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Entrevista coletiva após a reunião do Grupo Ampliado à margem da Cúpula do G- 8 - Berlim, 7 de junho de 2007
Presidente: Minha tese é muito simples. Hoje não se discute clima, não se discute comércio e não se discute qualquer assunto no mundo sem levar em conta países como o Brasil, China, Índia, México e África do Sul. É humanamente impossível, seja do ponto de vista político, seja do ponto de vista econômico.
Nós estamos notando avanços a cada reunião de que participamos. Eu, por exemplo, estou convencido de que a partir de amanhã nós precisamos começar a exigir uma participação mais efetiva, participando da elaboração dos documentos, para que os documentos saiam aquilo que a gente pensa também, para que não haja documentos paralelos, um do G-5, um do G-8, ou seja, que saia uma posição muito clara do que os principais países pensam sobre os principais temas do mundo.
Na questão climática, por exemplo, o Brasil está convencido de que a melhor solução para que a gente diminua o aquecimento global é respeitar as decisões dos órgãos multilaterais. Aceitar a tese de que não há uma decisão numa instância multilateral e que, portanto, o voluntarismo de cada país, sem metas e sem obrigações, vai resolver o problema? Não vai. Porque todos nós sabemos que os países ricos são responsáveis por 60% das emissões de gases do Planeta, e, portanto, eles precisam assumir a responsabilidade de que os países em desenvolvimento e os países mais pobres têm o direito de crescer como eles cresceram e, portanto, têm o direito de ter a mesma qualidade de vida que eles conquistaram.
Não aceitamos a idéia de que somente os países em desenvolvimento e os pobres tenham que fazer sacrifícios. No caso do Brasil, se quiserem discutir a questão climática com seriedade, é necessário olhar a questão dos biocombustíveis, e olhar com muito carinho. É saber claramente o que diminui mais a poluição, se é o aumento da tecnologia do motor ou se é a introdução dos biocombustíveis no motor desses carros. Até porque nós queremos combinar os avanços tecnológicos para diminuir as emissões de gases com a geração de empregos, e os biocombustíveis vão dar essa resposta de que tanto nós precisamos nos países em desenvolvimento.
Essa é uma questão que nós não abrimos mão de discutir, e discutir levando em conta que eles têm que fazer duas coisas: a primeira delas é assumir a responsabilidade de ajudar a despoluir o Planeta que eles poluíram. Os biocombustíveis significam que você vai plantar uma árvore, por menor que seja, e é exatamente na fase do crescimento que ela vai captar do espaço o CO2 que foi jogado. Então, só por aí já valeria a pena a política dos biocombustíveis. Segundo, porque gera muito emprego e, terceiro, porque é muito, muito mais limpo do que a gasolina ou do que o óleo diesel.
A segunda coisa que nós queremos discutir também com muita força, é, primeiro, a idéia de passar para o mundo que a Amazônia é nossa, e nós, soberanamente, queremos decidir como cuidar da Amazônia. Segundo, a Amazônia tem 360 milhões de hectares de matas e nós temos 381 outros milhões de hectares totalmente preparados para a agricultura. Desses, de tudo isso que eu estou falando de terra, apenas 6% é de cana- de-açúcar. Então, não aceitamos essa discussão, porque queremos preservar a nossa Amazônia. Diminuímos o desmatamento em 52% em dois anos, queremos diminuir muito mais, porque agora temos mais tecnologia para controlar. Mas queremos convencer o mundo de que os biocombustíveis são a solução para a despoluição do Planeta e para a geração de emprego e distribuição de renda.
A outra coisa que para nós está em jogo e é muito importante é a Rodada de Doha. Ou seja, os países ricos precisam compreender que é descabida a idéia de que os países que têm muito dinheiro podem conceder subsídios internos a sua agricultura em detrimento à competitividade que deveria ser dada aos países pobres e aos países em desenvolvimento.
Não falo nem pelo Brasil, porque o Brasil tem competitividade com qualquer país do mundo em se tratando de agricultura, mas eu falo das chances que nós temos que dar aos outros países que não conseguem vender o seu algodão nos Estados Unidos, que não conseguem vender o açúcar na Europa. Países que, muitas vezes, têm, no algodão ou no açúcar, o único produto de exportação. Então, para nós está claro, o mundo rico precisa abrir mão dos subsídios e ao mesmo tempo precisa flexibilizar a entrada dos produtos agrícolas dos países mais pobres.
Nós do Brasil e do G-20 estamos dispostos a fazer a flexibilização que for necessária nos produtos industriais. Agora, todo mundo tem que saber que o sacrifício tem que ser proporcional à riqueza dos países e ao tamanho do PIB desses países. Não peçam para os países pobres fazerem o mesmo sacrifício dos países ricos porque só o fato de ser pobre já é um sacrifício maior do que o dos países ricos.
Nós vamos discutir essa questão com muita franqueza, porque a União Européia precisa flexibilizar a agricultura e os Estados Unidos precisam diminuir os subsídios para que os países pobres possam exportar os seus produtos. Se tudo isso estiver de acordo, nós poderemos presentear o mundo com um acordo que parecia impossível alguns anos atrás. Sem esse acordo, não adianta falar de paz, não adianta falar de terrorismo, porque a tendência é a situação agravar- se. O que move as pessoas a viver em paz e harmonia é a esperança, é o fato de as pessoas terem um horizonte. Nós achamos que essas reuniões precisam começar a apresentar horizontes para, eu diria, quase dois terços da humanidade que está fora do processo de desenvolvimento do Planeta. E o terceiro tema que nós vamos colocar na pauta é a questão do cumprimento das Metas do Milênio. É muito bonito; 190 países vão a Roma e assinam as Metas do Milênio. Agora, fica para os pobres cumprirem. E, como os pobres não têm jeito, não vão cumprir. E qual é a participação dos países ricos? Qual é a participação deles para que os países pobres possam cumprir as Metas do Milênio? Nós não estamos nem pedindo que dêem dinheiro aos países pobres não, e também não estou falando pelo Brasil porque nós não precisamos de ajuda para cumprir as Metas do Milênio. É por isso que eu sonho com o biodiesel, é por isso que eu sonho com o etanol, porque eu fico olhando o Continente Africano e fico imaginando o que se pode plantar ali para produzir combustível que os países ricos podem comprar. É uma chance histórica que a humanidade está dando a um Continente que foi vítima de coisas tão violentas como foi o Continente Africano.
Venho para essa reunião com a convicção de que certamente não conquistaremos tudo que sonhamos conquistar, mas que certamente o G-8 sairá um pouco mais sensibilizado e levará em conta que quem está falando com eles não é menor do que eles; quem está falando com eles são países importantes, cada um no seu Continente. São países que representam 42% da humanidade e são países que estão se preparando nessa competitividade internacional. Mesmo porque eu vim com muita disposição para a reunião com China, Índia, África do Sul e México. E, amanhã, eu vou com muito mais disposição para a reunião desses cinco com o G-8, para poder discutir com um pouco de vontade. Não vou falar, obviamente, tão efusivo como eu estou aqui, mas vou falar. Se vocês quiserem saber, na hora do almoço eu não vou nem almoçar, eu quero falar na hora do almoço, porque é a chance que eu tenho de fazer com que as pessoas ouçam coisas que nem sempre é possível ouvir.
Quero agradecer a vocês e dizer para vocês que tem mais. Se vocês estiverem por aqui amanhã, na hora em que terminar o G-8, nós poderemos conversar um pouco mais para dizer o que aconteceu, no aeroporto pode ser.
Jornalista: O modelo de desenvolvimento do biodiesel, Presidente, existem diferentes modelos de desenvolvimento. Um, por exemplo, no Brasil, muito conhecido e criticado inclusive pela Europa, de etanol, produção de cana que é baseado em grandes empreendimentos com uma série de problemas e tal. Existe um outro modelo de desenvolvimento social aqui e no Brasil, de pequenos empreendimentos, coisas mais da agricultura familiar, por exemplo. Qual o projeto de governo para esse tipo de projeto?
Presidente: Primeiro que não tem um projeto, ou seja, hoje, nem a cana-de-açúcar é dotada daquelas áreas de 80 mil hectares, 50 mil hectares. Hoje o que nós vemos em vários lugares são os usineiros contratando a produção de cana de pequenos e médios proprietários de forma a garantir uma renda fixa ao pequeno proprietário e produtividade para a usina.
Na questão do biodiesel, a lei aprovada prevê uma certa flexibilização para a agricultura familiar. É por isso que quando nós pensamos em desenvolver, a partir da mamona, a partir do pinhão manso, nós pensamos em criar uma lei dizendo que o empresário da fábrica de biodiesel que contratar a produção da agricultura familiar tem uma certa isenção, desoneração de impostos.