Notícias
ARTIGO
Mulheres, ciência e políticas públicas: o papel do Estado na inovação inclusiva
O 11 de fevereiro foi instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas para reconhecer o importante papel das mulheres e das meninas na ciência e na tecnologia. Implementado pela UNESCO e pela ONU-mulheres[1], a data propicia um espaço oportuno para refletirmos sobre a presença feminina nas carreiras científicas e sobre a promoção de uma inovação verdadeiramente inclusiva.
As áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM[2]) devem estar atentas para a necessidade de igualdade de gênero, em especial para dar destaque e visibilidade a mulheres. Monumentos celebram em geral nomes masculinos, a exemplo da Torre Eiffel que, desde a sua construção, tem gravados em sua estrutura os nomes de 72 homens cientistas e engenheiros. Entre as pesquisadoras relegadas ao esquecimento está o nome da matemática Sophie Germain (1776-1831), “a esquecida da Torre Eiffel”, cujos estudos foram determinantes para os cálculos estruturais do prédio[3].
Por essa razão, a recente decisão da Prefeitura de Paris de incluir nomes de mulheres cientistas na Torre Eiffel representa importante gesto simbólico de reparação histórica e de correção de invisibilidades. Entre os 72 novos nomes que serão inscritos no primeiro andar da Torre está os de Marie Curie (1867-1934), única a receber dois prêmios Nobel em áreas científicas diferentes.
O Brasil apresenta dados interessantes nessa temática. Artigo publicado por Fernanda De Negri, pesquisadora do Centro de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Sociedade do IPEA, aponta que aproximadamente 54% dos doutorandos no país são mulheres, número semelhante ao de países desenvolvidos, como os Estados Unidos, onde 53% dos diplomas de doutorado concedidos em 2017 foram para mulheres. Trata-se de um número expressivo, que demonstra o protagonismo feminino na produção de conhecimento.[4]
Exemplo na ciência brasileira ocorreu em 2025, quando a microbiologista Mariangela Hungria, da Embrapa Soja, foi a primeira brasileira a receber o World Food Prize, considerado o “Nobel da Agricultura”. Suas pesquisas possibilitaram a fixação biológica de nitrogênio e tratamentos biológicos de sementes e solo que aumentaram a produtividade agrícola de forma sustentável, reduziram a dependência de fertilizantes químicos e promoveram a segurança alimentar global. A trajetória de Mariangela inspira outras mulheres e meninas a seguir carreiras nas ciências exatas e aplicadas.[5]
Entretanto, há uma realidade ainda preocupante. Convivemos com muitas mulheres na base da carreira acadêmica e científica, mas poucas conseguem alcançar postos de chefia, coordenação e liderança. Conciliar maternidade e carreira científica, em uma desigual distribuição das responsabilidades de cuidado, produz efeitos concretos sobre trajetórias profissionais femininas. Acresçam-se barreiras culturais institucionais que prejudicam escolhas e diminuem oportunidades concretas na profissão, com piora significativa para mulheres negras.
Assédio e silenciamento são experiências que geram invisibilidade, apagamento e exclusão de espaços decisórios, com efeitos nefastos não apenas em trajetórias individuais, mas especialmente na promoção de uma sociedade mais justa, igualitária e inovadora. Diversidade de olhares é o que impulsiona mudanças e legitima progressos.
Algumas iniciativas institucionais têm buscado enfrentar esse cenário. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), lançou em 2025 o Prêmio Mulheres e Ciência, um passo importante para valorizar trajetórias femininas e promover a equidade de gênero.[6]
A promoção da igualdade de gênero na ciência integra a Agenda 2030 da ONU, especialmente o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5 (ODS 5), que busca eliminar estereótipos e discriminações desde a infância[7]. Reconhecer que ciência, inovação e desenvolvimento sustentável dependem de diversidade, pluralidade de perspectivas e justiça institucional é tema de Estado, de democracia e de desenvolvimento.
Celebrar o 11 de fevereiro é, portanto, um convite à ação, para que possamos refletir sobre reconhecer talentos e distribuir oportunidades, para garantir a participação efetiva de mulheres na ciência, na política, na economia e na vida pública.
[1] UNESCO. Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. UNESCO, 2026. Disponível em https://www.unesco.org/pt/days/women-girls-science#:~:text=Em%2022%20de%20dezembro%20de,o%20desenvolvimento%20e%20a%20paz. Acesso em 09/02/2026.
[2] STEM é o acrônimo em inglês para Science, Technology, Engineering and Mathematics (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática)
[3] PARIS homenageia cientistas mulheres com inscrição de seus nomes na Torre Eiffel. IstoÉ Mulher, [s.l.], 2026. Disponível em https://mulher.istoe.com.br/paris-homenageia-cientistas-mulheres-com-inscricao-de-seus-nomes-na-torre-eiffel#:~:text=Denise%20Albe%2DFessard%2C%20Yvette%20Amice,Henriette%20Delamarre%2C%20Georgette%20D%C3%A9librias%2C%20Nathalie. Acesso em 09/02/2026.
[4] DE NEGRI, Fernanda. Mulheres na ciência no Brasil: ainda invisíveis? Ipea — Centro de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Sociedade, 05 mar. 2020. Atualizado em 02 set. 2021. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/cts/pt/central-de-conteudo/artigos/artigos/177-mulheres-na-ciencia-no-brasil-ainda-invisiveis. Acesso em: 9 fev. 2026
[5] MULHERES NA CIÊNCIA: Pesquisadora Mariangela Hungria é a primeira brasileira agraciada com o “Nobel da Agricultura”. Publicado em 15/05/2025. Disponível em https://www.gov.br/mulheres/pt-br/central-de-conteudos/noticias/2025/maio/pesquisadora-mariangela-hungria-e-a-primeira-brasileira-agraciada-com-o-201cnobel-da-agricultura201d?utm_source=chatgpt.com, acesso em 05/02/2026
[6] MCTI promove diversidade de gênero na ciência com incentivos a mulheres pesquisadoras. Publicado em 08/01/2026. Disponível em: https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/noticias/2026/01/mcti-promove-diversidade-de-genero-na-ciencia-com-incentivos-a-mulheres-pesquisadoras. Acesso em 09/02/2026.
[7] Disponível em https://gtagenda2030.org.br/ods/. Acesso em 09/02/2026.