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Parque de Itaboraí mostra como mineração e preservação de fósseis podem coexistir
- Foto: Iris Vasconcellos
Aos 15 anos, o jovem Luís Otávio Castro sonhava em se tornar biólogo marinho. Porém, tudo mudou após uma visita ao Parque Natural Municipal Paleontológico de São José de Itaboraí, localizado a 50 quilômetros do Rio de Janeiro e criado onde funcionava uma antiga área de mineração de calcário. Graças a esse primeiro contato com os fósseis ainda na juventude, ele se apaixonou pelo tema. Hoje, está prestes a terminar o doutorado em Paleontologia e atua como gestor do mesmo parque que alterou seu destino.
Responsável por gerir, regular e fiscalizar o aproveitamento dos recursos minerais do Brasil, a Agência Nacional de Mineração (ANM) também tem entre suas atribuições a proteção do patrimônio paleontológico. E tanto o parque quanto a trajetória de Luís Otávio são exemplos vivos de como essas duas áreas aparentemente tão distintas podem conviver e gerar frutos para a sociedade.
Conhecido como “Tavinho”, o pesquisador conhece em detalhes o passado do local que o inspirou. A história começa em 1928, quando Ernesto Coube, então proprietário da Fazenda São José, se deparou com algumas rochas diferentes em meio às suas plantações de cana, usadas na produção de cachaça. Intrigado com a descoberta, ele enviou amostras para um laboratório que atualmente pertence à UFRJ, e o resultado trouxe uma dupla surpresa.
“As análises revelaram a existência de depósitos de calcário. Ao mesmo tempo, foram encontrados muitos fósseis em meio a esse material. Assim, quando a extração teve início pela Companhia de Cimento Portland, em 1933, paleontólogos passaram a acompanhar os trabalhos para identificar e proteger os fósseis revelados pelas escavações. Ou seja, mineração e paleontologia caminharam juntos desde o nascimento do projeto”, revela.
Ao longo das décadas seguintes, a atuação conjunta de profissionais da mineração e da paleontologia possibilitou tanto o sucesso econômico do empreendimento, que forneceu cimento para a execução de importantes obras no Rio de Janeiro, como o Estádio do Maracanã e a Ponte Rio-Niterói, como garantiu a preservação do patrimônio histórico e cultural do espaço.
Prova disso é que o antigo Departamento Nacional de Proteção Mineral (DNPM) se debruçou sobre o patrimônio encontrado no local e produziu diversos trabalhos científicos, como o estudo “Restos Vegetais Fósseis e Tectônica da Bacia Calcária de Itaboraí, estado do Rio de Janeiro”, elaborado por Karl Beurlen e Friedrich Wilhelm em 1954.

Hoje, os cerca de 10 mil fósseis revelados em Itaboraí são reconhecidos como uma das principais reservas dos ancestrais de mamíferos da América do Sul, reunindo espécies como preguiça gigante e mastodonte. O acervo ainda inclui gastrópodes (caramujos), répteis, aves, anfíbios e vegetais com idades que superam a barreira dos 50 milhões de anos. Boa parte desses vestígios integra as coleções do Museu de Ciência da Terra, no Rio de Janeiro, e estão descritos no Guia Ilustrado da Paleobiota de Itaboraí, que teve o apoio da ANM na elaboração e conta com a servidora Márcia Polck como uma das autoras.
Da extração ao legado cultural
Com o avanço da extração, os depósitos de calcário foram se esgotando e perderam a viabilidade econômica em 1984. Após o fim da produção de cimento, a prefeitura de Itaboraí declarou o local como área de utilidade pública e, em 1995, criou o parque paleontológico. Desde então, o espaço desenvolve atividades educativas e culturais voltadas à comunidade.
Em um desses eventos, realizado em 2009, o jovem Tavinho, então estudante de uma escola de Itaboraí, visitou o parque e se encantou com os fósseis. “Eu fazia parte do programa Jovem Talento, que oferece bolsas para alunos do ensino médio auxiliarem na realização de pesquisas, e essa experiência mudou minha vida”, resume.
Os anos passaram e Tavinho recebeu o título de mestre em Paleontologia com uma dissertação que descreve uma espécie encontrada exclusivamente em Itaboraí. Sua relação com o parque é tão forte que ele também se tornou gestor do espaço. Agora, trabalha para que novos jovens sigam seus passos e também se inspirem no legado conjunto deixado pela mineração e pela paleontologia. Isso já vem acontecendo, afinal uma de suas alunas também foi bolsista do programa Jovem Talento e hoje cursa arqueologia na UERJ.
“Todo esse patrimônio só pode ser descoberto graças à atividade de mineração. E a presença de paleontólogos desde o primeiro momento foi fundamental para preservar uma coleção incrível de fósseis que serve de material para novos estudos e inspira talentos a seguir o caminho da ciência”, encerra.

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Bruno Meirelles — ASCOM da Agência Nacional de Mineração |
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