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Declaração do presidente Lula à imprensa, no Palácio do Eliseu, em Paris - 5/6/2025
Bem, meus amigos da imprensa, minhas amigas, meu caro presidente Emmanuel Macron, eu quero primeiro lhe agradecer pela boa acolhida à minha delegação. Desta vez, eu vim à França numa visita de estado para discutir problemas importantes que merecem parceria e soluções rápidas entre Brasil e França.
Viaja comigo, além do meu chanceler, Mauro Vieira, meu ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, que tem todo interesse em compartilhar com a França o combate ao garimpo ilegal na região da Amazônia, entre Panamá e Guiana.
O meu ministro Silvio Costa [ministro de Portos e Aeroportos], que tem todo o interesse em reabrir discussões e negociações com os franceses na área de portos e aeroportos. Minha companheira Margareth Menezes [ministra da Cultura], que está entusiasmada com essa agenda cultural entre Brasil e França. O nosso querido Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, que tem muita contribuição para discutir com os empresários que investem em energia no Brasil.
E a minha querida companheira Marina Silva [ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima], que tem muito a discutir sobre as questões climáticas, desde o cumprimento do Acordo de Paris até a novidade que é o financiamento para que a gente possa atingir as metas determinadas no Acordo de Paris, de um grau e meio. Também o nosso companheiro Márcio [Márcio Rosa, secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio], ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, para discutir e aperfeiçoar a questão do Acordo Mercosul e União Europeia. Além disso, veio um conjunto de deputados, um conjunto de senadores, fazer essa viagem comigo.
O presidente Macron recebeu minha comitiva com a hospitalidade que somente um grande amigo pode oferecer. Esta visita de Estado é a primeira que um mandatário brasileiro faz à França em 13 anos. Algumas vertentes do relacionamento bilateral se enfraqueceram nesse período, como o diálogo político e o comércio.
O primeiro passo para mudar essa realidade foi a visita histórica do presidente Macron ao Brasil, no ano passado. Minha presença aqui em Paris consolida essa reaproximação.
Não poderia haver dia mais simbólico para realizar esse propósito. Hoje, 5 de junho, celebramos o Dia Mundial do Meio Ambiente.
Na reunião que tivemos esta manhã, discutimos ampla agenda bilateral. Passamos em revista os avanços na implementação do Plano de Ação firmado em 2024. Os mais de 20 instrumentos assinados hoje refletem a diversidade e a densidade da nossa relação.
O Brasil desenvolveu com a França importantes projetos bilaterais em áreas de ponta, como o Satélite Geoestacionário de Comunicações e o supercomputador Santos Dumont.
O Programa de Desenvolvimento de Submarinos é a maior iniciativa de cooperação em defesa já empreendido entre os dois países. Seu legado é o de garantir a soberania brasileira sobre nosso vasto espaço marítimo, além de construir um dos estaleiros mais modernos no mundo em Itaguaí, no Rio de Janeiro.
Queremos lançar uma nova etapa na parceria que trouxe para Itajubá, Minas Gerais, a única fábrica de helicópteros do Hemisfério Sul. Estamos discutindo uma nova encomenda de aeronaves para dotar o governo brasileiro de meios para combater a criminalidade e enfrentar desastres naturais de forma mais eficaz.
Como vizinhos que compartilham extensa fronteira amazônica, apostamos nos benefícios da integração. Aqui é importante, presidente Macron, que o povo francês saiba que a maior fronteira da França com qualquer outro país não se dá na Europa, apesar de a França ser um país europeu. Se dá com a América do Sul e, dentro da América do Sul, com o Brasil.
E, portanto, eu tenho teimado em dizer que a França deveria ter orgulho de dizer que a maior fronteira dela com qualquer país do mundo é no território amazônico. É importante que o povo francês saiba que a França deveria estar para a América do Sul como está para a Europa. Porque a França é também sul-americana.
Bem, queremos lançar uma nova etapa na parceria que trouxe para Itajubá a nossa fábrica de avião, que eu já tive o prazer de visitar, que já produzimos 50 helicópteros lá e temos condições de atender não apenas uma demanda para as necessidades brasileiras, mas produzir helicópteros para toda a América Latina e América do Sul.
Estamos discutindo a nova encomenda de aeronaves, porque o governo brasileiro precisa combater de forma muito eficaz o narcotráfico. Precisa combater com mais eficácia o garimpo ilegal, precisa combater com mais eficácia os madeireiros ilegais e precisa combater com mais eficácia tudo o que for ilícito no nosso país.
E um território como o Brasil, que tem a floresta que nós temos, não pode se dar ao luxo de não ter a quantidade de helicópteros necessária para que a gente faça o nosso trabalho bem feito.
Como vizinhos que compartilham a extensa fronteira amazônica, apostamos nos benefícios da integração. O Centro Franco-Brasileiro da Biodiversidade Amazônica, que reativamos em 2024, vai financiar pesquisas conjuntas ainda este ano.
O fim do regime diferenciado de vistos é um pleito de longa data para facilitar o trânsito regular de pessoas entre o Amapá e a Guiana Francesa. Isso promoverá o turismo e o comércio das comunidades transfronteiriças.
Integrar também implica coordenar para combater o tráfico, o garimpo ilegal e o desmatamento. Esse é o espírito do Acordo assinado hoje pela Polícia Federal e sua contraparte francesa.
A luta contra o crime organizado também motiva minha visita à sede da Interpol, em Lyon, que pela primeira vez é dirigida por um brasileiro. A organização é chave nos esforços multilaterais para o enfrentamento a ilícitos transnacionais, em especial o narcotráfico e a exploração de crianças e adolescentes.
Ressaltei ao presidente Macron que o intercâmbio bilateral não condiz com a envergadura de nossa Parceria Estratégica. No plano comercial, não é possível que os valores registrados em 2024 (9 bilhões de dólares) sejam inferiores aos observados em 2012.
Significa que no comércio nós demos um passo atrás e é preciso agora dar dois passos à frente, como se estivesse dançando um bom bolero latino-americano.
O evento empresarial que realizaremos amanhã é um passo para corrigir isso, e atrair mais investimentos e integrar cadeias produtivas. Portanto, os meus ministros que vão falar amanhã, não façam discurso para os brasileiros que estão aqui, façam discurso para os franceses. Portanto, exijam que os tradutores decidam cada palavra que vocês vão falar, porque é muito importante que eles entendam o que nós queremos.
Expus ao presidente Macron minha convicção sobre o papel estratégico da parceria entre o Mercosul e a União Europeia. E quero afirmar na frente da imprensa brasileira e francesa que eu assumirei a presidência do Mercosul no próximo dia 6. E, ao assumir a presidência, o mandato é de seis meses, e eu quero lhe comunicar que não deixarei a presidência do Mercosul sem concluir o acordo com a União Europeia.
Portanto, meu caro, abra o seu coração para a possibilidade de fazer esse acordo com o nosso querido Mercosul. Esta é a melhor resposta que nossas regiões podem dar diante do cenário de incertezas criado pelo retorno do unilateralismo e protecionismo tarifário.
Defender o regime multilateral do clima é outra prioridade compartilhada. A COP30 marca os dez anos do Acordo de Paris e aproxima França e Brasil no combate ao aquecimento global.
Firmamos hoje dois atos que fortalecerão a cooperação em matéria de hidrogênio de baixo carbono e de descarbonização do setor marítimo. Minha participação na Conferência das Nações Unidas sobre o Oceano, em Nice, ressaltará a importância dos mares como reguladores climáticos e fontes de biodiversidade.
Os biomas marítimos demandam o mesmo nível de atenção e de compromisso que as florestas tropicais. É chegada a hora de cumprir as promessas que fizemos para o planeta e para as futuras gerações.
Até novembro, todos os países deverão apresentar suas novas Contribuições Nacionalmente Determinadas, as famosas NDCs, com metas de redução de emissões de carbono até 2035.
O Brasil está comprometido com a redução entre 59% e 67% de emissões, abrangendo todos os gases de efeito estufa e todos os setores da economia. Não é uma tarefa fácil, mas ninguém pediu para a gente assumir essa responsabilidade. Nós assumimos por interesse e compromisso do governo de que se a gente não tiver uma meta ambiciosa, a gente não trabalha de forma eficaz para concluir aquilo que nós mesmos nos comprometemos.
Sem mobilizar 1,3 trilhão de dólares para o enfrentamento da mudança do clima, corremos o risco de criar um apartheid climático. Eu estou lembrado, Macron, porque eu estava na COP15, na Dinamarca, quando os países mais desenvolvidos prometeram uma contribuição financeira de 100 bilhões de dólares para ajudar os países que ainda têm floresta em pé a mantê-las em pé.
Porque é importante a gente dizer sempre, sempre, que embaixo de cada árvore deve ter um índio, deve ter um indígena, deve ter um pescador, deve ter um extrativista, deve ter um seringueiro, deve ter um pequeno produtor rural.
E que é importante a gente garantir a essa gente o direito de se manter na floresta vivendo com o mínimo de qualidade de vida. Daí porque é preciso que haja os recursos do país desenvolvido. E a França não pode entrar na partilha desse dinheiro por causa da Guiana Francesa, porque a Guiana Francesa está na parte mais pobre do mundo, mas a França está na parte mais rica do mundo.
Então a França não é receptora, a França tem que ser doadora desse dinheiro. É assim que eu compreendo a França.
As Nações Unidas completam 80 anos padecendo de grave déficit de legitimidade e eficácia. A guerras da Ucrânia e em Gaza, a situação no Haiti e tantas outras crises esquecidas demonstram que a reforma do Conselho de Segurança da ONU é inadiável.
Como disse o presidente Macron recentemente, reconhecer o Estado Palestino é um dever moral e uma exigência política de todos os governantes do mundo. O Brasil foi um dos primeiros países na América Latina a fazê-lo. Todos esses conflitos consomem recursos valiosos para o desenvolvimento.
A Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada pelo Brasil no âmbito do G20, no ano passado, quer inverter essa lógica e voltar a colocar a vida humana no centro da agenda internacional.
Sei que podemos contar com a França. Em 2025, completamos 200 anos de relações bilaterais com o olhar voltado para o futuro. Essa construção conjunta passa pelo aprofundamento dos laços e do intercâmbio entre nossas sociedades.
Esse é o propósito da atualização do Acordo de Cooperação Cultural assinada pela minha ministra Margareth Menezes. É, também, o espírito das centenas de eventos que ocorrem na França e no Brasil, desde abril, no âmbito das Jornadas Culturais Cruzadas, que o presidente Macron e eu decidimos lançar no ano passado.
Caro amigo Macron,
Esta data, também é um triste marco para os que lutam pelo meio ambiente e os povos indígenas. Há três anos, Bruno Pereira e Dom Phillips, dois gigantes na defesa da Amazônia, foram covardemente assassinados.
O Brasil e a UNESCO decidiram homenageá-los batizando com seus nomes as bolsas de jornalismo investigativo sobre integridade da informação e mudança do clima.
Há duas semanas perdemos o genial Sebastião Salgado, um dos maiores fotógrafos do mundo. Sua câmera retratou o sofrimento dos oprimidos e serviu como a consciência de toda a humanidade.
A melhor maneira de honrá-los é garantir que suas lutas não foram em vão e assegurar que permaneceremos firmes na defesa da democracia, da paz e do desenvolvimento sustentável.
Meu caro amigo Macron, eu estou convencido que Brasil e França precisam cada vez mais estarem muito juntos para que a gente possa continuar defendendo três coisas sagradas: a democracia, o multilateralismo e o livre comércio. Não é possível destruir coisas que foram construídas com muita força depois da Segunda Guerra Mundial e tentar voltar ao protecionismo, unilateralismo e a fraqueza da democracia que estamos vivendo hoje no mundo.
É impressionante o crescimento do negacionismo, do radicalismo de extrema direita, que não reconhece as instituições, que não reconhece a verdade e que estão ganhando espaço no mundo inteiro, combatendo instituições que são a razão pela qual a gente ainda tem a existência do regime democrático nos países. Portanto, defender a democracia não é uma coisa pequena, é uma coisa importante e é possivelmente a coisa mais importante que a gente tem que fazer.
E a outra é não permitir o fim do multilateralismo, que a França sabe o que isso significa. Eu sempre digo que a União Europeia, quando ela construiu um parlamento, quando ela construiu um Banco Central, quando ela construiu uma moeda, quando ela construiu as comissões que a representam, a União Europeia passa para mim uma espécie de patrimônio universal da democracia. E eu acho que é isso que a gente tem que garantir e a gente não pode permitir que, em nenhum momento, a gente possa vacilar em defesa dessas coisas que são sagradas para a boa sobrevivência da humanidade.
Por isso, muito obrigado, querido. Muito obrigado.