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Perguntas respondidas durante conferência de imprensa com o Presidente dos Estados Unidos da América - Camp David, EUA - 31 de março de 2007
Jornalista Luiz Fernando Silva Pinto – TV Globo: A boa vontade entre os senhores é evidente. Presidente Lula, é evidente também o empenho em avançar a Rodada de Doha. Se a Rodada de Doha não tiver sucesso, o Brasil tem um plano “B”? E, Presidente Bush, o que impede ou o que impediria os Estados Unidos de terem um acordo bilateral de comércio com o Brasil?
Presidente Lula: Bem, eu tenho dito para todos os chefes de Estado para quem eu tenho ligado, ao Presidente Bush, ao Tony Blair, à Chanceler Angela Merkel, ao Primeiro-Ministro Prodi, ao Presidente Chirac. A todos com quem eu tenho conversado eu tenho dito que a Rodada de Doha não é importante para o Brasil, não é importante para os Estados Unidos, ela é importante para que possamos garantir a esperança no mundo e, sobretudo, a certeza de que teremos mais paz no mundo. O Brasil é um país competitivo na agricultura. O Brasil hoje exporta muito e 50% das suas exportações são semimanufaturados e, portanto, nós temos condições de competitividade.
O Presidente Bush sabe, eu sei, e acho que todos os líderes sabem que quando falamos em acordo na OMC, e estamos empenhados no acordo da Rodada de Doha, nós estamos trabalhando, sobretudo, para que os países mais pobres tenham uma chance. Obviamente, nossa relação poderá melhorar quando o Brasil tomar decisões sobre produtos industriais e no setor de serviços; poderá melhorar quando os Estados Unidos tomarem posição sobre que tipo de subsídio vai ser reduzido; ou quando a União Européia disser se vai aceitar ou não a redução dos produtos agrícolas para que os mercados dos países pobres possam vender a eles.
Se não houver um acordo, o Brasil vai continuar no caminho que está, trabalhando, produzindo mais, vendendo e também comprando. Mas, certamente, os que sofrerão mais serão aqueles que não têm sequer a oportunidade de participar das reuniões de que outros países têm poder de participar.
Eu disse que saio daqui satisfeito porque essa foi uma reunião extremamente produtiva, porque ouvi a intenção do governo norte- americano sobre o assunto. A nossa é total. E eu penso que se trabalharmos, Brasil e Estados Unidos, no convencimento dos nossos parceiros europeus, a gente pode chegar a um acordo. Acho que nesse caso não existe plano “B”; ou é plano “A” ou não tem acordo. E se não tiver acordo, certamente não teremos vencedores e perdedores – todos serão perdedores. Os ricos, porque serão responsáveis pelo que vai acontecer no mundo mais pobre.
Jornalista: (Pergunta Inaudível)
Presidente Lula: Acredito que estejamos de acordo com relação às políticas que temos que fazer para cuidar melhor do meio ambiente. Portanto, na discussão das questões climáticas, temos interesses comuns. O problema é saber quando e como fazer. No caso do Brasil, já temos 25% de etanol, ou melhor, 23% de etanol na gasolina há muito tempo. Agora temos o carro flex-fuel, que é um carro que pode utilizar 100% de gasolina, 100% de etanol, 50% de gasolina, 50% de etanol. Portanto, é o caminho de começarmos a despoluir. Depois, não é apenas a questão do etanol ou do biocombustivel, é a questão da energia elétrica. É preciso que tenhamos a responsabilidade de não fazer termoelétricas a carvão, por exemplo, que poluem de forma excepcional o planeta. Que as empresas invistam mais na diminuição da emissão de gases.
O dado concreto é que o problema da questão climática hoje é como se fosse uma doença grave, ela não tem setor social específico, ela não tem país, ela vai atingir o planeta como um todo, e nós não temos para onde ir. Não conseguimos chegar a Marte, a Lua não é apropriada para a gente morar. Portanto, ou nós cuidamos da Terra com o carinho que nós cuidamos de um filho nosso ou todos iremos nos arrepender. Possivelmente, quem já esteja na minha idade não, com 61 anos. Mas eu tenho netos e quero ter bisnetos, e eu quero que eles tenham orgulho de o seu avô ter construído para eles um mundo melhor do que aquele que eu recebi do meu pai.
Então, penso que todos nós vamos nos colocar de acordo de que é preciso muito mais responsabilidade nas discussões das questões climáticas do que nós tivemos até hoje. O mal está na nossa frente, estamos enxergando e sentindo. Portanto, não temos mais como virar as costas.
Jornalista Ricardo Baltazar – Valor Econômico: O governo dos Estados Unidos, nas últimas semanas, tem manifestado muita preocupação com os investimentos de algumas companhias estrangeiras do setor de petróleo no Irã. Nesta semana, o embaixador americano no Brasil deixou bastante claro que essa preocupação se estende aos investimentos que a Petrobras tem feito no Irã, que a Petrobras considera estratégicos. Eu perguntaria ao Presidente Lula se, na sua avaliação, a Petrobras deve continuar fazendo negócios no Irã, ou deve se afastar, como os Estados Unidos gostariam. E eu gostaria de perguntar ao Presidente Bush por que os Estados Unidos querem que a Petrobras se afaste do Irã, se o país tem cumprido todas as sanções aprovadas pelas Nações Unidas.
Presidente Lula: Eu estou convencido de que a Petrobras vai continuar investindo e pesquisando no Irã. O Irã tem sido um parceiro comercial importante do Brasil, eles nos compram mais de 1 bilhão de dólares e não nos vendem quase nada.
Eu sou defensor de que o comércio justo é aquele comércio em que você compra e vende, você vende e compra. Não pode só vender. E, depois, tem os problemas políticos dentro de cada país. Mas, até agora, o Irã não tem sido vítima de nenhuma sanção proposta pelas Nações Unidas. Eu sei que tem divergência política entre o Irã e outros países. Com o Brasil, não tem nenhuma divergência política e, portanto, vamos continuar trabalhando junto com o Irã naquilo que for de interesse do Brasil. Não vejo nenhum problema para ser diferente.