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Rochas naturais redesenham o mapa industrial brasileiro e projetam nova ambição global na Marmomac Brazil 2026
São Paulo amanheceu com cheiro de pedra cortada e ambição internacional. No Pavilhão do Distrito Anhembi, a segunda edição da Marmomac Brazil confirmou o que os números já indicavam: as rochas ornamentais deixaram de ser apenas um capítulo da construção civil para se tornarem peça estratégica do desenvolvimento regional, da geração de empregos e do reposicionamento industrial brasileiro.
Tradicional na Itália — onde a Marmomac completa 60 anos em 2026 — a feira desembarcou no Brasil em 2025 e, agora, dobra de tamanho. São mais de 180 marcas expositoras, 15 mil visitantes esperados e representantes de 80 países. A parceria entre grupos estrangeiros organizadores da feira italiana e realizadores internacionais no Brasil simboliza algo maior: o reconhecimento de que o país já não é apenas fornecedor de blocos brutos, mas protagonista de uma cadeia que combina design, tecnologia e identidade cultural.
Hoje, o Brasil ocupa a 4ª posição entre os maiores produtores e a 5ª entre os exportadores mundiais de rochas naturais. Em 2025, o setor alcançou US$ 1,48 bilhão em exportações e estabeleceu uma meta audaciosa: US$ 3 bilhões por ano até 2030. São cerca de 480 mil empregos diretos e indiretos distribuídos em pedreiras, beneficiadoras, marmorarias, portos e escritórios de arquitetura.
Na abertura da feira, o diretor-geral da Agência Nacional de Mineração (ANM), Mauro Sousa, ampliou o horizonte do debate.
“Não basta falarmos apenas de minerais críticos e estratégicos. Tratar de urânio ou de agrominerais. O Brasil tem uma vocação extraordinária nas rochas naturais. Este é um grande motor da nossa mineração, com enorme capacidade de agregar valor, design e inovação”, afirmou.
Para ele, a Marmomac Brazil materializa um movimento importante: aproximar o mercado internacional de uma cadeia produtiva que já demonstra efervescência e capacidade competitiva. “Há aqui uma cadeia promissora, com potencial logístico, tecnológico e arquitetônico. É um setor que precisa ser visto em sua plenitude”, completou.
A feira acontece em São Paulo, mas o coração da produção pulsa no Espírito Santo. O estado responde por cerca de 2 milhões de toneladas extraídas por ano e concentra aproximadamente 80% da produção nacional de rochas ornamentais — desempenho que o coloca como o maior produtor do Brasil e um dos maiores do mundo.
A gerente regional da ANM no Espírito Santo, Iramaya Salaroli, explica que o desafio agora não é apenas crescer, mas qualificar a base jurídica da produção.
“O Espírito Santo é o primeiro maior produtor do Brasil e um dos maiores do mundo. A Agência tem evoluído para que as empresas deixem de operar com guia de utilização e passem a produzir com portaria de lavra, que é um título mais definitivo. Isso traz mais segurança para as empresas, para o Estado e para todo o setor”, destacou.
Segundo ela, a regularização fortalece o ambiente de negócios e amplia a previsibilidade para investimentos de longo prazo. Em um estado onde a mineração de rochas naturais estrutura economias municipais inteiras, a formalização tem efeito direto na geração de emprego, renda e arrecadação.
A cadeia produtiva envolve desde a extração até o design de alto padrão. O setor abastece obras icônicas no exterior, mas também sustenta pequenos municípios brasileiros cuja identidade econômica está ligada à pedra — um material que carrega milhões de anos de história geológica e, agora, estratégia industrial.
São Paulo como vitrine estratégica
Para o gerente regional da Agência Nacional de Mineração em São Paulo, Marcus Vinicius de Oliveira, sediar a segunda edição da feira na capital paulista simboliza a convergência entre produção e mercado consumidor.
“São Paulo reúne arquitetura, indústria, design e grandes centros decisórios. Trazer a Marmomac para cá é conectar a produção brasileira de rochas ornamentais ao ambiente onde tendências são definidas e investimentos são estruturados. É uma vitrine estratégica para o país”, afirmou.
A presença institucional reforçou o caráter federativo da mineração de rochas naturais. Estavam presentes da delegação da Agência no evento também os gerentes regionais do Rio Grande do Norte, Roger Garibaldi Miranda; do Ceará, Helano Regis da Nóbrega Fonteles; e do Paraná, Carlos Alberto Dieter.
O Rio Grande do Norte e o Ceará ampliam participação nas exportações, especialmente em granitos e quartzitos. O Paraná diversifica a base produtiva. A fotografia institucional no Anhembi traduziu uma mineração distribuída, que conecta Nordeste, Sudeste e Sul em uma mesma cadeia produtiva.
Competitividade e reposicionamento
Na cerimônia, Tales Machado, presidente do Centrorochas, apresentou o panorama de um setor que resistiu a turbulências comerciais recentes e, mesmo assim, registrou recorde de exportações.
“A legitimidade construída no Brasil é o que nos permite avançar com consistência no cenário internacional. Hoje não falamos apenas com compradores. Conectamos diretamente com quem influencia decisões e define tendências”, afirmou.
A estratégia é clara: transformar a pedra natural em produto de alto valor artístico e cultural, não apenas insumo da construção civil. A exposição temática da feira, que percorre as etapas de origem, extração, transformação e inovação, sintetiza essa narrativa.
A mineração de rochas ornamentais tem uma característica singular: está profundamente enraizada em arranjos produtivos locais. Ao contrário de grandes minas isoladas, as pedreiras convivem com pequenas e médias empresas, oficinas de beneficiamento, marmorarias e redes de exportação.
O impacto social é visível. Municípios capixabas tornaram-se polos industriais consolidados. No Nordeste, a atividade impulsiona cadeias regionais. No Sudeste e no Sul, integra-se à diversificação mineral.
Ao garantir segurança jurídica e previsibilidade regulatória, a Agência contribui para transformar blocos de granito e mármore em divisas internacionais e emprego formal.
No Anhembi, entre chapas polidas e máquinas de corte de alta tecnologia, a Marmomac Brazil 2026 deixou claro que o Brasil não exporta apenas pedra. Exporta geologia, design e estratégia.
| Tiago Souza — Chefe da ASCOM da Agência Nacional de Mineração |