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"FHC vai questionar De La Rúa sobre opiniões de Cavallo” (Valor Econômico, 19 de abril de 2001) “
Integração: Presidente pretende perguntar ao colega argentino se prevalece apoio ou crítica ao MERCOSUL.
Carlos Eduardo Lins da Silva, de São Paulo. O presidente Fernando Henrique Cardoso vai perguntar a seu colega Fernando de la Rúa em café da manhã que terão em Quebec amanhã, antes do início da Cúpula das Américas, qual é a opinião sobre o Mercosul que prevalece na Argentina: a do seu presidente ou a do ministro da Economia, Domingo Cavallo.
Em entrevista ao Valor, ontem à noite, FHC disse que tem ouvido “com freqüência” de De la Rúa opiniões contrárias às expressadas ontem em São Paulo por Cavallo, que se manifestou contra a tarifa externa comum no bloco econômico formado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. FHC afirmou estar “confiante” de que o que vale na Argentina é a posição favorável ao Mercosul de De la Rúa. O presidente falou sobre as posições que vai levar à Cúpula das Américas, que reunirá, no fim-de-semana, os líderes de 34 dos 35 países do continente. Entre elas: desvinculação de questões ambientais e trabalhistas do acordo final sobre a Área de Livre Comércio das Américas e inclusão das barreiras tarifárias e não tarifárias para produtos agrícolas nesse mesmo acordo.
A seguir, os principais trechos da entrevista, feita por telefone:
Valor:O que se pode esperar da reunião de Quebec se quase todas as boas intenções expressadas na Cúpula das Américas de Santiago (1998) acabaram não se concretizando? O que se pode esperar de mais prático desta nova reunião de cúpula?
Fernando Henrique Cardoso: Eu acho que está havendo um aumento de consciência dos vários países do que pode significar a Alca, para o bem ou para o mal. Isso é positivo. Começa a haver uma discussão que vai além da retórica. Os países começam a pensar em termos de suas cadeias produtivas. É isso o que se pode esperar. E também a consciência de que o mundo está se organizando em blocos regionais. E o Brasil é suficientemente grande para não ficar prisioneiro de um só bloco.
Valor: Mas no caso do nosso bloco mais próximo, o Mercosul, parece que as coisas não andam bem. Hoje, o ministro Cavallo voltou a atacar a idéia da tarifa externa comum. Como é que fica o Mercosul se um dos seus dois principais parceiros resolve derrubar a TEC?
FHC: Não é isso o que diz o presidente da República de lá. Essa é a opinião do ministro da Fazenda. É uma opinião importante, mas o presidente tem dito o contrário, diretamente a mim, com muita freqüência. Eu tenho um café da manhã com ele na sexta-feira em Quebec e eu vou perguntar a ele qual é a opinião que prevalece na Argentina, se é a dele ou a do ministro.
Valor: E o senhor está confiante que seja a dele?
FHC: Eu estou confiante porque é do interesse do Brasil e da Argentina. A Argentina está numa situação em que concordamos com a redução da tarifa pela circunstância. Agora, você não pode transformar a circunstância em permanente.
Valor: O seu governo está sendo muito criticado no Brasil por pessoas que acham que ele está muito comprometido com Alca e nos EUA por quem acha que ele está entravando a Alca.
FHC: Os brasileiros que criticam são ou mal informados ou têm um ponto de vista contra o capitalismo. O governo, tanto no caso da Alca quanto no da União Européia, tem defendido o interesse do Brasil. São processos da mesma natureza. Nós estamos querendo é aumentar o comércio, a mesma coisa com a Europa e com os EUA. Algumas pessoas aqui são antiamericanas. Quando discutimos com os EUA, acham que isso é péssimo; quando discutimos com a Europa, acham que é ótimo. É uma questão de preconceito ideológico. Nós estamos querendo fazer bons acordos.
Valor: E a política, presidente?
FHC: Hoje foi um dia mais ou menos calmo. Houve algumas discussões no Senado, mas isso é lá problema deles, que não mexe com o governo.
Valor: O sr. acha que o senador Arruda se saiu bem?
FHC: Olha, eu não vi. Mas pelo que me reportaram é que sim, ele esclareceu as dúvidas. Mas isso é questão do Senado. Eu não quero me meter com outro Poder. Eu tenho bastante problema aqui com o Executivo.