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Entrevista concedida durante visita de Estado à Argélia (Argel, Argélia, 9.2.2006)
Jornalista: Agora, a presença do Brasil no Haiti é uma etapa cumprida com as eleições haitianas? Presidente: Até agora sim, mas é importante lembrar que o Brasil ainda precisa contribuir para que o Haiti consolide as suas instituições. Antes de conhecer o que tinha acontecido em Ruanda, é importante dizer isso, eu achava que o Brasil deveria, assim que tivesse as eleições, sair. Mas depois que eu vi as forças da ONU saírem de Ruanda e que aconteceu em Ruanda, uma carnificina que eu jamais imaginei que pudesse existir na humanidade, eu acho que o Brasil ainda pode dar sua contribuição. Obviamente que essa contribuição só poderá ser dada se o novo governo precisar. Se o novo governo disser para o Brasil: “olha, está na hora,” nós, tranqüilamente, viremos embora porque acho que cumprimos a nossa missão. Eu acho que o Brasil deu um exemplo de como é possível uma Força de Paz agir democraticamente, ganhar a confiança do povo, ganhar a confiança do governo, da comunidade internacional e, certamente, no dia em que os nossos soldados voltarem para Brasil, eles voltarão de cabeça erguida, com orgulho do dever cumprido.
Jornalista: Tem prazo?
Presidente: Não tem prazo.
Jornalista: Sobre a reunião do senhor na África do Sul. Como o senhor acha que pode avançar essa reunião na Rodada de Doha?
Presidente: Olha, a Rodada de Doha é uma Rodada que precisa de 500 reuniões, de muito convencimento. Isso é como uma pessoa que precisa vender um produto, ou seja, nós estamos vendendo a idéia de que o mundo comercial, de que a geografia comercial do mundo, precisa ser mudada em benefício dos países mais pobres. Estamos vendendo que é preciso dar uma chance aos países menos desenvolvidos para que possamos diminuir a violência, a pobreza e o terrorismo. Nós sabemos dos interesses de cada país, sabemos o que pesam os interesses dos subsídios nos países europeus, mas não vamos deixar de tentar convencê-los do contrário. E o Brasil, aos poucos, vai dando exemplos. Por isso, temos viajado muito para a África, por isso viajamos muito para aAmérica Latina porque, com pequenos gestos, queremos provar que o mundo poderia ser diferente, poderia ser muito melhor se os países ricos tivessem a compreensão de que somente o desenvolvimento é que vai permitir que o mundo viva em paz.
Jornalista: Mas chega uma hora em que destravar isso que está tão empacado realmente vai depender de Bush, de Chirac, de Lula, de Koizumi?
Presidente: Certamente que depende dos países ricos. Depende, de um lado, da pressão que nós tivermos competência de fazer. Eu acho que o G-20 é um instrumento extraordinário que foi criado, e o Brasil tem uma posição de destaque no G-20. Então, a organização dos países emergentes e pobres é uma força muito grande para que a gente possa sensibilizar politicamente os países ricos. Agora, sensibilizar do ponto de vista político e, também, uma pressão muito forte. Nós temos que fazer pressão. Não acho que o presidente Chirac vai ceder porque eu estou dizendo para ele que Guiné-Bissau está passando fome. Não acho que o presidente Bush vai ceder porque estou dizendo para ele que no Senegal tem problemas ou que no Brasil tem problemas, não. Eles vão ceder na hora em que eles perceberem que os interesses comerciais deles podem correr riscos se não atenderem a uma necessidade básica dos países pobres.
Quando, no Brasil, estamos dando ênfase à questão do biodiesel como uma nova matriz energética na área de combustível é porque compreendemos que o biocombustível será o combustível do planeta Terra, menos poluente, muito mais gerador de empregos e, sobretudo, vai favorecer os países pobres que têm mais terra, que têm mais gente para trabalhar. Ou seja, não imagino a mamona plantada nos países que têm seis meses de neve. Eu a imagino plantada nos países que têm terra árida, que têm seca. Então, estou trabalhando com essa hipótese e isso tem que ser instrumento de negociação. Eu não espero facilidade na mesa de negociação porque ninguém cede a ninguém.
Agora, também, não conheço, na história da humanidade, nenhum interlocutor que cedeu para interlocutor subserviente. Ninguém ganha nada se começar a negociar de cabeça baixa, lamentando: “eu sou pobre, não tenho nada, pelo amor de Deus me dê alguma coisinha.” Ninguém respeita isso. O que eles respeitam é se a gente entrar de cabeça erguida na negociações, dizer o que queremos, porque queremos, porque necessitamos e aí, sim, nós vamos ser respeitados. Por isso eu sou um otimista.
Jornalista: Não tem que ter o ônus de dizer não a essa reunião para eles, que é de deixar claro que se essa reunião não existir é por que eles não quiseram?
Presidente: Temos que dizer isso, aliás eu tenho dito isso, tenho chamado o primeiro-ministro Tony Blair, o presidente Bush, o presidente Chirac, a chanceler alemã. Eu tenho conversado com eles sobre isso, eu tenho mostrado que é uma chance única que nós temos porque se não aproveitarmos esse momento de fazer uma boa negociação nós corremos o risco de ficar mais 30 anos nessa mesma situação.
O que tem acontecido? O que tem acontecido é que não temos notado o desenvolvimento por si só dos países mais pobres. Temos de alavancar isso, e um meio é reduzir o subsídio agrícola dos países ricos para que os pobres possam vender um pouco mais, que é onde os países pobres são mais competitivos. Não estou falando do Brasil, porque o Brasil tem grandeza tecnológica, tem conhecimento, o Brasil hoje exporta 30% de produtos manufaturado, vamos exportar mais, o Brasil é um país grande. O Brasil, historicamente, se tornou socialmente injusto por responsabilidade interna.
Agora, eu estou falando de países mais pobres que o Brasil, com menos condições que o Brasil, países da África, países da América Latina. Portanto, este é um papel que o Brasil pode cumprir, pode ajudar. Eu acho que a gente, na história da humanidade, muitas vezes você faz as coisas e você mesmo não ganha pelo que você fez, mas se os mais pobres ganharem, eu acho que o Brasil já está realizado.
Jornalista: Presidente, a gente entra na questão da força dos chefes de Estado e da questão do mandato, de que a gente falou agora há pouco. O senhor acredita que a extensão desse mandato e as reeleições são favoráveis para que esses acordos sejam fechados?
Presidente: Olha, tem duas coisas importantes. Primeiro, porque nas negociações eu acho que o papel dos nossos ministros e o papel dos negociadores tem uma hora que se chega a um limite, ou seja, quando não anda mais, entra o papel dos líderes políticos que têm que decidir.
Qual é o problema? E eu tenho tentado bater nessa tecla: é que muitas vezes os presidentes têm mandato com prazo determinado e muitas vezes eles estão mais preocupados com o seu tempo de governo do que com a política internacional, com os acordos internacionais.
Tenho tentado mostrar que a gente não deve se preocupar com o tempo da gente na Presidência porque política internacional e projeto estratégico são projetos de 20 anos, de 30 anos. Então, temos que pensar o seguinte: que mundo queremos para os próximos 30 anos, para os próximos 20 anos? É muito tempo para esperar? É. Mas se não começarmos a fazer agora, o que será da África daqui a 40 ou 50 anos? Então temos que dar o passo agora e esse é o momento porque é o momento da negociação, é o momento em que os países têm que abrir a sua mente e os seus corações, têm que abrir os seus cofres, têm que abrir seus conhecimentos tecnológicos e estender a mão ao mundo menos desenvolvido.
Jornalista: O que é prioridade, a OMC ou a ONU, Presidente?
Presidente: Veja, a prioridade é a OMC, neste momento. Agora, uma coisa não exclui a outra. Veja, a OMC no âmbito comercial, é extremamente importante e a ONU, no âmbito político, é extremamente importante. Não podemos continuar com uma instituição da importância das Nações Unidas sendo administrada pelos mesmos parâmetros que ela foi criada há 60 anos. A geografia mundial mudou, a política mudou, a economia mudou, a geografia mudou, já não tem mais a Guerra Fria. Portanto, a ONU tem que dar esse passo, ou seja, mais democracia na ONU, mais funcionamento dos organismos da ONU e mais representatividade na ONU. Por quê? Porque quanto mais representativa for a ONU, quando todos os continentes estiverem representados, quando as forças políticas estiverem representadas, as decisões da ONU serão cumpridas. Enquando não for, enquanto não tiver essa representatividade, toma-se uma decisão e as pessoas se acham no direito de dizer: “isso não vale para mim, isso só vale para os outros”. Então, o que eu quero, eu não quero para mim, eu quero para a humanidade. A ONU democrática será um bem para a humanidade.
Jornalista: Só para concluir, o senhor é a favor ou contra a reeleição, Presidente?
Presidente: Veja, eu tenho uma tese. Não vou discutir se sou contra ou a favor da reeleição. Eu tenho uma tese, não gostaria que no Brasil tivesse reeleição, mas existe reeleição. Então, vamos esperar. O Presidente da República não tem que ter pressa de eleição, tem que ter em conta que o Presidente da República tem que governar até o dia 31 de dezembro de 2006. Tenho muita coisa para fazer.
Tenho dito sempre o seguinte: plantamos muita coisa, estamos colhendo as coisas que plantamos. Estou confiante, estou tranqüilo. O Brasil tem forte possibilidade de crescimento econômico; poderemos ter um crescimento extraordinário na geração de empregos, na distribuição de renda. Os dados estão aí para todo mundo ver. Agora, não posso permitir que o nervosismo eleitoral faça com que o Presidente da República tire a cabeça do principal, que é a economia brasileira, o povo brasileiro e o desenvolvimento do Brasil.