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LELIA GONZALEZ E BAD BUNNY: MEMÓRIA E HISTÓRIA PARA CELEBRAR A VIDA DAS MULHERES NA AMÉFRICA
Em meio a tantas atrocidades do momento - desde as guerras seletivas e letais por mais poder e dinheiro, o avanço do feminicídio e da violência sexual que não poupa sequer a tenra idade, perseguições a pessoas migrantes e o êxodo de populações inteiras pelas crises climáticas – há que se reservar tempo para o cultivo da reflexão, da memória e da história.
Nesse exercício de afeto, pertencimento e engajamento, é definitivo reavivar marcos como o Dia Internacional da Mulher. A data surge por conta de batalhas travadas ao longo de séculos em busca de direitos, com a ONU, na Conferência do México, em 1975, na Década da Mulher, assinalando 08 de março para a celebração mundial.
Iniciativas recentes, como o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, buscam articular políticas públicas, fortalecer redes de proteção e reafirmar o compromisso do Estado com a defesa da vida das mulheres. Ainda assim, os desafios permanecem imensos e exigem não apenas políticas eficazes, mas também a permanente reconstrução da memória e da consciência histórica sobre as lutas das mulheres.
Memória e história são tijolos na formação de identidades, rechaço do esquecimento, antídotos contra a desinformação, fundação da cidadania para guiar o presente e o futuro. Arte e cultura são amálgamas dessas perspectivas.
Nesse entrecruzar de ideias, a cultura latino-americana oferece pontes potentes entre arte e pensamento político, música e literatura.
Bad Bunny, no show histórico de 08 de fevereiro de 2026, no Super Bowl LX, em Santa Clara, na Califórnia, bradou lições de amor, generosidade, geografia, política, história e pertencimento: “que rico es el latino”[1]! Sobre mulheres, corpos, rostos, vestimentas e costumes tão variados quanto extenso é o continente, sustentou sua força, autonomia e liberdade. Os versos marcados realçam o direito de viver sem ser violentada: “si no quiere bailar contigo, respeta, ella perrea sola”[2].
Descrevendo a tessitura deste lindo e desafiador continente com nome de mulher, que não se limita a um país, Bad Bunny evocou Lélia Gonzalez, ainda que não a nominasse.
Lélia González cunhou a categoria político-cultural de “amefricanidade”[3] para deslocar o eixo da identidade latino-americana. Em vez de pensar a América como mera extensão ou periferia do norte global, propôs entendê-la a partir da experiência comum de colonização, escravização e racismo estrutural. A amefricanidade, para González, é marcada pela presença decisiva de povos africanos e indígenas na formação cultural, política e linguística do continente, majoritariamente composto por mulheres. Trata-se de uma categoria que rompe com o mito da igualdade e denuncia as hierarquias herdadas do colonialismo, exortando o feminismo afro-latino-americano para a refundação de um modelo alternativo de sociedade.
Ela escreveu seus principais textos na década de 1980 e faleceu em 1994, justo no ano em que Bad Bunny nasceu, na ilha caribenha de Porto Rico, território autônomo, sob domínio colonial dos Estados Unidos.
Ele transforma pistas de dança em arenas políticas para denunciar a visão da latinidade usada para legitimar inferioridade, exatamente como Lélia Gonzalez mostrava. Em canções e performances, o artista denuncia a precarização da vida, a exploração econômica, a violência estatal e a opressão das mulheres como núcleo do sistema. Ao fazê-lo, reinscreve o Caribe no mapa da crítica anticolonial contemporânea. Sua música não é apenas entretenimento que explode no coração do colonizador[4], é manifesto.
Bad Bunny enfoca beleza, o requebrar hipnótico dos quadris como capital erótico, aborda a sexualidade livre, o jeito próprio de amar, a juventude insubmissa, o valor dos mais velhos, sem poupar expressões impactantes pela simplicidade do recado: “os gringos não são deuses... No, papi”.[5]
O orgulho caribenho e latino, ao cantar em espanhol, recusando a assimilação cultural, reivindica uma identidade forjada na mistura, na resistência e na memória histórica — elementos centrais na formulação de Lélia González.
No tempo de reflexão sobre a Luta Internacional e Intergeracional das Mulheres pela Vida, essa correlação ganha densidade especial para a compreensão das interseccionalidades que atravessam a existência feminina no continente.
Lélia González evidencia como o racismo e o sexismo operam de maneira articulada na América retalhada por fronteiras para facilitar domínio e impor subalternização:
Quando falo de experiências, quero dizer um processo de aprendizado difícil na busca de minha identidade como mulher negra dentro de uma sociedade que me oprime e me discrimina justamente por isso. (...) Não posso falar na primeira pessoa do singular para de algo dolorosamente comum a milhões de mulheres que vivem na região; refiro-me as ameríndias e às amefricanas, subordinadas a uma latinidade que legitima sua inferioridade”[6].
Bad Bunny usa sua vivência e visibilidade para questionar os padrões heteronormativos estabelecidos. Em apresentações concorridas, já se posicionou contra a violência de gênero, além de incorporar discursos feministas em suas performances, vestindo saias, exibindo unhas pintadas, em cima de saltos altos, com perucas coloridas e muito talento. Ao romper com expectativas rígidas de gênero — seja por meio de figurinos, seja por declarações públicas — ele balança os edifícios neocoloniais e sua pulsão de morte que massacra mulheres.
Essa convergência entre literatura, realidade e musicalidade atravessa universidades, ruas, palcos, plataformas diversas e exibe novas ferramentas para compreensão das continuidades coloniais que ancoram desigualdades que matam mulheres todos os dias. A música de protesto de Bad Bunny traduz estruturas em linguagem sensível e acessível a milhões de pessoas.
Celebrar o Dia Internacional da Mulher a partir desse diálogo é reconhecer que o feminismo latino-americano tem cor, território e ritmo e precisa de novos parceiros. É enxergar que as batidas do reggaeton podem carregar denúncias tão contundentes quanto os textos acadêmicos. E que a herança colonial denunciada por Lélia González permanece viva — como viva está a capacidade de resistência, reinvenção e criação cultural dos povos americanos contra a misoginia e o racismo, como ela acreditava.
Entre teoria e refrão, entre conceito e performance, entre o texto e o contexto, emerge uma pedagogia política da resistência pela memória. Uma pedagogia que ensina que ser mulher, negra, latina, caribenha não é condição de subalternidade, é ressignificado estratégico de agência, sobrevivência e poder. Tanto nas palavras de Lélia González quanto nos versos de Bad Bunny, a América Latina será tecnologia de resistência quando for él por ella! “Debí darte más beso y abrazo las veces que pude”[7]!
[1] BUNNY, Bad. Show de intervalo do Super Bowl LX. Apple Music. 08 fev. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=G6FuWd4wNd8.
[2] BUNNY, Bad. Yo Perreo Sola. Música. Lançada em 27 mar. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=GtSRKwDCaZM.
[3] GONZÁLEZ, Lélia. A categoria político-cultural da amefricanidade. In: Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos / organização de Flávia Rios e Márcia Lima. 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2020, p. 127-138.
[4] Conforme a Revista Rolling Stones: “a apresentação de Bad Bunny ajudou a estabelecer um novo recorde de audiência de pico com 137,8 milhões de espectadores sintonizados no segundo quarto, atraindo uma média de 124,9 milhões de espectadores para o jogo”. (...) A notícia da audiência recorde do Super Bowl deste ano também chega enquanto a música de Bad Bunny disparou nas reproduções do Spotify, com um aumento de 470% nos EUA e 210% nas reproduções globais. Na manhã de segunda, 9, Bad Bunny também estava ocupando as seis primeiras posições do Daily Top Songs Chart dos EUA do Spotify. (...) Além dos aumentos nas reproduções, “DtMF” de Bad Bunny também voltou à Billboard Hot 100 na posição 10. Publicada 11 fev. 2026. Disponível em: https://rollingstone.com.br/musica/show-do-intervalo-do-bad-bunny-no-super-bowl-atrai-128-milhoes-de-espectadores/#.
[5] BUNNY, Bad. Entrevista. El País Semanal. Publicada em 03 jan. 2021. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020/12/30/eps/1609327975_051296.html.
[6] GONZÁLEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. In: Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos / organização de Flávia Rios e Márcia Lima. 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2020, p. 140.
[7] BUNNY, Bad. DtMF. Música. Lançada em 05 jan. 2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=v9T_MGfzq7I.