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Discurso da Secretária-Geral na abertura do evento “As Novas Dinâmicas do Multilateralismo: Desafios e Oportunidades” - Brasília, 19 de agosto de 2025
Caras e Caros participantes,
Nunca foi tão urgente a necessidade de reformular as estruturas de governança global. Concebidas a partir da década de 1940, elas já não refletem plenamente a realidade internacional e se mostram incapazes de responder, com eficácia, aos desafios contemporâneos da humanidade.
A crise do multilateralismo é ampla e profunda: manifesta-se na incapacidade das Nações Unidas de assegurar a paz e a segurança internacionais; na dificuldade de implementar, de maneira efetiva, a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável; na paralisia da Organização Mundial do Comércio; e na ineficiência das instituições financeiras internacionais em atender às demandas urgentes dos países em desenvolvimento.
Como tem reiterado o Presidente Lula, a resposta à crise do multilateralismo está em mais e melhor multilateralismo. Fora desse marco, restam apenas a força bruta e a imposição unilateral do poderio de alguns. Esta desordem prejudica especialmente os países em desenvolvimento.
Diante desse quadro, o Brasil reafirma e aprofunda sua aposta na renovação do multilateralismo como instrumento essencial para a construção de uma ordem internacional pacífica, democrática, regida pelo Direito Internacional e capaz de promover o desenvolvimento sustentável e o combate às desigualdades em todas as suas dimensões.
Há muito insistimos na necessidade de construção de uma ordem internacional inclusiva, em que os países em desenvolvimento tenham voz e voto efetivos e possam reivindicar, não apenas participação na tomada de decisões, mas condições reais de implementação do seu direito ao desenvolvimento.
O pragmatismo responsável, a atitude universalista e o diálogo respeitoso são pilares inalienáveis da política externa brasileira e orientam nossa ação em favor da renovação da governança global. Em um contexto em que os retrocessos teimam em querer avançar, esses princípios se mostram ainda mais relevantes.
A multipolaridade é uma realidade incontornável do século XXI. Nesse cenário, um multilateralismo renovado torna-se imprescindível. Mas para ser eficaz, esse novo multilateralismo precisa estar enraizado nos princípios e valores da Carta da ONU e ancorado no Direito Internacional.
Em meio a esses desafios, o Sul Global tem papel fundamental a desempenhar nessa empreitada. Aprimorar a influência e a representatividade do mundo em desenvolvimento numa nova governança internacional é não só um imperativo moral, mas uma garantia de legitimidade e estabilidade. Não há paz nem independência sem reconhecimento e respeito à diversidade.
O Brasil tem buscado utilizar o seu capital diplomático para dar passos concretos rumo à reforma nas estruturas de governança. A presidência brasileira do Fórum de Diálogo Índia-Brasil-África do Sul (IBAS), em 2023, buscou fortalecer uma agenda estratégica entre três grandes democracias e sociedades multiétnicas do Sul Global. Além do fortalecimento do Fundo IBAS, a articulação política resultou em posicionamentos coordenados em prol de uma ordem internacional mais representativa e inclusiva.
No mesmo espírito, o Brasil soube usar sua presidência de turno do G20, em 2024 para recolocar o combate às desigualdades e a reforma das instituições de governança global no centro da agenda internacional. Em um ambiente até então marcado por impasses aparentemente insuperáveis, a retomada de declarações consensuais na maioria dos grupos de trabalho foi um êxito diplomático expressivo. A presidência brasileira do G20, hoje principal fórum de cooperação econômica e relevante instância de concertação política, demonstrou que é possível avançar mesmo em contextos adversos.
Entre os principais resultados da presidência brasileira, além da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e da Mobilização Global contra a Mudança do Clima, gostaria de mencionar o “Chamado à Ação sobre a Reforma da Governança Global”. Aprovado com o endosso de cerca de quarenta países, o “Chamado” estruturou-se em três eixos estratégicos: (1) eliminação do caráter regressivo da arquitetura financeira internacional, que penaliza e dificulta a obtenção de financiamento por parte dos países em desenvolvimento; (2) revitalização do sistema internacional de comércio; e (3) ampla reforma da ONU, abrangendo não apenas o Conselho de Segurança, mas também a Assembleia Geral e o Conselho Econômico e Social.
Pela primeira vez, o G20 levou seu debate sobre a reforma da governança global à própria sede das Nações Unidas, reforçando a necessidade de convergência entre fóruns plurais e o sistema multilateral.
Em 2025, o Brasil preside o BRICS, fortalecido pela recente ampliação de seus membros. Longe de ser um agrupamento antissistema, trata-se de plataforma estratégica para promover a cooperação entre países emergentes. Nas palavras do Ministro Mauro Vieira, o BRICS deve muito ao G77 e ao Movimento Não Alinhado. É herdeiro da luta por uma Nova Ordem Econômica Internacional e da elaboração dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. É hoje o maior símbolo da formação de uma efetiva multipolaridade.
Ao longo da sua trajetória, o BRICS vem acumulando um patrimônio de ações e soluções criativas para os desafios do mundo em desenvolvimento. A criação do Novo Banco de Desenvolvimento, em 2014, é um dos principais exemplos. Com governança assentada na igualdade de voto, o NDB foi pensado para ser bem-sucedido onde as instituições de Bretton Woods falham. Onze anos depois, o grupo segue buscando que o sistema financeiro internacional reflita um mundo multipolar, por meio da criação de meios de pagamento alternativo para transações entre seus membros.
Sob o lema “Fortalecendo a Cooperação do Sul Global para uma Governança mais Inclusiva e Sustentável”, a presidência brasileira do BRICS concentrou-se em promover uma agenda capaz de traduzir a pluralidade econômica, geográfica e política do século XXI e avanços concretos para a reforma da governança internacional.
Diante do unilateralismo de grandes potências, o BRICS tem sido voz firme em defesa do multilateralismo, complementando e reforçando as ações do Brasil no IBAS e no G20. Essa atuação articulada demonstra a coerência da diplomacia brasileira em unir potências estabelecidas e emergentes, construir pontes entre diferentes regiões e transformar consensos políticos em reformas efetivas.
Nosso objetivo é claro: uma ordem internacional mais equilibrada, eficaz e representativa, capaz de responder às urgências do nosso tempo e garantir que a multipolaridade se converta em cooperação e desenvolvimento compartilhado — e não em fragmentação e conflito.
Além da reforma das estruturas de governança internacional, o maior desafio da atualidade é a emergência climática. Reduzir emissões de gases de efeito estufa e aumentar a resiliência são prioridades urgentes para todos. Essa agenda ocupa posição central na diplomacia brasileira, sobretudo em 2025, ano da COP30 da Convenção do Clima, que ocorrerá em Belém, no coração da Amazônia.
A COP30 será oportunidade estratégica para promover soluções concretas e restaurar a confiança no regime climático internacional. O Brasil está convencido de que é possível conciliar crescimento econômico, combate à pobreza e ação climática. Nesse sentido, apresentou sua nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), com metas ambiciosas de redução de emissões para todos os setores e gases. Lançou também um Plano de Transformação Ecológica, concebido para orientar uma reestruturação econômica capaz de responder à emergência ambiental e promover um modelo de desenvolvimento industrial que una prosperidade, justiça social e liderança climática.
O Brasil confia em que os países desenvolvidos não fugirão às suas responsabilidades históricas e anteciparão suas metas de neutralidade climática de 2050 para 2040. Para os países em desenvolvimento, esperamos que considerem adotar metas absolutas de redução de emissões que cubram toda a economia. É preciso reunir esforços para a implementação do objetivo comum de limitar o aquecimento global a 1,5°C.
Sabemos que as transições energética e digital, se conduzidas de forma justa e inclusiva, podem internalizar etapas de maior valor agregado nas cadeias globais de produção, fortalecendo a segurança energética e beneficiando economias e sociedades locais.
No entanto, os países em desenvolvimento são os que mais sofrem com os impactos das mudanças climáticas e os que menos recursos possuem para financiar a transição ecológica necessária à reversão da crise.
Além da transferência de tecnologia e de estratégias coordenadas de industrialização verde que permitam agregar valor à produção e gerar emprego e renda nos países em desenvolvimento, é crucial enfrentar o desafio do financiamento climático.
É imperativo que os países desenvolvidos, em especial os membros do G7, viabilizem a implementação da nova meta global de financiamento, restabelecendo a confiança no regime multilateral do clima. Além disso, faz-se necessário fortalecer os bancos multilaterais de desenvolvimento, com desembolsos efetivos de recursos para as áreas de mitigação e adaptação.
Quero destacar, ainda, a proposta brasileira de criação do Tropical Forests Forever Facility (TFFF). Trata-se de um mecanismo inovador de financiamento de longo prazo destinado a reconhecer e recompensar os serviços ecossistêmicos prestados pelas florestas em pé e que deverá ser lançado na COP30.
Senhoras e Senhores,
Estabilidade, paz e desenvolvimento são indissociáveis. No cenário atual, essa interdependência nunca esteve tão evidente.
Precisamos eliminar a palavra “retrocesso” de nossos dicionários. Precisamos de uma paz duradoura para concentrarmos nossos esforços na reversão da crise climática. Precisamos de condições para implementar os objetivos do desenvolvimento sustentável e o combate às desigualdades em todas as suas dimensões.
Não podemos aceitar inertes que o aumento vertiginoso do financiamento da indústria bélica por países desenvolvidos drene recursos que poderiam ser direcionados para a cooperação internacional e a transição ecológica, especialmente nos países em desenvolvimento.
Não podemos, igualmente, ceder a atitudes voluntaristas de grandes potências em flagrante desrespeito às regras multilateralmente acordadas e à igualdade soberana dos Estados.
Formar coalizões progressistas em meio à crescente fragmentação econômica e geopolítica não é apenas uma possibilidade — é uma necessidade histórica. Cabe aos países em desenvolvimento liderar, com coragem e visão, a construção de consensos capazes de unir agendas de paz, justiça social, sustentabilidade, direitos humanos e desenvolvimento inclusivo.
O Brasil acredita que essa liderança se exerce pelo diálogo, pela cooperação e pela defesa intransigente do multilateralismo. É assim que transformaremos a diversidade de vozes do Sul Global em força política capaz de reformar as estruturas internacionais, conferindo-lhes maior legitimidade e oferecendo soluções concretas para os desafios do nosso tempo.
O Brasil está consciente do seu papel e seguirá atuando pela construção de uma ordem internacional mais democrática e pacífica.
Desejo um excelente evento a todas e todos.
Muito obrigada