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“Presidente admite “perdão” para Argentina” ( O Estado de São Paulo , 18/07/2001)
Segundo ele, cobrança de dívida seria suspensa temporariamente para ajudar país vizinho
O presidente Fernando Henrique admitiu ontem, após reunião com a equipe econômica, que não haverá problemas em renovar o acordo com o FMI e até em aumentar a meta do superávit primário para 3,5% do PIB, se a situação argentina exigir. E tudo indica que vai exigir. Sobre o parceiro do Mercosul, o presidente, nessa segunda parte da entrevista ao Estado, reconheceu que a estratégia brasileira, no momento, é a de conceder-lhe uma espécie de waiwer (perdão) provisório até que as coisas melhorem por lá. Mas não deixa dúvidas de que é um waiwer meio impaciente com as seguidas rupturas de lealdade praticadas pelo governo argentino contra um parceiro comercial muito importante.
Estado: Sobre a questão argentina, parece que há certo consenso de economistas importantes de que seria conveniente o Brasil renovar o acordo com o FMI, em função do cenário, e fazer com que o superávit primário cresça para 3,5% do PIB, em vez de 3%...
Fernando Henrique: Se o governo encontrar necessidade, fala com o FMI. Nós temos um recorde muito importante com o FMI: há três anos cumprimos todas as metas. Então, temos boa vontade do FMI. Haver necessidade ou não depende de uma avaliação recíproca, nossa e do FMI. Se for para dar mais segurança ao País, acho bom fazer.
Estado: Isto está sendo discutido no governo?
Fernando Henrique: Sempre discutimos. Temos contatos estreitos com o FMI, que tem muito respeito pelo governo brasileiro. O programa não pode ser do FMI. O programa tem que ser nosso. Nós temos grau de seriedade suficiente para dizer: achamos que podemos fazer isto, estão dispostos a abrir um crédito? O que aconteceu da última vez? Eles nos deram US$ 40 bilhões. Nós não pegamos. Nós pegamos, sei lá, US$ 15 bilhões, e pagamos tudo, rapidamente. Isto é mais um dinheiro virtual, como que dizer par o mercado: olha, não vem que não tem. É uma blindagem, não é propriamente para usar o recurso, embora possa ser usado. A meta para o ano que vem era de 2,7%. Nós aumentamos para 3%, já por nossa conta. Podemos ampliá- la, bem como a deste ano. Seguramente, se houver necessidade, nós vamos pedir mais recursos. Hoje, os Estados estão num regime de disciplina fiscal dura, e as estatais também. Então, nós não teremos dificuldade
em atingir a meta consolidada. Aumentou o endividamento. Por quê? Continuamos botando em cima da mesa os esqueletos. Um é o FGTS. Isto é uma conta enorme, que nos foi passada pelos governos passados, e nós reconhecemos e estamos organizando o pagamento. São sei lá R$ 40 bi, ou 60 bi. Tivemos os bancos, agora, a Caixa Econômica e o Banco do Brasil. Se juntamos um com o outro, dá R$ 60 a R$ 70 bilhões. Então, o endividamento não aumentou, mas nós só reconhecemos o que já estava lá. E saneamos. Só dos Estados, foram 150 bilhões. Poucos governos tiveram a coragem que nós tivemos. Onde tem problema, nós enfrentamos. Isto vale para a corrupção, também. Nunca deixei de dizer “vá em frente”. Claro que isto dá prejuízo para mim, como político, para o governo, como imagem. Mas não estou ligando para isto. Tenho convicções.
Estado: Quem é seu candidato in pectore?
Fernando Henrique: Sou eu. (risos). Imagine se perguntasse ao papa – que não é o meu caso – quem é o cardeal in pectore dele. Ele não fala...O papa morre sem falar. Mas daqui a poucos meses vou falar o nome do meu.
Estado: Nos últimos 15 dias o governo brasileiro teve uma atitude enérgica, quase hostil, com relação ao comportamento da Argentina e depois recuou, em função das dificuldades do país vizinho. Passada a tempestade, o Sr. acha que o Mercosul tem futuro?
Fernando Henrique: Qual foi o momento em que o governo realmente esperneou? Foi no momento em que ela começou a desfazer a tarifa externa comum,o Mercosul, a idéia da união monetária, porque há compromissos internacionais e tal. E também porque foi unilateral. Assim não dá. O mais importante para nós é que a Argentina se saia bem. Então, quando o ministro Cavallo argumenta; bom, então nós aumentamos a tarifa em 7% para importação e importação. Vocês quanto desvalorizaram o real este ano? Ficamos um pouco sem argumento, porque de fato, no mínimo, desvalorizamos uns 20%. É claro que por trás disso tem outros problemas.Para que a Argentina possa voltar realmente a ter o dinamismo que nos interessa e que nós queremos, para que o Mercosul não tenha empecilhos, é preciso que a Argentina resolva não só o seu problema momentâneo, mas seu problema de base: retomar condições de crescimento. E nesse sentido mesmo algumas medidas que são muito específicas e que não são muito lá conforme a natureza dos tratados,a gente pode até entender. Meu Deus, tomara que com isso a Argentina saia do marasmo. Agora, se não sair, se começa a tomar uma medida aqui, outra acolá, começa a dar a impressão: olha ,que diabo, não é o Brasil que está atralhando. Não adianta botar tarifa em cima de nossos produtos. AArgentina tem superávit nos negócios com o Brasil, sempre teve, continua tendo. Não vamos deixar criar na Argentina um sentimento anti-Brasil que não se justifica. É o nosso jogo. Nesse momento precisamos refrear um pouco nossas aspirações.
Estado: Estamos numa espécie de waiver?
Fernando Henrique: Isso, uma espécie de waiver.