior do que aqueles que vemos nas estradas — carregado de minério. As caminhonetes entram nos refúgios que existem ao longo das galerias para dar passagem ao gigante.
Para quem desce ali pela primeira vez, a experiência mistura fascínio e apreensão. O caminhão passa devagar, ocupando quase todo o espaço. Quando desaparece, o silêncio retorna por alguns segundos, quebrado apenas pelo eco dos motores que voltam a se movimentar.
A cada novo trecho percorrido surge a lembrança inevitável de que, sobre aquela pequena estrada de pedra, repousam centenas de metros de rocha. A caminhonete, equipada com pneus especiais e tração 4x4 acionada, parece escorregar pelas vias subterrâneas até quase 600 metros de profundidade.
A mina de Vazante não está entre as mais profundas do mundo, mas impressiona pela extensão. São cerca de dez quilômetros horizontais abaixo do maciço rochoso.
Ali dentro, a temperatura sobe gradualmente. O fenômeno segue uma regra conhecida da geologia: o gradiente geotérmico eleva a temperatura aproximadamente três graus a cada 100 metros de profundidade, tornando o ar progressivamente mais quente e úmido.
A ciência da segurança
Capacete, lanterna, botas e macacão fazem parte do equipamento básico de proteção, mas um item fundamental são os protetores auriculares.
O ruído das bombas que operam no coração da mina lembra o som contínuo de motores industriais em plena carga. São dezenas desses equipamentos funcionando simultaneamente em um espaço que caberia um avião de médio porte. O barulho é ensurdecedor.
A cabine de operação possui um sólido sistema de isolamento acústico, mas não consegue abafar completamente o ruído permanente das máquinas no grande salão a frente.
Esse sistema drena o lençol freático que alimenta o Rio Santa Catarina, responsável pelo abastecimento da cidade. Sensores instalados no rio fornecem previsões hidrológicas com até 48 horas de antecedência, permitindo ajustar o volume de água bombeado diariamente.
Segundo técnicos da operação, a energia consumida equivale ao gasto elétrico de uma cidade do porte de Uberlândia, com quase um milhão de habitantes. A conta de eletricidade representa cerca de 60% dos custos operacionais da mina.
Pergunto ao engenheiro de minas Mateus Ribeiro, gerente de Serviços Técnicos, o que aconteceria se todas as bombas parassem.
“Mesmo em um cenário extremo, com falha simultânea das bombas e das três fontes redundantes de energia, o nível da água subiria apenas alguns centímetros por hora. Haveria tempo suficiente para evacuar a mina com segurança”, explica.
O risco mais sério, segundo ele, não é a água — são os gases.
Como a ventilação no subsolo funciona de forma totalmente mecânica, um incêndio poderia espalhar monóxido de carbono rapidamente pelas galerias. Por isso cada trabalhador carrega um pequeno dispositivo metálico chamado ARAF — Aparelho de Respiração Autônoma de Fuga — capaz de garantir oxigênio suficiente para alcançar áreas seguras.
Cabines de emergência oferecem abrigo temporário em situações críticas. Todos recebem também um localizador pessoal, que permite confirmar que não há ninguém no interior da mina durante as duas detonações diárias, realizadas à 1h e às 13h.
De volta à superfície o sol do cerrado reaparece com intensidade quase ofuscante. Depois de horas no subsolo, com clima abafado e claustrofóbico, mesmo a claridade excessiva conforta. A poucos quilômetros dali funciona a planta de processamento — um conjunto de estruturas metálicas, correias transportadoras e tubulações que lembram uma pequena indústria.
É ali que o minério retirado das galerias subterrâneas passa pelas etapas de britagem, moagem e concentração. O material chega em caminhões vindos da mina e segue por uma sequência de equipamentos que reduzem o tamanho das rochas e separam o mineral de interesse do restante da rocha.
Esse concentrado segue depois para a unidade metalúrgica da empresa em Três Marias, onde o metal passa pelo processo de refino. Parte do concentrado de chumbo produzido na operação é exportada para mercados asiáticos.
Depois do processamento do minério entra em cena outra parte essencial da operação: a disposição dos rejeitos. Essas estruturas ficam na superfície, em áreas projetadas especificamente para esse fim. A empresa possui duas principais: a Barragem de Aroeira e a Pilha Garrote.
A Barragem de Aroeira deixou de receber rejeitos em 2014 e hoje opera sob rigoroso monitoramento geotécnico. Piezômetros, sensores de nível, câmeras e instrumentos automatizados enviam dados em tempo real tanto para a empresa quanto para a Defesa Civil e para o sistema de monitoramento de barragens da Agência Nacional de Mineração.
A Pilha Garrote segue um modelo considerado mais moderno: o empilhamento a seco. Nesse sistema, o material filtrado é compactado em pilhas sucessivas, sem acúmulo significativo de água. Em 2025, cerca de 95% dos rejeitos da operação foram destinados a esse tipo de disposição.
Durante a visita, o diretor Luiz Paniago, especialista em segurança de barragens, observava atentamente os instrumentos de monitoramento.
“Hoje a tecnologia permite acompanhar o comportamento dessas estruturas praticamente em tempo real. Isso muda completamente o padrão de segurança da mineração moderna”, afirmou.
Para o diretor Fabio Borges, que também acompanhou a comitiva, visitas técnicas como essa têm um valor estratégico para o trabalho regulatório.
“A regulação não pode acontecer apenas dentro do gabinete. Conhecer a realidade das operações ajuda a tomar decisões mais equilibradas e mais eficientes para o país.”
A Agência Nacional de Mineração completa oito anos de existência em 2026. Nesse período, consolidou sistemas de monitoramento e fiscalização que acompanham milhares de estruturas e operações.
Apesar da dimensão, o impacto visual da mineração permanece relativamente discreto na paisagem. Isso ocorre porque a lavra acontece no subsolo. Ainda assim, os números impressionam. Em 2025, a mina produziu mais de 1,6 milhão de toneladas de minério, com teor médio de 8,95% de zinco.
A operação emprega diretamente mais de 900 trabalhadores e mantém cerca de 550 profissionais terceirizados. Mais da metade da mão de obra vem da própria cidade.
Esse detalhe transformou Vazante em um caso curioso no mapa da mineração brasileira: a cidade exporta profissionais especializados. Engenheiros, técnicos e operadores formados ali trabalham hoje em minas da América do Sul, da Austrália e do Canadá.
“A mineração qualifica pessoas e cria oportunidades que vão muito além da própria mina”, observa o diretor-geral da Agência, Mauro Sousa.
Poucos setores industriais permanecem tão invisíveis no cotidiano das pessoas quanto a mineração. Ela está no telefone celular, nos cabos que transportam eletricidade, nas estruturas metálicas de pontes e edifícios, nos fertilizantes que sustentam a agricultura.
Da pasta de dentes ao automóvel, quase tudo ao redor depende de minerais extraídos da crosta terrestre. “Todo mundo usa mineração desde que acorda até ir dormir”, resume Mauro. Um smartphone comum reúne mais de quarenta minerais diferentes em sua composição como zinco, cobre, níquel, silício, lítio e terras raras.
Antes de chegar à palma da mão de um consumidor em São Paulo, Nova York ou Tóquio, cada um desses elementos percorre um caminho que começa muitas vezes a centenas de metros de profundidade, em galerias escavadas dentro de montanhas.
“Temos recursos minerais estratégicos e um ambiente tecnológico capaz de transformar esse potencial em desenvolvimento real. O desafio é agregar valor, investir em conhecimento e fortalecer a indústria”, afirma Sousa.
O futuro além da mina
Nenhuma mina dura para sempre. Os recursos minerais são finitos, e a operação de Vazante possui vida útil estimada até 2042. Por isso, parte importante da estratégia da empresa envolve preparar a cidade para o futuro. Programas de desenvolvimento local apoiam produtores rurais, projetos educacionais e iniciativas de saneamento ambiental.
Entre as ações estão projetos de recuperação de nascentes e instalação de biodigestores em propriedades agrícolas da região. A ideia é deixar um legado econômico e social capaz de sobreviver ao encerramento das atividades minerárias.
A região também tem potencial turístico. As serras próximas à cidade abrigam mais de uma dezena de cachoeiras. Uma das propostas é qualificar a formação de pessoas para ampliar o parque hoteleiro da cidade e uma rota gastronômica com produtos e cultura tipicamente do interior de Minas.
Na superfície, Vazante segue sua rotina tranquila. Romeiros visitam a gruta da aparição. Agricultores trabalham nas propriedades rurais do entorno. Adolescentes caminham pelas ruas da cidade depois da escola.
Poucos lugares ilustram tão bem o encontro entre tradição e indústria quanto essa cidade. Ali convivem fé popular, romarias e uma operação subterrânea sofisticada. Talvez seja por isso que Vazante carregue uma identidade tão singular. Como disse um vazantino com orgulho: “a cidade é nascida da fé, capital do carro de boi e do zinco”.
As imagens da visita podem ser acessadas na integra no Flickr da Agência. A reprodução integral ou parcial dos materiais é liberada desde que citada a fonte.
| Tiago Souza — ASCOM da Agência Nacional de Mineração |