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Centro do Rio de Janeiro tem rota turística com fósseis de 2 bilhões de anos
Quem visita o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro, dificilmente imagina que as paredes daquele edifício guardam atrações tão interessantes quanto as exposições abrigadas pelo espaço. Contudo, os blocos de mármore do saguão dos elevadores, por exemplo, contêm fósseis de 2 bilhões de anos, constituindo vestígios das cianobactérias responsáveis por ampliar a taxa de oxigênio marinho e viabilizar a evolução da vida na Terra. Essas e outras descobertas foram compartilhadas entre os participantes da excursão “Patrimônio Paleontológico no Centro do Rio: o pretérito mais que presente”, realizada na manhã do sábado (19/09).
O evento, que encerrou a programação do VIII Congresso Latinoamericano de Paleontologia de Vertebrados, teve condução de Márcia Polck, paleontóloga e especialista em recursos minerais da Agência Nacional de Mineração (ANM), instituição responsável por regular e ficalizar a coleta de fósseis.
O trajeto de cerca de 2,8 quilômetros passou por importantes construções do centro histórico do Rio de Janeiro, como Museu do Amanhã, Chafariz do Mestre Valentim, Praça XV, Paço Imperial, Tabacaria Africana, Igreja da Ordem Terceira, Confeitaria Colombo, Real Gabinete Português de Leitura, Igreja da Lampadosa e o próprio CCBB. Durante o percurso, Márcia revelou não apenas detalhes da arquitetura e da história dos monumentos, como falou sobre os tesouros paleontológicos escondidos nas fachadas e pisos.
"Esse tipo de ação, além de divulgar o conhecimento das geociências, mostra a importância de proteger e valorizar a paisagem arquitetônica e histórica da cidade. A iniciativa oferece um recurso didático acessível para alunos dos ensinos básico e superior, que nem sempre possuem recursos para viajar longas distâncias para ver os fósseis em um afloramento. Dentro da própria cidade fica muito mais fácil ter esse contato. Já o público em geral passa a conhecer a rota e ganha uma nova opção de turismo cultural pela Cidade Maravilhosa", resume.
Os fósseis de invertebrados com idades que superam a escala de bilhões de anos chegaram às fachadas dos edifícios cariocas através da mineração realizada em diferentes localidades do planeta. As construções mais antigas, erguidas até o Segundo Império, contam com calcários das idades jurássica e cretácica trazidos de Portugal. Já as do final do Segundo Império e Início da Primeira República utilizam mármore e travertino de idade cenozóica extraído na Itália, enquanto prédios que datam da época do Estado Novo são constituídos por metacalcários da Pedreira do Cumbi, ao sul de Ouro Preto (MG).
"Nosso roteiro está intimamente ligado ao contexto histórico do Brasil, pois as rochas do período Colonial e do Império vinham nos navios como contrapeso para que as embarcações retornassem à Europa carregadas de ouro e outras riquezas. Já nas obras para a Olimpíada de 2016, a cidade usou material proveniente de Tabuleiro do Norte (CE) e regiões vizinhas do Rio Grande do Norte. Por conta disso, a rochas dos pisos contém invertebrados contemporâneos dos dinossauros. Dá para dizer que estamos caminhando sobre o passado ao andar pelo Museu do Amanhã", brinca.

Conhecimento que encanta
Estudante de Museologia, Laura Sousa Mantuani participou da excursão e se mostrou surpresa com as descobertas paleontológicas em pleno no Centro do Rio. "Já fui ao Museu do Amanhã, CCBB, Real Gabinete, mas não fazia ideia da existência desses fósseis. Acreditava que eram apenas marcas na rocha, pois não tenho o olhar de um especialista. Essa informação torna a visita ainda mais interessante, especialmente para as crianças, e desperta a vontade de estudar para entender o que significam aqueles desenhos nas paredes", afirma.
Quem também ressaltou a importância da iniciativa foi o doutor em paleontologia Lucas Trifilio, natural do Rio Grande do Norte, de onde vieram as rochas e fósseis usados no Museu do Amanhã. "É uma rota turística muito importante para mostrar que temos um pouquinho da história dos seres vivos do nosso planeta preservados ao longo da cidade. Saber que a Paleontologia não fica só nos museus ajuda a aproximar o tema da população em geral", revela.
Adriana Miranda Martinez, paleontóloga da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), criou uma rota semelhante na capital mexicana. O passeio inclui a contemplação de fósseis de mamute nos pisos de estações de metrô. "Publicamos algumas fotos dos fósseis no metrô nas redes sociais durante a pandemia e isso despertou interesse de crianças a idosos. Desde então, passamos a oferecer o roteiro de forma gratuita em datas comemorativas, como o Dia Internacional da Divulgação Científica”, diz.
Para a especialista, o roteiro é uma forma de introduzir temas da ciência para que os cidadãos conheçam o patrimônio paleontológico e geológico. Segundo ela, as recentes escavações para a construção de um aeroporto na Cidade do México revelaram um acervo de cerca de 700 fósseis de mamute.
“Partimos de histórias como essa para falar sobre a Era do Gelo, explicar a formação das bacias marinhas no centro do país e sua posterior regressão com a formação de vulcões. O desafio é fazer uma paleontologia inclusiva, com uma linguagem que todos entendam. Eles ficam encantados com as descobertas, postam nas redes, e isso ajuda a divulgar e interessar novas pessoas”, encerra.

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Bruno Meirelles — ASCOM da Agência Nacional de Mineração |
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