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Entrevista concedida antes da I Sessão Plenária da Cúpula sobre Mercados Financeiros e Economia Mundial - Washington, 15/11/2008
Presidente: Primeiro, eu só vou poder falar com vocês a conclusão do encontro depois do encontro, mas eu penso que o jantar que tivemos ontem à noite, mais ou menos deu o tom do que vai ser a reunião de hoje. A posição do Brasil já está clara para o G-20, já está clara para o G-8, de que, primeiro, a melhor solução para evitar que a crise se alastre é os países ricos resolverem os seus problemas. É a primeira vez que os problemas não estão nos países pobres, estão nos países ricos.
Então, não adianta ficar procurando medidas paliativas, se não resolver os problemas crônicos da política econômica americana e da política econômica européia. Eles, resolvendo os problemas deles, todos nós estaremos tranqüilos e satisfeitos. No caso do Brasil, eu fiz questão de dizer que o sacrifício que nós fizemos nos últimos anos para manter a economia estável, para manter a economia crescendo, nós não vamos abdicar dessa finalidade de fazer o Brasil crescer. Todas as medidas que o Banco Central e que o Ministro da Fazenda têm tomado são no sentido de fazer com que o mercado interno supra parte dessa deficiência que vai ter no mercado externo, com a crise nos Estados Unidos e na União Européia.
Além disso, nós vamos tratar de criar as condições para irrigar o nosso sistema financeiro, e foi uma das coisas que eu disse aos países ricos, ou seja, até agora todo o dinheiro que foi colocado pelos países ricos não chegou à ponta ainda. É preciso que eles tratem de fazer com que esse dinheiro chegue à ponta para poder o mercado financeiro voltar a funcionar com uma certa normalidade. Outra coisa que nós consideramos importante, e eu fiz questão de dizer para eles, é a regulação do sistema financeiro. Eu disse ontem, na reunião, que a vida inteira, quando eu era metalúrgico, para comprar uma televisão, eu tinha que fazer 40 ou 60 horas extras por mês. Portanto, eu tinha que me matar de trabalhar.
Não é justo que alguém fique bilionário sem produzir uma única folha de papel, sem produzir um único emprego, sem produzir um único salário. Por isso, é preciso que tenha uma regulação séria do G-20 e, ao mesmo tempo, transformar o G-20 numa instância, porque o G-8 não tem mais razão de ser. É preciso levar em conta as economias emergentes no mundo globalizado de hoje. Se todos os presidentes estiverem de acordo com isso, e hoje nós vamos finalizar a reunião, eu penso que nós poderemos apontar para a Humanidade que essa crise vai ser debelada com mais rapidez do que se esperava.
Nós achamos que a situação americana é delicadíssima, até porque tem uma transição entre um presidente que vai sair e um presidente que vai entrar - é sempre muito complicado - mas eu acho que o presidente Bush tem que assumir a responsabilidade de que ele é o Presidente até o dia 20 de janeiro, e que não pode ter vacilações nessa questão do tratamento da crise. Da nossa parte, nós vamos continuar fazendo com que os países emergentes continuem a crescer, a gerarem os empregos necessários, porque o que pode acontecer de pior é que uma crise que começou por conta da especulação venha a causar problemas sérios no setor de produção dos países que tanto precisam crescer.
Jornalista: Há temor de que esses 10 mil empregos que estão desaparecendo na Europa, por dia, chegue ao Brasil?
Presidente: Se a crise se aprofundar e diminuírem as exportações, essa crise pode chegar a todos os países. Esse é o dado concreto. O que nós temos que suprir? O Brasil tem um potencial de mercado interno que um país desenvolvido não tem, porque ele já tem carro, já tem casa, já tem televisão. Nós poderemos facilitar que o povo brasileiro tenha acesso a esses bens que ainda não tem. Por isso é que nós vamos manter todos os investimentos do PAC, por isso é que nós vamos continuar trabalhando para facilitar a irrigação do nosso sistema financeiro, porque nós temos muito o que fazer no Brasil e nós não vamos parar.
Estejam certos de que nós não pararemos de fazer os investimentos que estão previstos, porque a economia brasileira pode não crescer tudo o que a gente queria que ela crescesse, mas ela não pode deixar de crescer porque o povo precisa trabalhar. Uma última pergunta porque eu estou atrasado, gente.
Jornalista: Uma ação imediata e concreta que o senhor espera que saia desta reunião.
Presidente: Primeiro, eu acho que o reconhecimento do G-20 como fórum para deliberar as grandes decisões que precisam para regular o sistema financeiro. Se nós conseguirmos fazer isso, já é uma coisa extremamente importante. Ontem, quando eu falei para o presidente Bush que os Estados Unidos tinham colocado 850 bilhões, ele me disse: “Não foram 850 bilhões, foi US$ 1 trilhão e 500 bilhões que nós já colocamos”. Acontece que, desse dinheiro, só 250 bilhões chegaram à ponta até agora. É preciso que o outro 1 bilhão e 250 milhões chegue à ponta, é preciso que o dinheiro que o Gordon Brown colocou no Reino Unido chegue à ponta, é preciso que o dinheiro que os bancos centrais europeus colocaram cheguem à ponta, para que a economia volte a fluir normalmente e o povo possa ter o direito de comprar as coisas que precisa comprar, para a indústria produzir, para o comércio vender e para a economia crescer. Até a volta.