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Salvamento Paleontológico: o resgate silencioso da história da vida no Brasil
O Brasil abriga uma das maiores diversidades paleontológicas do planeta. Com um território dominado por extensas bacias sedimentares – em terra e no mar – o país guarda registros fósseis de praticamente todas as formas de vida conhecidas ao longo das eras geológicas. Trata-se de um patrimônio científico e cultural de valor incalculável, fundamental para entender a evolução do ambiente e dos seres vivos.
À medida que o território se transforma com obras civis, expansão urbana, infraestrutura e atividades minerárias, esse patrimônio fica cada vez mais exposto e sob risco iminente de destruição.
É nesse cenário que surge o salvamento paleontológico, um conjunto de ações pensado para resgatar, documentar e dar destino adequado a fósseis ameaçados pela intervenção humana. Mais do que uma resposta emergencial, é uma oportunidade de ampliar o conhecimento científico e fortalecer a proteção desse patrimônio natural.
Por que o salvamento paleontológico é tão importante?
Avanço científico
Durante um salvamento, paleontólogos coletam, registram e encaminham fósseis para instituições de pesquisa e museus. Esse processo permite identificar espécies (inclusive inéditas), ampliar o conhecimento sobre a paleobiodiversidade brasileira, fortalecer acervos científicos e gerar publicações e novas linhas de pesquisa.
A destinação adequada também fomenta a formação de novos pesquisadores e transforma coleções científicas em referências nacionais.
Educação, cultura e identidade
Fósseis são testemunhos materiais da história da Terra. Uma vez resgatados, enriquecem exposições e acervos didáticos, apoiam atividades educativas, aproximam o público da ciência e contribuem para o reconhecimento de locais com ocorrências fossilíferas como um sítio (de valor) paleontológico, caracterizando-o como patrimônio cultural brasileiro, conforme o art. 216 da Constituição Federal de 1988.
Esse reconhecimento e caracterização, a cargo Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (SIGEP), da qual a Agência Nacional de Mineração (ANM) faz parte, é indutor do geoturismo e de atividades econômicas que geram emprego e renda, além da valorização da identidade cultural local.
O que diz a legislação
As diretrizes do salvamento paleontológico estão previstas no artigo 297 da Consolidação Normativa aprovada com a Portaria do Departamento Nacional de Produção Mineral nº 155/2016. O normativo define essa prática como a “coleta exaustiva de fóssil do local de ocorrência de modo a mitigar o risco iminente de destruição ou dano irreversível, incluindo, também, as medidas que se fizerem necessárias para a sua curadoria científica.”
Como solicitar autorização para coletar fósseis
O processo é todo feito pelo Sistema de Controle da Pesquisa Paleontológica (COPAL), criado para agilizar autorizações e comunicações prévias de coleta.
O pesquisador, ao requerer a autorização para extração de fósseis devida, deve anexar o programa/projeto de salvamento paleontológico, acompanhado do endosso financeiro por parte do empreendedor, a declaração de interesse da instituição que receberá o material fóssil e o seu Currículo Lattes inserido na plataforma do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) atualizado.
Após a coleta, é obrigatório entregar relatório detalhado, com a lista de materiais coletados (fósseis e eventualmente rochas com potencial de conter microfósseis), coordenadas geográficas (no datum padrão especificado pela ANM), depósito fossilífero (unidade litoestratigráfica) onde se coletou os exemplares, e comprovação de recebimento pelo acervo depositário.
Como funciona o fluxo processual na ANM
Com a documentação completa, a equipe técnica da ANM analisa o requerimento. Se estiver em conformidade com a legislação, é emitida a autorização prévia pelo COPAL. E aqui deve-se ressaltar que cabe ao pesquisador autorizado o transporte e entrega dos fósseis à(s) instituição(ões) indicada(s).
Quando o salvamento ocorre em áreas de mineração
A mineração pode expor – e potencialmente destruir – registros fósseis. Por isso, o artigo 309 da Portaria 155/2016 determina que, sempre que possível, o salvamento seja feito concomitantemente às operações minerárias.
A mineradora deve elaborar um projeto de salvamento paleontológico sempre que identificar fósseis no minério ou no estéril.
Já a ANM pode exigir esse projeto em fiscalização. Órgãos ambientais também costumam solicitá-lo durante processos de licenciamento.
Casos emblemáticos no Brasil
Bacia de Itaboraí (RJ)
Um dos exemplos clássicos de coleta/resgate de fósseis paralela à mineração. Desde 1934, pesquisadores realizaram resgates contínuos durante a exploração de calcário, que abasteceu obras como o Maracanã e a Ponte Rio-Niterói.
O material está hoje no Museu de Ciências da Terra (MCTer/SGB), no Museu Nacional/UFRJ e no Departamento de Geologia da UFRJ.
Uberaba (MG)
Desde os anos 1940, a região revela fósseis que impulsionaram a paleontologia brasileira. A trajetória levou à criação do Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price e do Museu dos Dinossauros, hoje integrados à Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).
Araxá (MG)
Durante a construção do Grande Hotel Termas de Araxá, centenas de fósseis de mastodontes e preguiças-gigantes foram descobertos, muitos resgatados pelo paleontólogo Llewellyn Price, reconhecido como um dos pioneiros e mais eminentes paleontólogos brasileiros.
Llewellyn Price teve uma profícua carreira profissional e acadêmica. Integrou o corpo de paleontólogos do DNPM, atual ANM, entre 1944 e 1980.
Também lhe é creditada a elaboração do texto e o incentivo para o então Presidente do Brasil, Getúlio Vargas, publicar o Decreto-Lei 4.146, marco regulatório para a coleta de fósseis no território brasileiro, em março de 1942.
Usina Hidrelétrica de Belo Monte (PA)
Entre 2011 e 2013, o salvamento acompanhou o ritmo das obras de construção da barragem e recuperou 495 amostras de microfósseis e 1.744 amostras de macrofósseis, todos depositados no acervo do Museu Paraense Emílio Goeldi.
Como é feita a coleta durante um salvamento?
O objetivo central é resgatar os fósseis antes da destruição. Para isso, é essencial registrar as coordenadas geográficas do local, o tipo de rocha, a unidade litoestratigráfica, a idade geológica, a data e autor da coleta, os contextos fossilíferos e associações, e imagens antes e depois do resgate. Todas são informações fundamentais para a curadoria e para futuras pesquisas.
Alguns dos desafios enfrentados pelos paleontólogos
O principal desafio diz respeito ao tempo limitado para a coleta. Obras seguem cronogramas rígidos, o que pode restringir escavações mais detalhadas e comprometer a qualidade da coleta. Portanto, são fundamentais o planejamento e a execução criteriosa das atividades previstas.
Outro grande desafio são as condições adequadas de armazenamento do material fossilizado. Muitos fósseis exigem controle rígido de temperatura, umidade e iluminação, fatores ambientais que podem afetar sua conservação. Sem isso, há o risco de deterioração e eventual perda do exemplar resgatado.
Confira o livro da autora na íntegra aqui
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Márcia Polck é especialista em recursos Minerais da ANM, possui graduação em Ciências Biológicas (UERJ), mestrado em Ciências - Geologia (UFRJ), doutorado em Ciências - Geologia UERJ) e pós-doutorado em Geociências (UERJ). Servidora de Carreira da ANM desde 2006, tendo atuado na curadoria das coleções paleontológicas do Museu de Ciências da Terra por 10 anos, além de desenvolver projetos e coordenar o setor educativo do museu por três anos. Trabalhou na antiga DDM, na gerência regional do RJ, desenvolvendo alguns projetos, como o mapa digital das localidades fossilíferas georreferenciadas do Brasil. Posteriormente, atuou por um ano como chefe da divisão de paleontologia, onde elaborou e deu início ao projeto “Fósseis em aeroportos do Brasil”. Atualmente integra a equipe da Gerência de Projetos Institucionais (GEPROJ/SPE). |